Hoje, li um texto que me doeu muito. É difícil de discutir com gente que acha que "feminismo é exagerado" quando vivemos em um mundo onde as mulheres andam sempre acossadas, acuadas, com medo.
Um trechinho do texto, Da Angústia de Sair Sozinha:
Porque essa caminhada de no máximo 30 minutos às 22h (mais ou menos) beirou o insuportável. Sem brincadeira e sem exagero, não teve NENHUM carro que passou e não mexeu com a gente. E nenhum pedestre também. E eram “mexidas” de todos os tipos. De “inocentes” assovios até palavras mais grosseiras, do nível mais baixo imaginável.
E que sensação horrorosa hein? Essa de estar sendo constantemente violentada. E é um medo constante. Medo de mandar tomar no cu, porque nunca se sabe se o(s) cara(s) é ou não um maluco que pode se ofender e vir nos agredir… E não podendo mandar tomar no cu, medo até de dar uma risada, por medo que o cara entenda como uma abertura e venha nos abordar. E caminhamos, cabeça baixa, falando o mínimo possível, em passos apertados, presas na condição de sermos mulheres – e desacompanhadas.
Porque é assim né. Mulher desacompanhada é claro sinal de 100% à disposição dos caprichos masculinos. Só podemos nos sentir seguras (e ainda assim nem tanto) se acompanhadas de um homem. Se sozinhas, é medo constante. Mulher sozinha não pode estar sozinha por opção, por querer simplesmente tomar um drink de melão. Se está sozinha, está a mercê, é só vir e pegar a sua.
Leia o texto completo: Da Angústia de Sair Sozinha
* * *
Um dos livros mais importantes que li na vida, The Gift of Fear (As Virtudes do Medo, em português), que já presenteei pra umas seis mulheres, tem um trecho mais ou menos assim (de memória):
Pergunte a um homem quando foi a última vez que ele sentiu medo de morrer, e ele provavelmente vai contar uma história longa e aventuresca do seu passado; pergunte a uma mulher e ela vai te contar alguma coisa que aconteceu hoje, ontem, essa semana. Essa é uma das maiores diferenças entre homens e mulheres na nossa sociedade.
Recomendo esse livro com todas as minhas forças. É o tipo de livro que, sempre que vejo uma cópia, eu compro - pois sei que terei para quem dar em breve. É o livro que mais presenteei na vida.
* * *
Enquanto isso, no Reino Unido, país teoricamente não-machista, uma campanha do governo tenta coibir o "assédio sexual de rua".
Matéria do The Guardian:
'Give us a kiss love, it's Christmas': Sexual harassment at work is no longer tolerated. The same rules should apply in the street
Site da campanha: UK Anti Street Harassment Campaign
Para os de estômago forte, confiram os comentários da matéria do The Guardian.
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No romance que estou escrevendo, Cria da Casa: Histórias de Empregadas & Escravos, eu tento levantar algumas dessas questões, usando o contexto cubano para comparar. Abaixo, um trechinho:
Sabe, Cuba me ensinou uma outra lição. Aprendi finalmente como se sente uma mulher bonita. Sei como é a sensação de não poder sentar em um restaurante ou em um banco de praça sem ser abordado por alguém que não conheço, de intenções duvidosas, me olhando de cima a baixo, perguntando de onde eu sou, se tenho compromisso essa noite, qual é meu signo, quanto calço. Sei como é a sensação de ter que decidir em meio segundo se é apenas um cubano extrovertido querendo bater-papo ou se é um jineteiro pendejo querendo se aproveitar. Sei como é aquela sensação canalha mas tentadora de calcular rapidamente se consigo tirar dele o que quero sem pra isso lhe dar o que deseja. E, pelo menos, ao contrário de muitas mulheres, eu não tenho medo de ser vítima de violência, pois os jineteiros cubanos são chatos mas pacíficos.
Semana passada, por exemplo, abordei uma moça que estava estudando na Sala Cubana da Biblioteca Nacional. Quis saber o que estava lendo, contei da minha pesquisa, chamei pra tomar um refresco, convidei pra um show de Los Van Van aquela noite - tudo com a esperança de, talvez, quem sabe, ir para cama com ela. E não há nada de errado nisso.
Então, como posso culpar o jineteiro por me abordar no Paseo Prado, me perguntar sobre o Brasil, conversar sobre novela, dar sua opinião sobre o pró-álcool, me chamar para um show na Casa de la Musica - com a mesma esperança de, talvez, quem sabe, ganhar uma comissão ou me vender um charuto?
Qual a diferença entre uma cubana que se aproxima de um turista porque vê nele uma fonte possível de dinheiro fácil e um turista que se aproxima de uma cubana porque vê nela uma fonte possível de sexo fácil? Quem é o jineteiro? Quem está jineteando quem? Quem está enganando quem? Tem alguém enganando alguém?
Homens e mulheres. Brancos e negros. Brasileiros e cubanos. Feios e bonitos. Jovens e velhos. Somos todos jineteiros.
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