Ruminações sobre Angústia, Beleza & Microfama

Texto originalmente escrito em fevereiro de 2005. Uma amiga querida diz que se apaixonou por mim ao ler esse texto. Eu morro de vergonha dele. Teria tanta coisa a mudar que mal consegui terminar de ler.

Liberal Libertário Libertino - CrônicasEu não sei lidar com angústia. Talvez por isso eu implique tanto com a Escola Urbana. Como eu escrevi em uma resenha, subitamente parece que esse é o único tema da literatura. Gone are jealousy, rage, guilt, sorrow, todas aquelas grandes emoções que construíram nossas consciência cultural. E, no lugar delas, só sobrou angústia, tédio, ennui, restlessness.

Nossos romances atuais são povoados de pessoas cheias de dúvidas existenciais, que não entendem mais quem são ou seu papel no universo, para quem o mundo é um amontoado sem sentido de vidas desconexas vividas por pessoas medíocres. A literatura não é mais grandiosa porque as pessoas, aparentemente, são todas pequenas: autores, personagens e leitores alike. Como amar o Homem com H maiúsculo se nada faz sentido?

Minha primeira esposa viveu um momento de angústia. Um longo momento que se estendeu por vários meses e culminou no fim do nosso casamento. Ela abandonou seu emprego e seu mestrado, abandonou a mim e a si mesma. Ficou à deriva. Leu diversos livros da Escola Urbana e via neles qualidades que não consigo ver, talvez por compartilhar daquela angústia profunda que imobiliza seus autores e personagens.

Eu tentei ajudar. Tentei de tudo. Tentei shock her back into action. Tentei dar apoio e suporte, esporros e estímulos. O momento era crucial, isso era claro. Ela não estava conseguindo mais lidar com a própria vida, não sabia mais quem era, nem o que fazer, nem pra onde ir. Abandonou a si mesma, como não me abandonaria também? Era inevitável.

Mas não consegui. Agora, penso em mais esse fracasso e considero que talvez eu simplesmente não consiga lidar com esse tipo de angústia. I just can't relate to it.

Lembro, na infância, que os amigos se distinguiam claramente em dois tipos. Havia aqueles que eram amigos pro que desse e viesse, que estariam do seu lado no matter what happened. E havia aqueles que eram amigos sociais: eram as melhores pessoas do mundo para sair, se divertir, curtir a vida, mas que você não os procurasse quando estivesse mal. Não por serem pessoas ruins ou egoístas: eles simplesmente não conseguiam lidar com dor e sofrimento. They weren't built for it. Eram daqueles que lhe ajudariam em tudo mas jamais iriam ao hospital visitá-lo: imaginá-los em um hospital, tamanha vitalidade em um local de morte e doença, seria como juntar matéria e anti-matéria. Um amigo que os conhecesse não exigiria jamais isso deles. Were they shallow? Maybe. Now, I'm really not sure.

Penso na minha total incapacidade de ajudar minha primeira esposa quando ela entrou na espiral descendente da angústia e me pergunto: será que sou assim? Será que me tornei one of those shallow people?

 Encontros e Desencontros BILL MURRAY   SCARLETT JOHANSSONO momento em que me senti realmente apartado de minha ex-mulher, um daqueles momentos pequenos que só parecem cheios de significado olhando em hindsight, foi quando assistimos Lost in Translation (Encontros e Desencontros), de Sophia Copolla, com Bill Murray.

É a história de um ator americano decadente que está no Japão para gravar um anúncio idiota de bebidas em troca de um shitload of money. Ele não conhece ninguém lá, não tem tesão pelo trabalho, está adrift. E encontra uma moça, também americana, também adrift, que está no Japão acompanhando um marido fotógrafo: enquanto ele vai tirar uma fotos no interior no país, ela fica largada em um quarto de hotel em Tóquio. Ambos, a moça e o ator, acabam se encontrando e se irmanando em sua angústia, naquele longing por sabe-lá o quê - que nem eles sabem o que é.

Eu achei o filme chato e sem-sentido. Não consegui ter empatia alguma com aquela situação, tão distante que ela estava da minha experiência - mas não estava não. A primeira-esposa adorou, saiu do cinema extasiada: dizia que aquela era a vida dele, era assim que se sentia.

