Hoje, na Folha, Danuza Leão publicou um texto dramático e comovente, que explicita um seríssimo problema da nossa sociedade contemporânea. Meus comentários vão entre colchetes. Por favor, leiam e comentem:
HÁ UNS DOIS ANOS tive uma diarista que começava a trabalhar muito cedo -por escolha dela; às 6h ela já estava em minha casa. Uma morenona bem carioca, simpática, risonha, disposta, sempre de altíssimo astral.
[Leia-se: era uma preta com aquela energia vital, sabe, que só os pretos têm, pois estão mais perto da espontaneidade primitiva da natureza e não carregam, assim, os dilemas existenciais intelectuais profundos que NÓS temos, sabe?]
[Aliás, deixa eu registrar meu protesto com a patrulha do politicamente correto. A menina era preta, preta retinta, mas nem na Folha (na Folha, hein!) eu posso escrever isso sem ser linchada, literalmente linchada!!, então sou obrigada a chamar de "morenona" mas vocês entendem, né? "Morenona" quer dizer "muito preta", "moreninha", "preta clarinha", e assim por diante. Olha, não sei onde vai parar esse mundo onde uma pessoa claramente bondosa e magnânima como eu nem pode chamar preto de preto. Ufa! Cansaço de tanta patrulha!]
Gostei dela, e como detesto fazer ares de patroa -e não sei-,
[Eu sou super humilde, gente! Quem me conhece, sabe! Esse texto é prova disso!]
tínhamos uma relação amistosa e legal, como devem ser todas as relações. Algum tempo depois, comecei a fazer aula de natação em um clube que fica a uns 500 metros de minha casa. A aula era às 7h, mas e a preguiça? Preguiça de levantar da cama, e enfrentar a distância ficou difícil. Tive então uma ideia: levá-la comigo. Assim, teria companhia para ir e voltar, e seria mais fácil a caminhada. Vamos deixar bem claro: não foi nem um ato de gentileza de minha parte, nem pensei apenas em meu proveito.
[Ai, como eu sou magnânima, né, gente? Gosto de me olhar no espelho e dizer: isso, Danuza, você está fazendo do mundo um lugar melhor! Go, girl! Mas deixa eu disfarçar um pouco na crônica, senão vai pegar mal até pros leitores da Folha!]
Achei que seria bom para as duas, e ela, que talvez nunca tivesse entrado numa piscina, ia adorar.
[Sei lá de onde vem essa gente, né? Aliás, lá em caixa-prego tem piscina? Tem telefone? Tem aspirador?]
Perguntei se gostaria, ela ficou toda feliz,
[só faltou abanar o rabo!]
e, a partir daí, todos os dias íamos juntas, conversando.
[Sério, vocês me digam, tem patroa mais legal que eu? Eu nem fazia ela andar atrás de mim nem nada! Íamos con-ver-san-do!]
Eu pagava minha aula e a dela,
[meu nome é generosidade!]
e às 8h30 estávamos de volta, alegres, falando sobre nossos progressos. Já que não posso mudar o mundo, pensei, estou exercendo o socialismo -ou a democracia- pelo menos em meu território.
[You go, girl!]
Mas notei que a cada vez que contava isso para os amigos, nenhum deles dizia uma só palavra; nem para achar que tinha sido uma boa solução, nem para ficar contra, nem ao menos para achar alguma graça. Silêncio geral e total.
[Poxa, nem um aplausozinho? Nada? Que gente mesquinha, invejosa! Aposto que não falaram nada pois sou tão legal, generosa e magnânima que isso deve incomodá-los, sabe? Eles devem se sentir mal na comparação, devem ficar pensando, puxa, eu sou um verme mesmo, como é que nunca fiz isso com a MINHA empregada?, queria eu poder ser tão legal e bondoso como a Danusa...]
