Camila me mandou um link com a ilustração abaixo e o seguinte comentário:
Hoje tive que explicar a um aluno que esse não é Harry Potter....
Absurdo, né? Como esses jovens podem ser tão alienados?!
* * *
Comentariozinho que eu cada vez ouço mais:
Você acredita que meu filho/sobrinho/etc nunca viu uma vitrola? Que nem sabia o que era um LP?! Que viu um telefone de discar e me disse que nem sabia como se ligava naquilo! Que não fazia idéia de quem era Elis Regina!
E todos balançam a cabeça, lamentam o pobre estado da juventude de hoje e pedem mais um chope.
Se o comentário fica por aí, tudo bem. Acho até normal as pessoas ficarem chocadas ao saber que objetos de uso comum do seu dia-a-dia e seus ídolos de antigamente estão caindo no esquecimento. Afinal, isso nada mais é do que nossa mortalidade nos sendo esfregada na cara. A fila anda.
Tenho 32 anos, dou aulas pras moleques entre 12 e 16 e, realmente, me choca constatar que eles desconhecem quem seja Ronald Reagan, Elis Regina e até mesmo Lulu Santos. Mas, no meu caso, a surpresa (caramba, é o cara que canta o tema da Malhação, como é que vocês não conhecem?!) não se transforma em julgamento de valor.
Quase sempre, entretanto, esse estarrecimento natural é rapidamente transformado em crítica sem fundamento. O comentário seguinte, depois que chega o chope, é sobre a alienação dos jovens, que só pensam em suas vidinhas e acham que o mundo começou com eles:
Outro dia, estava no carro com minha filha e as amigas, e você acredita que nenhuma delas, nenhuma, tinha ouvido falar de Elis Regina?! Ah, mas elas conhecem Coldplay, KLB, Kelly Key, Jota Quest, essas besteiras todas! Mais um, Juvenal!
E eu pergunto, sua filha nasceu em que ano? Ele responde que foi em 1985, ou seja, três anos depois da morte da Elis. Eu pergunto quando ele nasceu. 1950, é a resposta.
Muito bem. Me diga o nome de algum grande cantor brasileiro da década de 40, que encerrou sua carreira até 1950. Ele não sabe. Nenhum nome lhe vem à cabeça. Eu, que sou de 1974, estava com Ary Barroso e Carmen Miranda na ponta da língua.
Ok, algum ator então, sabe o nome de algum ator brasileiro de destaque da época? Não. Mais uma vez, nada. Nem um nome sequer. E eu, de novo, pensando em Carmen Miranda e me perguntando se Oscarito era dessa época.
Algum escritor, pelo menos, sabe o nome de um escritor? Essa achei que seria fácil. Até Machado de Assis e José de Alencar seriam nomes válidos. Mas ele balbucia: Nelson Rodrigues. Não conta. O pornógrafo estava começando carreira na década de 40, não encerrando. Aliás, ele morreu apenas dois anos antes de Elis.
Quer dizer, o puto não conseguiu dizer o nome de um, de um! artista brasileiro de renome que tivesse encerrado sua carreira antes dele nascer e ainda se acha no direito de espinafrar a filha e as amigas por não conhecerem alguém que deixou de existir três anos antes de elas começaram a existir.
Francamente!
Depois disso, começa o preconceito tecnológico:
Não é um absurdo os moleques de hoje nunca terem visto uma máquina de escrever manual? Não são uns alienados por nunca terem escutado um LP? Não são uns ignorantes por não saberem usar um telefone de discar?
Não, não, não.
Por que cargas d'água alguém, qualquer um em qualquer época, teria obrigação de ter familiaridade com objetos que não estão mais em uso, que não servem mais pra nada e que pertencem a um passado cada vez mais remoto?
Afinal, será que os nascidos em 1950 andaram de tílburi, acenderam candeeiros ou usaram escarradeiras?
Então não fode.
* * *
Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou; a segunda edição, de 2010, aumentada e revisada, conta com dois novos textos - inclusive um novo epílogo à narrativa do Katrina.
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