Antigamente, morria-se.
A morte, as doenças, a decadência do corpo eram simplesmente inimigos poderosos demais. Morrer não era uma derrota ou um azar: era triste, era terrível, era algo a ser evitado a todo custo, mas também era parte da vida.
Hoje, não mais. Você é que não comeu alimentos orgânicos o suficiente, não se exercitou a contento, não parou de fumar antes dos trinta, se estressou demais. A culpa é nossa: se tivéssemos somente feito tudo o que nos mandam as revistas de saúde (menos ovo nos anos pares, mais ovo nos ímpares) iríamos viver para sempre - como tem de ser! Mas fomos fracos, ó vida ó azar, e por isso estamos aqui nessa cama de hospital, ao pé da morte.
Pior ainda, a miragem do progresso eterno e irresistível nos promete sempre a solução de todos os problemas, logo ali, na próxima esquina, basta a gente conseguir chegar lá. Então, pegar um câncer terminal é não apenas culpa do seu estilo de vida irresponsável mas também, coitado de você, bad timing! Que azar! A Pfizer está testando agora, hoje mesmo, a droga que poderia te salvar, mas só chega no mercado ano que vem! Deu na Superinteressante que cientistas de Harvard garantem que esse seu tipo de câncer estará erradicado em dez anos, pôxa! Se você tivesse comido mais alfafa, caramba, teria aguentado chegar até lá e aí então, claro, não morreria nunca!
Afe!
Olha. Fora de brincadeira. Eu tive a melhor vida que eu poderia desejar. Fiz tudo o que quis na hora que quis. Não tenho arrependimentos. Não tenho nenhuma palavra por dizer a ninguém. Meu único medo não é morrer, pois sei que existência tem começo, meio e fim, mas fraquejar e morrer como um bebê chorão.
* * *
Baseado em um trem de pensamento que se originou em Perpetual Euphoria: On The Duty to Be Happy, de Pascal Bruckner.
Duas citações do livro:
"O talento peculiar do Dalai Lama é ter inventado, como Paulo Coelho, um Esperanto espiritual universal acessível a pessoas de todos os países, sem fronteiras ou limitações."
"Hoje, a infelicidade não é mais apenas infelicidade: ela é, pior ainda, o fracasso de ser feliz."
Assim, claro, como a morte é o fracasso de viver para sempre.
Pascal Bruckner é autor, entre outras coisas, do romance que inspirou o filme Lua de Fel, do Polanski. Preciso ler mais Pascal Bruckner.
* * *
Ok, só mais uma, dessa vez de The Tyranny of Guilt: An Essay on Western Masochism:
From existentialism to deconstructionism, all of modern thought can be reduced to a mechanical denunciation of the West, emphasizing the latter’s hypocrisy, violence, and abomination. In this enterprise the best minds have lost much of their substance. Few of them have avoided succumbing to this spiritual routine: one applauds a religious revolution, another goes into ecstasies over the beauty of terrorist acts or supports a guerrilla movement because it challenges our imperialist project. Indulgence toward foreign dictatorships, intransigence toward our democracies. An eternal movement: critical thought, at first subversive, turns against itself and becomes a new conformism, but one that is sanctified by the memory of its former rebellion. Yesterday's audacity is transformed into clichés.
Meu novo artigo, recém-publicado na Revista Estudos Hum(e)anos, sobre La Mettrie e o fracasso do Projeto Iluminista é justamente sobre as idéias abordadas nessa citação. Dêem uma olhada:
La Mettrie, Filósofo da Felicidade Individual
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