O tempo foi passando. Comecei a perceber pequenos desvios no troco, às vezes dava por falta de uma das três mangas compradas na feira, os picolés que guardava no freezer desapareciam, os refrigerantes e sabonetes também, e eu pensava: "tem dó, Danuza, afinal ela toma duas conduções para vir, duas para voltar, a grana é pouca, se ela fica com oito ou dez reais da feira, é distribuição de renda. E se comeu metade do Gruyère, dizer que o queijo francês é só seu, é um horror"; e assim fomos indo.
[Olha, falando sério, vocês me digam, tem como uma patroa ser mais legal e generosa que eu? Não, sério mesmo, falando sério agora, é possível? Vocês já ouviram falar? Não estou me gabando não, mas poxa, vocês tem que reconhecer!]
Fomos indo até que um dia viajei por um mês, e quando voltei, houve problema com um cheque; coisa pouca, mas ficou claro, claríssimo, que tinha sido ela, e tive que demiti-la, o que aliás me custou bem caro, em dinheiro e pela deslealdade.
[Pra uma pessoa assim tão boa e generosa como eu, não é fácil demitir alguém, mesmo ela sendo uma ladra!]
Depois da demissão, fui descobrindo coisas mais graves -e nem vou contar todas, só uma delas: nos fins de semana, ela vinha com o marido, punha o carro na garagem do prédio e o casal passava o fim de semana na minha casa.
Depois de recibos assinados, tudo liquidado, chegou a conta do telefone do mês em que estive fora: havia 68 ligações para um único celular. Liguei para o número e soube que era de um funcionário do clube de natação, que ela paquerava.
[Ó, ela tinha vida própria a safada! Ao invés de simplesmente ir e vir do meu lado, conversando comigo, agradecida, a cretina logo arranjou seus próprios motivos pra fazer aula de natação! Não dá mesmo pra confiar nessa gente!]
Quando entrou a substituta, tive que comprar lençóis, toalhas e um monte de coisas que ela havia levado. Sei que não sou um modelo de dona de casa, mas alguém conta todos os dias quantos lençóis tem? E tranca os armários? Não eu. Durante um bom tempo fiquei mal: pela confiança, pela traição, depois de quase dois anos de convivência. E agora?
Não sei. Afinal, somos ou não somos todos seres humanos iguais, como me ensinaram?
[E, aliás, como vocês viram pelo texto, eu aprendi bem, né? Viram como falei da minha empregada exatamente como falaria de qualquer amiga minha de Ipanema. Pra mim, ó, gente é tudo igual. Ou... será que não?!]
Ou é preciso mesmo existir uma distância empregado/patrão, como dizem outros? Ou esse foi um caso singular?
[Porque, óbvio, dado que a empregada não é um ser humano com moral e motivações próprias, mas tipo uma cachorrinha que me segue pela casa e pela vida, é claro que ela não me roubou porque ELA era escrota, ou ladra, ou necessitada, ou por qualquer motivo inerente a ELA que foi quem perpetrou a ação. Nada disso, oras. Se ela me roubou, é porque alguma coisa EU fiz, é porque EU fui muito boa e generosa, é porque EU dei muita confiança. Porque, afinal, essa história toda é sobre MIM, o que EU fiz, o que EU deixei de fazer. A empregada entra apenas como sombra na parede da caverna, sem existência ou vontade própria, a não ser quando reagindo a mim ou interagindo comigo. Claro, né?]
Aprendi que a luta de classes começa dentro de nossa casa,
[E eu que nem acreditava em luta de classes!! Quem diria!]
e mais especificamente, dentro da geladeira. E enquanto o mundo não muda,
[eu é que não vou mudar, né, gente - eu já sou perfeita, bondosa, generosa!]
passei a comprar queijo de Minas, que além de tudo não engorda.
[Vejam só, no good deed goes unpunished, né? Fui dar confiança demais e agora sou obrigada a comer... argh... queijo de pobre!]
