Esse blog é muito menos pessoal do que parece. Ele fala muito de idéias, mas quase nada dos acontecimentos pessoais da minha vida, dos meus sentimentos, das minhas dores. Quando conto uma anedota pessoal, como no episódio da caneca, é sempre no contexto de desenvolver um argumento maior, mais filosófico, mais político. Aliás, esse foi um dos meus textos mais populares de todos os tempos e agradeço o interesse de quem leu e repassou. ("Alex, Como Faço para Ser Uma Pessoa Melhor?" & Você É o que Você Faz)
Enfim, vocês não sabem nada da minha vida, e nem vou entrar em detalhes, mas 2010 foi um ano bem ruim. Me senti triste, sozinho, abandonado, deprimido quase o ano todo. Para mim, isso tudo foi novidade: raramente me deixo abater por qualquer coisa. Tudo aconteceu junto. Praticamente todas as pessoas que eram parte integrante, importante, diária da minha vida se afastaram em 2010. E fiquei sozinho, num país estrangeiro, ganhando bem menos que no ano anterior, sem poder voltar pra casa. Dezessete meses longe do Rio, um recorde - e sem previsão de voltar. Enquanto isso, sempre, no fundo do peito, aquela impressão subjacente, latente, a cada momento, de que minha vida simplesmente estava desmoronando.
Não é pra ter pena de mim, não. Eu sou grandinho. Sei o que faço. Como quase todo mundo, eu mereço as porradas que recebo. Aproveitei a solidão e escrevi muito. Foi um dos anos mais produtivos da minha vida - naturalmente, não por coincidência. Revisei a tradução de Mulher de Um Homem Só para o espanhol - obrigado, Ianina e Emanuel! Fechei detalhadamente o projeto do meu romance em andamento, Cria da Casa: Histórias de Empregadas & Escravos, que vai ficar enorme. Escrevi um artigo acadêmico a ser publicado em uma prestigiada revista norte-americana. Trabalhei bastante na tese, em dois capítulos sobre o poeta paulista Paulo Eiró e sobre as atividades de Machado de Assis como censor. Terminei mais uma noveleta do romance, de 140 páginas, sobre Cuba. Li mais e mais sobre narcissismo (recomendo enfaticamente esse blog) e comecei a frequentar um templo zen. Pra quem não sabe, os mestres zen (cuja rudeza e impaciência é literalmente lendária) são assim como orientadores de tese acadêmica - com a diferença de que a tese... é VOCÊ.
Para mim, a melhor maneira de sair de uma depressão (ou de lidar com ela) é ser menos você. Sair de você. Aniquilar seu ego. Praticar o desapego. Exercitar a empatia. Ver o outro. Daí, a prática do zen. Daí, o mergulho na ficção.
Escrever ficção (ou ser artista de modo geral) é intrinsecamente nascissista e ególatra. Não nego. Reconheço. Mas, por outro lado, ao invés desses escritores que gostam de se colocar disfarçadamente nas histórias, minha literatura nunca é sobre mim. Sempre usei a ficção para justamente SAIR de mim. A ficção é a ferramenta que me permite, por algumas poucas horas por dia, ser outra pessoa, sentir outras emoções, ver o mundo por outros olhos. De um modo bem contraditório, mas pra mim bem real, escrever ficção é justamente o momento menos ególatra, menos narcissista da minha vida.
O romance que estou escrevendo, caudatário de A Hora da Estrela, é basicamente sobre o olhar. Sobre o nosso olhar ao outro. Sobre ver e sobre não-ver. Sobre empatia e desapego. Enfim, deixo vocês com um trechinho que talvez melhor articula isso:
(Como sempre, nesse tipo de texto, preferi nem reler senão acabaria nem publicando. Vai como saiu.)
* * *
"Em 1959, eu estava exatamente onde minha mãe estava em 1945. Uma negrinha crescendo solta na casa dos patrões. Uma negrinha que todos amariam e ninguém educaria. Uma negrinha que engravidaria do primeiro que lhe dissesse un piropeo. Uma negrinha que criaria um filho sozinha. Uma negrinha que trabalharia até morrer. Nada, seja na minha personalidade, na situação política do país, ou no temperamento dos Delmonte y Aponte, me permite concluir que minha vida teria sido diferente da vida da minha mãe, da vida da minha avó.
