Hoje fui humilhado. E foi bom.
Não interessam os detalhes. Nem teve nada a ver comigo. Escritório da Imigração norte-americana. Estava servindo de intérprete na entrevista de cidadania de um brasileiro que já mora aqui há mais de vinte anos. Fui humilhado eu. Foi humilhado ele. Poderia até ter aberto a boca, mas e daí? Não estava valendo nada pra mim: meu amigo é que se fuderia.
Engoli calado. Engolir calado dói. Talvez essa seja a essência da humilhação: quando um leitor babaca nos comentários ou um mendigo bêbado na rua me xinga, eu posso escolher responder ou não - geralmente, não respondo. Mas é uma escolha. Quando um oficial da imigração me humilha e não posso responder, aquilo é cancerígeno.
Mas é bom. É bom porque me lembra por quem estou lutando. No Brasil, nunca fui humilhado. Todo mundo me trata com deferência de cidadão. Duas vezes já desafiei a PM a me prender e nada. Mas é preciso me lembrar sempre que minha situação é sui-generis. Que aqui a Imigração me humilha, mas no Brasil tem cidadão que é humilhado em todos os seus encontros com a máquina do estado. Que eu posso fugir para o Brasil mas ele não tem pra onde fugir.
Então, é por ele que eu luto. E é bom sentir a dor dele na pele de vez em quando.
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O texto abaixo foi originalmente publicado em outubro de 2007 e desenvolve melhor esses temas.
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"Vou Voltar pro Brasil, Onde Não se Humilha Ninguém!"
Matéria do Globo de ontem denuncia os maus-tratos sofridos por brasileiros em aeroportos do exterior. Uma das histórias é a da jogadora de vôlei que, mesmo tedo sido convidada por um clube espanhol, não pôde entrar no país e ainda foi humilhada pela imigração. Ela desabafa:
"Não quero mais sair do Brasil. Aqui, pelo menos, eu não sou humilhada da forma que fui lá na Espanha."
Engraçado como as pessoas passam pelas mesmas situações e tiram conclusões tão diferentes.
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Nova Iorque, imigração do JFK. Estou todo enrolado, sobretudo em um braço, mochila no outro, coisas penduradas por todo corpo. Quando o oficial da Imigração pede meus papeis, eu estico a mão até ele, documentos dobrados entre os dedos, mas sem desgrudar o antebraço do meu corpo, pra não cair tudo. Ele faz que vai pegar o papel: quando eu solto, ele tira a mão. Os documentos deslizam vagarosamente até o chão enquanto ele diz:
"Can't you even unfold it, you lazy sac of shit?"
Coloco lentamente todas as minhas coisas no chão, me abaixo, pego o papel, desembrulho e dou pra ele. Não foi nem a primeira nem a última vez que fui humilhado entrando nos Estados Unidos, mas foi a pior.
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O brasileiro que tem condições financeiras de ser humilhado no exterior é justamente aquele que nunca é humilhado no Brasil.
Na minha terra, sou dotô, sou sinhozinho. Até nas duras, me tratam com respeito. Do Galeão afora, entretanto, sou só mais um, com cara de latino nas Américas e de árabe na Europa. Não sabem como sou especial, que sou único, que tenho pai rico, que faço doutorado, que escrevo romances, esses estrangeiros ignorantes!
Entretanto, reagir à vergonha idealizando o Brasil como um país onde não se humilha ninguém é uma ilusão. Quando me humilham, tento me colocar no lugar daqueles brasileiros que são humilhados todos os dias, e não apenas quando escolhem viajar.
Peça para a Lucicreide parar de limpar sua privada um instante e pergunte a ela como se sente a cada vez que precisa da polícia, da saúde pública, do governo. Tomem um cafezinho juntos e troquem histórias tristes de humilhações passadas. Quem sabe essa experiência compartida não era o que faltava para vocês vencerem o fosso social e se irmanarem de vez?
Depois do café, claro, mande ela de volta pra privada e vá fazer as unhas, que ninguém é de ferro.
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Pós-Escrito
Tenho certeza que vai vir alguém falar mal dos Estados Unidos, então deixa eu contar uma coisa: cresci na comunidade internacional, entre diplomatas e executivos que moraram pelo mundo todo. Trocamos muitas histórias. Já visitei vinte e tantos países. E não conheço nenhum tão aberto ao cidadão estrangeiro, onde ele tenha mais direitos e menos impedimentos, do que os Estados Unidos. Se você acha que o Brasil é um paraíso, primeiro encontre algum estrangeiro que viva e trabalhe aí (não é tão comum quanto aqui, em parte por causa das leis trabalhistas impossivelmente restritivas) e, depois, pergunte sobre as dificuldades legais e burocráticas que ele sofre. Eu prefiro ser estrangeiro nos EUA do que em qualquer lugar do mundo.
Andei lendo muito sobre humilhação para meu romance Empregadas & Escravos. Quem tiver mais interesse, recomendo fortemente o livro de Fernando Braga Costa, Homens Invisíveis, sobre suas experiências entre os garis de São Paulo, e a Condição Operária, de Simone Weil, sobre o cotidiano das fábricas francesas. São dois livros sensacionais, que mudaram muito a minha "percepção de sinhozinho".

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Meu livro Liberal Libertário Libertino reúne minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição, de 2010, aumentada e revisada, conta com dois novos textos - inclusive um novo epílogo à narrativa do Katrina.
Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed.: 2010) Livro.
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