Eu sou socorrista. Já tive oportunidade de salvar a vida de dois acidentados. Por coincidência, ambos atropelados bem na minha frente.
A primeira tarefa do socorrista é tomar o controle da situação e não deixar os bem-intencionados populares terminarem de matar a vítima. Em um dos atropelamentos, se chego dez segundos atrasado, dois bons samaritanos já teriam levantado o menino do asfalto e acabado de quebrar sua coluna.
Como um general no campo de batalha, eu tomo controle da minha tropa e delego tarefas aos meus subordinados: você, de vermelho, liga pra polícia, 190; você, de verde, liga pros bombeiros, 193; você, de rabo de cavalo, consola a motorista e diz que não foi culpa dela; você, com a pasta, pega o triângulo no meu porta-malas pra desviar o trânsito, etc.
Ao contrário do que diz o senso comum, o pior lugar para se ter um ataque cardíaco fulminante é no meio de uma multidão. A responsabilidade se difunde e as pessoas nem se sentem culpadas por não lhe ajudar: pensam que os outros também poderiam ter ajudado. Aliás, se ninguém ajudou, vai ver nem era tão sério assim. Melhor continuar andando, não se meter. À noite, todos os santos que passaram por cima de você enquanto estrebuchava até a morte vão botar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos.
Se puder escolher, tenha seu ataque cardíaco diante de uma única pessoa. Ela vai ter sobre si todo o peso da responsabilidade. Sabe que, se não lhe ajudar, você vai fatalmente morrer. Não há mais ninguém para repartir esse fardo.
O melhor modo de quebrar a difusão de responsabilidade é delegando tarefas. Ao invés de gritar um socorro genérico, experimente dizer: você aí, de bigode loiro, vem aqui me ajudar agora!
Para o homem do bigode loiro, já não existe mais o conforto da difusão de responsabilidade. Ele foi especificamente convocado. Se não atender, aquilo pesará em sua consciência pra sempre.
No raro caso de ele não lhe ajudar, você também terá mobilizado a multidão, que ficará revoltada com a covardia do homem do bigode loiro, que absurdo!, e vão fazer algo para corrigir esse abandono.
Eu já sei até o que você vai dizer, ingênuo leitor: quanto cinismo, Alexandre! As pessoas obedecem porque querem ajudar.
Sim e não. Elas obedecem porque foram treinadas desde cedo pra isso. Ajudar é só uma feliz conseqüência. Para a maioria das pessoas que conheço, obedecer é um ato muito mais instintivo do que ajudar.
Obedecer, afinal, significa evitar o conflito, agradar, pertencer. Quer coisa melhor que isso?
Revolta só em último caso, só quando colocados contra a parede, só quando a opção é o impensável.
Meu único receio, enquanto controlo a cena do acidente, é que minha interpretação de "o homem que sabe o que está fazendo" seja tão boa que desestimule alguém que realmente saberia o que fazer de se apresentar. Por isso, eu sempre pergunto se há algum médico presente.
Talvez seja esse o segredo da obediência.
As pessoas nunca sabem nada de nada, mas têm uma fé profunda e inabalável que alguém, em algum lugar, sabe. A chave pra controlar qualquer multidão é convencê-los de que você é esse alguém.
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Leia mais sobre difusão de responsabilidade e bystander apathy.
Esses conceitos têm uma aplicação muito ampla. Encontrei um artigo da Harvard Business School explicando porque é mais eficiente mandar um único email individualizado para uma única pessoa pedindo ajuda do que fazer o mesmo pedido genérico para 500 pessoas.
Eu particularmente adoro o modo como os economistas pensam o mundo. Eles chamam esse conceito de Volunteer Dilemma e tecem umas considerações muito interessantes. Segundo o game theorist Rapoport, os nativos da Terra do Fogo possuem uma palavra que quer dizer
"looking at each other hoping that either will offer to do something that both parties desire but are unwilling to do."
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Esse texto faz parte da Prisão Obediência, postada no blog em novembro de 2005, e que reli agora, durante uma conversa sobre aborto, bioética e o "argumento do violinista", proposto por Judith Jarvis Thomson em 1971. Mais detalhes sobre o violinist thought experiment, em inglês. Leia também: "Abortion and Thomson's Violinist: Unplugging a Bad Analogy. Comments on why the prenatal child has the right under individual liberty to be in the mother's womb"
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O Livro das Prisões está sendo revisado e organizado por um editor independente e daqui a pouco está pronto.
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Meus livros à venda. Se for comprar, pra fins de comissão, prefiro fortemente que compre pelo meu site. Também à venda na Amazon. Vá no Skoob e dê sua opinião.
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