O leitor Diogo escreveu o seguinte:
Curioso você prometer a publicação das "Prisões" para justo agora. Vai ser curioso como documento arqueológico da transição do Alexandre Cruz Almeida Liberal, Libertário, Libertino para o Alex Castro caga regra.
Vem me chamando a atençâo o número de vezes ultimamente em que você tem anunciado ex-cathedra, de um jeito que lembra os pronunciamentos papais, o que as pessoas "são de verdade". Isso no twitter, no formspring e no blog.
Imagino que você esteja contente com o seu novo self, ou, ao menos, seu novo self público (sei que esta distinção é importante para você;), mas, utilizando as tuas palavras, "tenho que te bater uma real": cara, como você ficou ridículo em público.
* * *
No meu livro Liberal Libertário Libertino (que recomendo que todos comprem, está à venda em papel por R$35), tenho a seguinte crônica:
Ser Ridículo
Às vezes, eu tenho a impressão que as pessoas à minha volta me acham ridículo. Quase sempre, nem ligo. Quase sempre, nem percebo, aliás. Algumas poucas vezes, fico incomodado. Será que sou mesmo ridículo? A imagem que tento passar é de excêntrico mas a diferença entre o excêntrico e o ridículo está na generosidade de quem vê.
Aí eu me lembro que ser ocasionalmente ridículo é chato mas o custo de não ser ridículo é ainda maior. Pra nunca ser ridículo, basta fazer tudo de acordo com o padrão e nunca se sobressair, se enquadrar e se adaptar, saber a hora de falar e a hora de fechar a boca. Em suma, ser previsível.
Esse preço é alto demais. Prefiro arriscar o ridículo ocasional.
* * *
Sempre somos ridículos. É impossível não ser ridículo.
Se escrevo a favor das cotas para afrodescentes, as pessoas que acham que o Brasil é uma meritocracia sem cor vão me achar ridículo por trazer o conflito racial americano ao nosso país.
Se escrevo contra as cotas para afrodescendentes, as pessoas que acham que o Brasil é uma das sociedades mais racialmente injustas e desiguais do mundo e que o país deve uma dívida de sangue aos descendentes dos ex-escravos vão me achar ridículo por acreditar na ilusão da meritocracia.
Não tem como abrir a boca sem ser ridículo.
A questão é: você quer ser ridículo para quem? Para o povo que enfia a cabeça na areia ou para o povo que está tentando mudar o mundo?
Essa é a questão.
* * *
Ultimamente, confesso, tenho estado satisfeito, sim, viu?
Quando algum amigo vem me contar que ouviu alguém falando mal de mim pelas costas, sempre são elementos nojentos, patéticos, reaças, gente que eu teria vergonha que concordasse comigo.
Quando algum amigo vem me contar que ouviu alguém falando bem de mim pelas costas, quase sempre são as pessoas que eu mais admiro, que estão aí lutando pelas mesmas causas que eu, gente que me enche de orgulho.
Naturalmente, não é por isso que eu escrevo. Eu dou minhas opiniões porque eu as tenho, ué. Por que outro motivo seria?
Mas é gostoso ser apreciado pelas pessoas certas e ridicularizado pelas erradas.
* * *
Eu não acredito em verdade e não acredito em rótulos. Até hoje, nunca peguei nenhum rótulo para mim e sempre tive o cuidado de não apontar o dedo pra ninguém e acusá-lo de racista, machista, homófobo, etc.
Essas categorias individuais são irrelevantes: esses problemas são estruturais da nossa sociedade. Apontar o dedo para racistas individuais não resolveria nada. Caso tenha dúvidas, recomendo que leia meu texto O Racismo Não É Um Problema Individual.
De modo algum estou aqui anunciando verdades retumbantes e papais (logo eu que nem acredito em "verdade") mas somente tentando fazer meus leitores perceberem em si mesmos atitudes ou pensamentos que antes não percebiam ou que considerem o quão privilegiados são, essas coisas.
Sim, alguns se incomodam e se ofendem, sentem que apontei meu dedo direto pra eles e os rotulei de "racistas" ou "machistas", mas, por outro lado, muitos me agradecem por ter aberto seus olhos, por ter mudado sua forma de ver o mundo, por tê-los feito perceber o país de uma maneira diferente, mais justa, menos egoísta.
Se meus últimos textos têm te incomodado tanto, a questão que eu coloco é: você já tentou olhar dentro de si mesmo e se perguntar.... por quê?
Se você acha, sinceramente, que a culpa é 100% minha, que meus textos novos te incomodam porque EU me tornei uma pessoa ridícula, e que você, seus valores, suas prioridades não têm nada a ver com isso e nem precisam ser questionados e reexaminados, beleza. Aceito e respeito sua opinião.
Estou aqui, pensando e escrevendo em público há oito anos, em uma jornada filosófica totalmente pessoal, que não tem nada de única, interessante, brilhante. Eu é que te agradeço por ler, acompanhar e opinar.
Namastê.
* * *
Alguns textos relacionados:
- "Alex, Como Faço para Ser Uma Pessoa Melhor?"
- Você É o que Você Faz
Posts similares:
Ser Ridículo
Como Dizer para Alguém que Ela Soa Racista - ATUALIZADO
Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário