Para os que estão lutando contra seu próprio consumismo, proponho um exercício:
Quanto tempo você consegue passar sem gastar dinheiro?
O meu recorde é uma semana.* Fica mais fácil quando você está disputando contra si mesmo.
Eu vou a pé pro trabalho. Ando por ruas residenciais para não passar por cafés, livrarias ou lanchonetes que possam me tentar. Levo uma bolsa térmica com um tupperware de comida salgada, uma fruta e um iogurte. Não compro nada pela internet.
Claro que é impossível não gastar nenhum dinheiro. Por exemplo, durante a semana em que não gastei nada, a companhia telefônica debitou trinta dólares da minha conta. Mas isso não conta, é despesa fixa. Aliás, é a franquia mensal mínima.
Então, se você não tem a sorte** de poder ir a pé pro trabalho, digamos então que sua passagem de ônibus ou de metrô, ou a sua gasolina, são gastos tão fixos quanto o meu celular.
Mas será que você consegue evitar o resto? Não comprar nem jornal nem revistas - leia na internet ou traga um daqueles livros que você está adiando ler. Não comer porcarias - traga sua comida de casa. Não parar pra um drinque ou pra um cafezinho - sério, por quê? Não comprar inutilidades de modo geral. Ser mais frugal. Se concentrar mais nas pessoas e nas experiências, e menos nas coisas.
Não é tão difícil assim. Você consegue.
* * *
*Meu recorde é de uma semana pois quarta-feira é meu dia de chutar o balde. Quarta é quando chegam os lançamentos na gibiteria. Eu saio da universidade e vou para Oak Street, meu cantinho predileto de Nova Orleans, onde confiro os novos gibis ($15), visito o sebo ($15), escolho um novo fumo de cachimbo na tabacaria ($3), passo no café-com-piano-ao-vivo e como um poboy ($10), depois sento no café-gótico pra ler e relaxar ($5). Geralmente, o programa completo sai por cerca de cinquenta dólares. E, sim, duzentos dólares por mês pesa no meu orçamento mas é menos do que você provavelmente gasta em comprinhas diárias esparsas. Pode fazer as contas.
* * *
**Eu ir a pé para o trabalho não é sorte alguma. Passei boa parte da minha vida morando na Barra, Itanhangá e Jacarepaguá e trabalhando ou estudando no Centro do Rio. Gastava em média três horas por dia no trânsito. Sei o custo que isso tem na vida de uma pessoa. Hoje, eu poderia provavelmente morar muito melhor em qualquer outro lugar, mas fiz a escolha consciente de morar perto do trabalho. Há prós e contras, mas foi uma escolha. Uma escolha, aliás, que você também pode fazer, se quiser.
* * *
Confira também os textos abaixo:
Dicas de Economia Doméstica de um Ex-Rico:
I - As Dicas Básicas
II - Viva a Vida à Vista
III - Não Pague por Nada que Possa Ter de Graça
IV - Não Pague por Nada que Possa Ter de Graça: Livros, CDs, DVDs
V - Reconsidere o seu Carro
Prisão Dinheiro:
I - Viver É Mais Barato do que Você Pensa
II - A Armadilha Consumista
III - Os Dilemas da Classe Média
IV - Caindo na Armadilha do Aumento do Padrão de Vida
V - Viver Fazendo Tanta Economia Já Não É uma Prisão?
VI - Não Existe Liberdade sem Independência Financeira
Adendos da Prisão Dinheiro:
- A Decisão Econômica de Ter Filhos
- O Endividamento nos Estados Unidos
- O Império do Consumo, por Eduardo Galeano
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