* * *
Atualização
Fiquei feliz de ver que vários leitores entenderam perfeitamente os meus objetivos aos reproduzir e comentar o texto da Danusa no blog. O mais engraçado foi que ambos vieram dizer isso em tom de desafio e crítica, de "te peguei" e de "descobri a pólvora". Primeiro disse o Jorge Nobre:
Só que a Danuza é você, Alex, é sua versão, digamos, sem consciência social. Você talvez não saiba, eu acho que não sabe, mas você a vê assim. E você entende que sua necessidade (que é a necessidade que você atribui à Danuza) de melhorar como pessoa e superar seus preconceitos é mais importante que a necessidade dos outros, não importa a sua classe ou raça, não roubarem. Por que você não entrou também na cabeça da empregada e não comentou suas justificativas para seu comportamento de ladra, ao contrário do que você fez com a cabeça da Danuza enquanto esta justificava seu comportamento condescendente? É porque a ladra não é você, mas Danuza é. É sua versão mais inocente, que você quer exorcizar, e por isso acha que condescendência dos ricos brancos é um erro mais grave que gatunagem dos pretos pobres.
E depois um leitor meio agressivo que se assina "Bomdiador" (!!):
Alex sabe que o txto nao é ironico, pois ele diz ter pertencido a esta elite que ele critica agora. Smpre que pode o Alex exalta seu tempo de elite, será que era diferente? será que os pais dele, ou ele mesmo, nunca culparam uma empregada por um sumiço na casa? Fácil criticar. Coragem ou "ingenuidade" é contar, fica o registro do preconceito nu e cru.
A Danusa sou eu, sim. A Danusa somos todos nós. Todos (ou quase) nessa caixa de comentários já estiveram na posição da Danusa, exasperados e frustrados com uma criadagem incompetente ou imoral. Por outro lado, muito poucos dos leitores aqui já foram ou serão empregadas domésticas. Nunca saberemos como é isso. O objetivo do texto é justamente mostrar para uma multidão de leitores-Danusas que, apesar de sermos ou já termos sido, de falarmos ou já termos falado como ela, que não precisamos ser assim.
Naturalmente, não entrei na cabeça da empregada porque nem sei se ela existe. Não sei se o texto é ficção. Não sei se a empregada do texto não é um compósito de várias empregadas que a Danusa teve. Não temos acesso à essa outra pessoa, aos seus pensamentos e aspirações. Dialogamos somente com as palavras da Danusa porque só temos acesso às palavras da Danusa.
Eu não exalto nem lamento ser parte da elite: eu apenas admito que sou, como o são quase todos os meus leitores, admitindo ou não, e crescemos sim cercados de mães, pais, amigos, irmãos que articulam esse mesmíssimo discurso da Danusa - e não só eles, mas nós também, que já tantas vezes caímos na tentação fácil de dizer essas mesmas platitudes preconceituosas, de pensar "poxa, como ele pôde fazer isso comigo, logo comigo, que sou um patrão tão bom e generoso!"
Então, parabéns a todos os envolvidos por terem entendido o ponto central do texto: a Danusa somos TODOS NÓS.
(Aliás, o leitor Bomdiador acertou mais uma: no brasil, os privilegiados contam sempre tanta miséria que quando alguém admite ser de elite pode mesmo parecer que está se gabando. Já falei sobre isso aqui: "A Invisibilidade do Privilégio: Ninguém É Rico no Brasil".)
* * *
Homens Invisíveis: Relatos de Uma Humilhação Social, de Fernando Braga da Costa. (SP: Globo, 2004) Profundo, lindo, fortíssimo. O autor era aluno de pós-graduação de Psicologia e, como parte de um trabalho para a disciplina de Psicologia Social, teve que exercer algum emprego "humilde" - definido como não exigindo qualquer tipo de treino ou experiência. Tornou-se gari da USP e experimentou na pele a humilhação e a invisibilidade.
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