Meu coração afundou um pouco. Eu percebi que meu único papel naquela história era do marido fotógrafo, que aparece somente nos primeiros minutos, ativo, doing his job, e totalmente oblivious to the fact that he had already lost his wife.

Por mais que eu tentasse, eu não conseguia relate nem com o filme nem com a angústia dela. O fosso que começava a nos separar ficou assustadoramente concreto.

Eu até fico deprimido, mas não fico angustiado, não sei nem se vocês entendem a diferença. Se eu quero alguma coisa e não consigo, eu encaro a derrota nos olhos e caio de cara no chão, mas depois durmo dezoito horas, mastigo minha raiva e me levanto, pronto pra outra.

Eu sempre sei quem eu sou, o que quero e pra onde estou indo. Nunca tenho dúvidas existenciais. Não consigo ficar perdido. Estou sempre indo, resolutamente, em alguma direção. Se for a direção errada, eu dou meia volta até a encruzilhada e pego outra direção, porque também nunca tive medo de admitir estar errado. Mas não sei ficar parado na encruzilhada debatendo minha existência, feeling sorry for myself.

Essa semana foi ruim. O trabalho duas vezes devolvido - e no qual eu deveria estar trabalhando nesse minuto - me estressou bastante e, pior, também estressou minha relação com minha sócia e melhor amiga, que está fazendo o trabalho junto comigo.

Depois veio a outra situação, que não dá pra contar em detalhes, na qual uma moça com quem eu estava começando a me envolver decidiu se afastar de mim por motivos válidos e pelos quais não posso censurá-la.

E, no meio de tudo isso, ainda me indispus com a primeira-esposa que, all in all, ainda é das pessoas mais próximas a mim.

Então, fui passar o dia em São Paulo. Tive uma reunião, moderadamente promissora, e depois me encontrei com uma amiga querida da internet, de longos papos ao longo de vários meses, com quem eu queria me encontrar.

Acho que ela nunca vai saber o que aquelas horas que passaram juntos significaram pra mim. Foi tudo tão simples. Ela me pegou e me deixou na rodoviária, me mostrou longamente sua cidade querida, comemos uma pizza, conversamos. Uma pessoa doce, inteligente, compreensiva, culta, simpática e linda - linda como poucas mulheres já foram lindas.

Um interlúdio para falar sobre a beleza.

Eu confesso que sempre fico sem graça ao elogiar a beleza de uma mulher. Sinto como se beleza fosse um atributo superficial, como se lhe elogiar a beleza fosse desdenhar suas outras qualidades, talvez mais profundas e importantes.

Dizem que nossa cultura sobrevaloriza a beleza, mas não é verdade. Nossa cultura deseja a beleza mas a desdenha. Nossa cultura trata mulheres e homens bonitos como seres superficiais e idiotas. Nossa sociedade quer a beleza para mostrar em festas ou em capas de revistas mas, when all is said and done, despreza os belos - e considera inteligência, cultura, honestidade, etc, como os verdadeiros tesouros a possuir.

Mas a beleza também é. Assim como uma pessoa realmente inteligente enriquece a vida dos que estão à sua volta, assim como uma pessoa realmente vivaz alegra e anima a vida dos que estão à sua volta, uma pessoa realmente bela também adiciona beleza às nossas vidas, ela emite luz própria nos dias mais escuros, ela dá ao mundo mais do que tira.

Talvez eu esteja falando pras paredes. A maioria das pessoas que conheço não consegue entender essa minha definição de beleza. Para elas, a beleza humana é eminentemente sexual. São pessoas que jamais entenderiam um escultor 100% heterossexual esculpindo um homem nu e celebrando a beleza do corpo masculino.

Minha ida à São Paulo foi um oásis no meio de uma semana desagradável. Não teria sido o oásis que foi se minha amiga fosse só belíssima, naturalmente - a maioria das pessoas belas que conheço é simplesmente intragável. Minha amiga foi simpática e calorosa, me recebeu com um carinho do qual eu jamais me imaginaria merecedor.

E, além de tudo isso, uma das pessoas mais puramente belas que já vi pessoalmente - e olha que moro no Rio; mulher bonita, aqui, a gente espanta com pau. Daquelas mulheres que você olha e entende, num estalo, o progresso inabalável da evolução. Ou não, pois um criacionista diria: você acha realmente que mutações aleatórias algum dia gerariam tamanha perfeição?!

