Estou em fase de decisões e definições. Escrevo o dia inteiro. Escrevo muitas coisas. E me perguntei: por que escrevo?
Por que escrevo minha tese de doutorado?
Essa é fácil. Pelo título. Se não fosse o título, eu não estaria escrevendo a tese.
Por que escrevo essas traduções, revisões, copidesques e adaptações que pego?
Essa também é fácil. Por dinheiro. Só dinheiro explica revisar enciclopédia. Ninguém poderia ser tão masoquista.
Por que escrevo o blog?
Essa é mais complicada. Já houve diversos motivos. Hoje, com certeza, é por dinheiro. Se a receita do blog fosse a zero, ele não durava um mês. Mas não só isso. Escrevo por prazer - são as coisas que escreveria de graça; escrevo por vaidade, pra aparecer - sempre tem isso; escrevo pra divulgar meu trabalho de escritor e construir uma base fiel de leitores que comprem meus livros - um investimento a longo prazo; escrevo para pegar mulher - porque teria que ser muito hipócrita pra negar.
Mas então...
Por que escrevo literatura?
Por que passei seis anos bolando, escrevendo, polindo, revisando Mulher de Um Homem Só? Por que estou há quatro anos escrevendo um enorme romance sobre empregadas e escravos?
É por dinheiro? Em pequena parte. Nunca vai render muito. Provavelmente nada.
É por vaidade? Um pouco, sempre. Mas escreveria igual se fosse um livro anônimo. Aliás, quanto mais zen fico, mais vontade de escrever livros anônimos. Mas quem publicaria?
Então, por quê? Por que produzimos Arte? Por que sacrificamos nosso tempo, nossa vida, nossa carreira, pela Arte? Por que pintamos as paredes das cavernas?
Porque a Arte participa do transcendente. Porque a Arte, mesmo para um ateu escrevendo em uma era secular, é uma forma de tocar o Divino. Porque, por mais que sejamos sinceramente vaidosos, a Arte de verdade não se faz para nós mas para um outro - ela só passa existir no espaço virtual entre o criador e o receptor.
Portanto, depois de refletir muito, a única resposta que consegui elaborar, a única que me parece 100% verdadeira e exata, é:
Escrevo o romance porque acho importante que ele exista.
* * *
Benjamin explicou tudo isso bem melhor que eu. Leiam o ensaio (é curtinho) A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin. Grátis, em português. Outros livros de Benjamin no Submarino.
* * *
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