"Não tenho memória dos Delmonte y Aponte. Quando eles se foram, na calada da noite, eu estava dormindo. Minha mãe ajudou la señora Teresa a fazer as malas. Viu que estavam nervosos. Não sabia que era para sempre. Nem eles sabiam. Tentaram convencer mamãe a ir com eles. Mas ela não iria sem mim e não é tão fácil fugir com uma menina de cinco anos. Minha mãe nem entendeu. Pensou que logo voltariam, como sempre voltavam de suas estadias na Europa. Mas voltaram somente como assombrações.
"Os Delmonte y Aponte tinham uma ligação especial com minha mãe. Cuidaram dela quando ninguém mais cuidou. Protegeram-na quando ninguém mais a protegeu. Durante anos, depois de fugirem do país, continuaram ligando: queriam saber do seu patrimônio mas também queriam saber de minha mãe, de mim, de nossa saúde, até dos meus estudos! Quando minha mãe completou o curso de alfabetización, mandaram o primeiro de muitos cartões. Dizia apenas "C O N G R A T U L A C I O N E S, R U T H", em letras grandes, redondas e espaçadas, para ela entender bem. Foram se preparando aos poucos para o golpe definitivo de perder a casa. No dia em que finalmente chegou, se consolaram de saber que ficaria para minha mãe, que tanto amavam, e para mim, que nasci nela. Mas naturalmente estou falando de los viejitos, que já morreram. Os nietos, que nasceram em Miami, são menos simpáticos. Mandam cartas regularmente. Alegam ser os donos legítimos da casa. Citam a lei Helms-Burton. Mandam cópias da ação que já está pronta. Avisam que vão nos processar assim que cair o ilegítimo regime castrista. Ameaçam que posso ser presa se pisar nos Estados Unidos. ¡¿Quien coño piensan que son?! ¡Esa es mi casa! ¡Me cago en sus avisos! ¡Como se me importara un carajo sus avisos! ¡Gusanos comepingas! ...
Minha neta, Yumí, diz que estou sendo ingênua. Que os Delmonte y Aponte não tinham nenhum carinho por nós. Que somente se importavam com minha mãe porque ela estava tomando conta da propriedade. Como tantos gusanos, não contavam com o sucesso da Revolução. Achavam que voltariam a qualquer momento. Então, melhor cultivar a boa vontade da governanta. Eu, por meu lado, acho que Yumí tem quinze anos, o que já é um tipo de ingenuidade por si só. Aos quinze anos, somos otimistas. Achamos que existem malvados. Que basta encontrá-los, matá-los, educá-los, recuperá-los, e o problema se resolve. Qualquer problema.
"Eu lembro das chamadas telefônicas del caballero Domingo. Lembro das cartas carinhosas de la señora Teresa. Lembro da alegria sincera de minha mãe - que já era então a feroz compañera Ruth, revolucionária dedicada, comunista rigorosa - ao falar com aqueles que sempre chamou de señora y caballero. A compañera Ruth tutearia o próprio Fidel, mas não conseguia se referir aos patrones sem ser como señora y caballero. Até mesmo eu, por hábito, também os chamo assim! Os Domingo y Aponte fizeram mais por minha mãe, e por seus criados, do que qualquer outra família da vizinhança. Tiveram carinho por nós quando já não havia nada a ganhar com isso. Tudo o que sei sobre eles me leva a crer que eram pessoas boas, decentes, humanas.
"Minha neta Yumí não entende que a tragédia é justamente essa. E daí esse amor? De que me adiantaria essa bondade? Quando minha mãe caiu doente de varicela, gastaram uma fortuna para salvá-la, mas nunca se preocuparam em lhe dar uma educação formal. É assim que amo meu cachorro. A bondade que não resolve nada, nem mesmo o que poderia facilmente resolver, é bondade? Não seria essa a definição de mal? Ver e não fazer, ver e deixar correr, ver e compactuar? O não-ver o mal não será parte integrante desse mesmo mal?
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Desejo a todos vocês um feliz começo arbitrário e convencionado do período que nosso planeta leva para executar uma órbita completa ao redor de nossa estrela!
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