Brasileiríssima, poderia ser a estrela de uma campanha pró-miscigenação. Eis o resultado de 500 anos de miscigenação, e mandaríamos sua foto aos defensores da pureza racial, desafiando-os a desencavarem uma ariana mais perfeita. Não iriam conseguir.

E, apesar disso, em todas as conversas que tivemos, eu não mencionei nenhum dos problemas acima, não por discrição, desse mal eu não sofro, nem por segredo, pois ela também sabe tudo da minha vida, mas porque eu estava lá para fugir um pouco dos meus problemas e a última coisa que eu queria era falar sobre eles, colocá-los na mesa, entre a sobremesa e o café.

Hoje, back home, estou deprimido e brocoxô, mais solitário do que nunca, pensando no trabalho recusado, na minha sócia e amiga, na minha ex-esposa, na outra amiga que eu estava começando a conhecer e não conhecerei mais, na amiga de São Paulo que foi um interlúdio tão maravilhoso e tão fugaz. Até meu pai, que me chama pra almoçar todo domingo, hoje não ligou.

Antes de retomar o trabalho, fui terminar The Hours, que estava pelas últimas páginas, e chorei, chorei. Depois, abri Leaves of Grass e fui reler Song of Myself.

Walt Whitman talvez seja meu melhor amigo. Sei que ele não me conhece, sei que ele morreu há mais de cem anos, sei que apoiou as políticas mais imperialistas de sua época, mas é difícil não imaginar que escreveu Song of Myself diretamente pra mim, e pra mais ninguém, e que todos os outros que leram leram de enxeridos que eram.

Ler o velho Walt me energiza. É como se eu enfiasse o dedo na tomasse e sentisse meu corpo se energizando às ondas - I sing the body electric, Walt. I do too.

As Horas, de Michael CunninghamLer o velho Walt também me ajuda a entender melhor o que significo para inúmeras pessoas que não conheço. Quando alguém me escreve dizendo que abri seus olhos, que mudei suas vidas, que lhes ensinei um novo caminho, eu quase rio pra mim mesmo. Eu me pergunto o que essas pessoas tanto viram em mim. Eu concluo que só me dão tanto valor porque não devem ter conhecido as pessoas certas. Leiam Miller, Whitman e Thoreau, eu recomendo, e vão perceber o quão pequeno eu sou.
Folhas de Relva WALT WHITMAN
Mas aí eu me dou conta que o melhor amigo que temos é o que está ao nosso lado quando mais precisamos. Assim como eu li Whitman, Thoreau, Emerson, Miller no momento em que mais precisei, assim como eles fizeram coisas por mim que nenhum outro poderia ter feito, estou começando a ficar mais confortável com o fato de que eu e meus textos também podemos ter chegado na vida de muitas pessoas naquele momento exato em que mais precisavam de nós, dizendo as coisas exatas que elas precisavam ouvir, durante aquelas encruzilhadas da vida em que algumas palavras são tudo o que precisamos para seguir along the less travelled road.

Perguntaram uma vez a Paul McCartney o que ele achava de dar autógrafos. Ele disse que era ocasionalmente chato mas que, desde pequeno, ele sempre quis ser músico e ele sabia que, das duas uma: ou seria um músico famoso e teria que dar autógrafos o tempo todo, ou seria um músico medíocre e ninguém quereria o seu autógrafo. Some things come with the territory.Tropico de Capricórnio HENRY MILLER

Então, eu, que estou no business of writing, eu, que, goste ou não, estou no business of changing other people's lives, tenho que começar a me acostumar com isso. Ou meus textos farão sucesso, serão publicados e republicados, serão lidos e ressoarão nas consciências dos leitores, e eu me tornarei o melhor amigo de muita gente que não conheço, ou serão virtualmente ignorados e aí nada. Vou ser feliz escrevendo pra mil e poucos leitores nesse blog.

Eu já disse antes que sou péssimo pra aceitar elogios. Sempre tenho aquela desconfiança que o elogiador deve ser meio ignorante - afinal, como pode elogiar um imbecil como eu?!

Tropico de Câncer HENRY MILLERMas ler Walt e deixar que ele me ajude também significa fazer as pazes com as pessoas que me admiram e incorporam minhas palavras às suas vidas.

