Que não é tão bom quanto acha que é, ou mesmo quanto poderia ser?
Que suas prioridades estão todas erradas?
Que é uma pessoa ruim, mesquinha, egoísta, interesseira, vaidosa, idiota?
Que tudo que diz é mal-compreendido?
Que as pessoas lhe entendem mal porque é um incompente sem trato social que não consegue nem articular suas opiniões e sentimentos?
Que suas muitas falhas de caráter afastam mesmo as pessoas mais bem-intencionadas que tentam se aproximar?
Que deve haver um motivo pra não conseguir manter uma amizade ou um amor ou mesmo um emprego?
Que pode muito bem estar se iludindo sobre sua vida, sobre seus talentos, sobre suas possibilidades, sobre tudo?
Que é bem possível que todas as suas crenças mais arraigadas sejam simplesmente mentiras?
Que deveria ter feito tudo diferente?
Que nunca fez nada de útil, de belo ou de duradouro?
Que a maioria dos seus problemas foi causada por sua maldita boca-grande?
Que se não fosse sua maldita boca-grande, talvez nunca ninguém tivesse nem reparado em você?
Que é só um animalzinho sem alma em um universo enorme e que provavelmente tem mais dias pra trás do que pra frente?
Que pode muito bem ter desperdiçado toda sua vida, e pra quê?
Que você é um amigo ausente, um amante medíocre, um filho relapso, um artista banal, um profissional incompetente, uma pessoa patética?
Que consistentemente tomou a decisão errada, não uma, não duas, mas quase todas as vezes?
Que talvez o ponto culminante da sua vida já tenha passado faz tempo, que foi uma besteirinha boba (lembra aquela eleição estudantil que você ganhou aos 16 anos? pois foi isso) mas que, mesmo assim, você nunca mais vai fazer melhor e vai ser daí pra baixo?
Que deus não existe pra dar significado a sua vida e que você mesmo, que poderia ter feito isso, não fez, então sua vida é autenticamente, profundamente, completamente sem nenhum sentido?
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Que o seu melhor pode muito bem simplesmente não ser suficiente?
Que mesmo a coisa que faz melhor nem assim faz bem?
Que não amou direito quem deveria ter amado, e que não odiou direito quem deveria ter odiado?
Que sua mulher só está com você porque é mais cômodo, ela está acostumada e já sabe os truques pra te trair?
Que seus amigos nem sabem muito bem porque são seus amigos (hábito, talvez) e suspiram de tédio quando vêem seu nome no celular?
Que seu cachorro só lhe abana o rabo porque lhe dá comida?
Que sua mãe só gosta de você porque lhe pariu?
Que deveria ter feito o que seu pai mandou desde o começo e pronto?
Que o momento de virada da sua vida pode ter sido há anos atrás e você nem se deu conta, como ter desprezado a menina cujo pai teria financiado sua empresa ou dito uma palavra rude pra um amigo que, anos mais tarde, teria seu destino em suas mãos?
Que nunca houve nem momento de virada, que nunca teve a menor chance, que esteve sempre condenado à mais absoluta e irremediável mediocridade?
Que é bem capaz de simplesmente ter um azar monumental?
Que essa é a alternativa caridosa, pois se não tem azar, então seu fracasso só se explica em função de sua enorme, abissal, cataclísmica incompetência?
Que sua melhor fase já passou?
Que nem sua melhor fase foi lá muito boa?
Que nunca mais vai ser feliz como já foi?
Que talvez nunca tenha realmente sido feliz?
Que nunca mais vai ter uma mulher como aquela, um emprego como aquele, um texto tão bom, uma ereção tão firme, uma partida de tênis tão perfeita, um corpo tão sarado, uma memória tão eficiente, uma disposição tão energética, uma cabeça tão peluda, um seio tão firme, um raciocínio tão rápido? Que tudo isso é passado e que, de agora em diante, tudo, tudo vai ser pior?
Que não é a prioridade da vida de ninguém?
Que manda mal mesmo nas coisas que acha que manda bem?
Que se não conseguiu nada sendo jovem, saudável e bem-disposto, o que lhe faz pensar que vai conseguir alguma coisa depois de velho, cansado, doente, desanimado?
Que se morresse amanhã, seria como se nunca tivesse vivido, seria esquecido em dois meses e fim de história?
Que todos seus sonhos nunca vão se realizar, nunca poderiam ter se realizado, e que foi um idiota de ter investido tanto tempo e se sacrificado tanto em função de quimeras infantis?
Que não é nada, ninguém, zero, zilch?
Você já parou pra pensar nisso? Eu já.
* * *
Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição já está disponível para pré-venda, com entrega antes do natal.
Os compradores vão ganhar um marcador de livros exclusivo. A edição será numerada: você paga quanto quiser; quem pagar mais, ganha os menores números. Depois da compra, eu te escrevo confirmando o título do livro e seu endereço para envio. Os livros devem ser enviados no começo da semana que vem e chegam em qualquer ponto do Brasil em até cinco dias úteis - ou seja, antes do natal.
O livro é em formato bolso (igual a Mulher de Um Homem Só) e ficou com 234 páginas.
Livros de crônicas, leves e engraçados, são o perfeito presente de natal para aquelas pessoas que você ou não conhece muito bem ou que acha que, sério, nunca vão mesmo ler a trilogia da ditadura do Gaspari. Pedidos de três ou mais livros são fortemente encorajados.
Infelizmente, não será autografado pois estou no exterior.
Lembrem-se: o melhor jeito de celebrar o nascimento de um homem que abriu mão de todos os bens materiais é sair comprando desenfreadamente. Obrigado e fiquem com Veblen. Aliás, leiam Veblen: ele bem explica isso tudo.
* * *
Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed.: 2010) Livro. 234 pp.
Preço recomendado: R$35 / US$25, frete incluso
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