Eu continuo achando que não sou tudo o que pensam de mim (assim como o Walt, no fundo, era um imperialista reacionário) mas sou imensamente grato por ele ter estado lá pra mim quando mais precisei, e também fico feliz de ter podido ajudar tanta gente quando mais precisaram. Desobediência Civil - HENRY DAVID THOREAU

Talvez até, naquele exato momento em que precisaram, eu tenha realmente sido tudo o que pensam de mim. E, na verdade, era só mesmo naquele momento que precisaram que eu fosse isso tudo. No resto do tempo, eu posso ser eu mesmo, gordo, irascível, egoísta, insensível - there's no one watching, thank god.

Ensaios RALPH WALDO EMERSONChega desse texto grande, pessoal demais e sem objetivo definitivo, que serpenteou aqui e acolá, e no qual abusei de expressões em inglês. Eu penso misturando inglês e português e grande parte do meu trabalho de revisão e correção é simplesmente retraduzir pro português as palavras e expressões que me ocorreram primeiro em inglês.

Mas não vou fazer isso. Estava precisando escrever esse texto. Me fez um bem enorme. Se eu relê-lo, ele não vai ao ar. Sei que vocês, seus abutres por fofocas, adoram quando fico mais pessoal. Então, lambam os beiços.

Eu vou fazer um café e reescrever meu relatório pela terceira vez.

Ok, não revisei, mas como sou um mocinho pobre e preciso da comissão do Submarino pra comprar cicuta, voltei e incluí os links e imagens. Sejam bonzinhos: cliquem neles e comprem qualquer trem no Submarino e eu ganho uma comissãozinho merreca

* * *

Uma versão bastante editada desta crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou; a segunda edição, de 2010, aumentada e revisada, conta com dois novos textos - inclusive um novo epílogo à narrativa do Katrina.

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05.02.11


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Comentários:


Comentário de: Alberto

Entendo a sua vergonha. Mas é só tirar o excesso de inglês desnecessário do texto, que melhora.

:-)

PermalinkPermalink 05.02.11 @ 20:09



Comentário de: Alex Castro Email

o texto está escrito na minha lingua-mae, na lingua q me vem mais naturalmente. (fui educado em ingles) geralmente, na revisao, eu só faço tirar os termos em ingles. mas esse texto nao foi revisado.

PermalinkPermalink 05.02.11 @ 20:18



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

"Walt Whitman talvez seja meu melhor amigo. Sei que ele não me conhece, sei que ele morreu há mais de cem anos, sei que apoiou as políticas mais imperialistas de sua época, mas é difícil não imaginar que escreveu Song of Myself diretamente pra mim, e pra mais ninguém, e que todos os outros que leram leram de enxeridos que eram. "

Alex, você ainda nega ser narcisista?

Ok, ok, é claro que eu sei que você não pensa assim a sério, que isso é só um truque de estilista para melhorar o texto (alias muito bom), e coisa e tal... Mas é o que Freud dizia, é brincando que nós revelamos as maiores verdades sobre nós mesmos.

E eu sempre achei seu narcisismo um narcisismo inconsciente. Como um paranóico, que tem certeza absoluta que seus delírios são verdades claras e óbvias.

Por que sempre achei isso? Ah, eu já expliquei porque aqui: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/09/09/o_povo_quer_saber_1

PermalinkPermalink 06.02.11 @ 12:50



Comentário de: Alex Castro Email

jorge, eu nunca neguei ser narcissista. (vc pode encontrar o link onde falei isso?) pelo contrário, eu sempre admiti que sou narcisissista em último grau, em tratamento - como bom alcoolatra.

meu narcissismo sempre foi, e é, muito consciente: eu existo em sociedade, nasci nela, sou imerso dela, sou parte da mesma sociedade narcissista que todos nós.

PermalinkPermalink 06.02.11 @ 12:58



Comentário de: cris · http://quitanda2008.wordpress.com

Poxa, comecei a ler toda feliz, crente que você iria desconstruir essa chatice que é a 'Escola urbana', rs. Não consegui ler a crônica toda, fui pulando pedaços, talvez haja coisa demais nela, Alex. Bom, você não perguntou, mas eu adoro dar pitaco, kkkkkk. Ah. Não tenho saco pra 'Escola urbana', mas gostei do filme da Coppola. Bj

PermalinkPermalink 10.02.11 @ 08:50



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