Censura e Inoperância Artística

Alguns leitores me perguntam o que faço da vida. Ou comentam que passo muito tempo online.

Bem, posso dizer que nunca escrevi tanto quanto em 2010. Eu não saio, não namoro, não bebo: basicamente passo o dia em casa, no computador sem internet, escrevendo escrevendo escrevendo - ou meu romance sobre empregadas e escravos ou minha dissertação sobre escravidão e literatura.

Ontem, postei um trechinho do romance, então, hoje, aqui vai um trecho da dissertação, abertamente inspirado por esse post de Alexandre Nodari, que também me passou o artigo de Pimenta citado abaixo:

Espumas Flutuantes Os EscravosBerlin Alexanderplatz

* * *

Em larga medida, só se censura aquilo que se teme. A liberdade de expressão do bobo da corte é inversamente proporcional ao seu poder: somente tudo fala quem nada pode. Os cafeicultores paulistas eram tão extremamente ciosos de suas prerrogativas quanto qualquer elite: se Castro Alves pôde "cantar os escravos" em plena caverna dos leões é porque jamais ocorreu a ninguém que suas poesias tivessem o poder de influenciar a realidade política e econômica do país. Já no século XIX, especialmente com a noção burguesa de uma arte engajada e moral cujo objetivo seria didático e prescritivo, alguns autores protestam contra tamanha "inoperância social": nas palavras de Alberto Pimenta, eles exigem que "a arte seja sujeita às sanções normais aplicadas a todo o delito verbal, vendo nessa igualdade perante a lei a justificação da sua importância social e a manifestação da sua liberdade." (9) Eça de Queirós, por exemplo, em 1871, protestava contra a publicação nos jornais de uma poesia repleta de termos do mais baixo calão que "nenhum jornal publicaria ... em prosa" mas "como se consente então a sua publicação em verso?" (9) (Machado de Assis teria concordado: em 1878, em uma resenha bastante dura de "O Primo Basílio", ele criticava justamente "a obscenidade sistemática do realismo".) Ainda sobre a inoperância da arte, Pimenta cita também o autor alemão Alfred Döblin, escrevendo em 1929: "'A arte é sagrada' praticamente não significa outra coisa do que: o artista é um idiota, deixem-no falar à vontade. ... 'A arte é livre', quer dizer, é totalmente inofensiva, os senhores e as senhoras artistas podem escrever e pintar o que lhes apetecer... A arte, porém, não é sagrada e é lícito proibir obras de arte. É uma ofensa à arte dizer deste modo que ela é sagrada, e torná-la inoperante." (10)

 Machado de Assis: Obra Completa Primo Basilio

* * *

Esse post é um trecho não-finalizado de uma dissertação em andamento, e vai se auto-destruir em 5...4...3...

 

08.12.10


Categorias: Livros


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Comentários:


Comentário de: Alexandre de S. Thiago Lemke · http://www.doisvintens.blogspot.com

Ah! Eu ia comentar, mas como esse trosso vai se autro-destruir mesmo...

PermalinkPermalink 08.12.10 @ 23:19



Comentário de: Mário Marinato · http://www.osarcofago.blogspot.com

Me veio à mente uma cena do filme O Mentiroso, de Jim Carrey.

No filme, por conta de uma promessa do filho, o personagem de Jim Carrey fica incapaz de contar mentiras. Uma colega de trabalho descobre o seu "problema" e, durante uma reunião com os chefes da empresa, ela pede para que ele dê sua opinião sobre o presidente da empresa, presente à mesa.

Ele então desce o malho no cara. Xinga, tripudia, mete o pau. Todo mundo cai na gargalhada, inclusive o presidente, elogiando o bom humor do sujeito.

O bobo da corte pode.

PermalinkPermalink 08.12.10 @ 23:28



Comentário de: Alexandre de S. Thiago Lemke · http://www.doisvintens.blogspot.com

A arte não é sacra, nem inoperante. Isso significa que ela pode influenciar, causar tanto bem quanto mal.

E aí? Podemos censurar? Se não, pq motivo? Se sim, sob qual risco?

PermalinkPermalink 09.12.10 @ 00:56



Comentário de: Diogo

Bom texto!

PermalinkPermalink 09.12.10 @ 01:47



Comentário de: rafael

A dissertação deve ser entregue em inglês ou português?

PermalinkPermalink 09.12.10 @ 11:18



Comentário de: Alex Castro Email

portugues.

PermalinkPermalink 09.12.10 @ 12:09



Comentário de: Diogo Batalha · http://www.twitter.com/diogobatalha

"Em larga medida, só se censura aquilo que se teme. A liberdade de expressão do bobo da corte é inversamente proporcional ao seu poder"

Lindo.

PermalinkPermalink 09.12.10 @ 14:04



Comentário de: Filipe Teixeira da Silva

Faço das palavras do Diogo Batalha as minhas!

Pelo amor de Deus, eu quero ler essa dissertação!

PermalinkPermalink 09.12.10 @ 18:18



Comentário de: Alex Castro Email

eu agradeço o interesse. com certeza, meu orientador tb deve estar querendo ver a tese! :)

PermalinkPermalink 09.12.10 @ 22:05



Comentário de: Fernando Serboncini · http://fserb.com.br

lindo lindo. adorei. :)

PermalinkPermalink 09.12.10 @ 22:13



Comentário de: Carlos

Obrigado por me apresentar ao "Consenso, só no paredão!"

Abraços
e
Boa Sorte!

PermalinkPermalink 10.12.10 @ 10:28



Comentário de: João Paulo Cursino · http://sratoz.wordpress.com

Ué. Mas é isso mesmo.

Por que uma obra é censurada? Porque é reputada "perigosa". O problema não está em o Autor dizer; está em algum leitor ler. Porque periga o leitor levar a obra a sério, pensar a respeito e virar inimigo do sistema. "Não podemos deixar que as pessoas leiam isso: haverá revolta e subversão. Será uma desordem!"

Então, o censor teme não o Autor, mas a massa leitora. A censura é para que ninguém leia/veja/ouça a obra. O censor quer bloquear o acesso que a massa teria à obra.

Se houver certeza de que a massa não vai levar a obra a sério, o censor sossega e não censura.

PermalinkPermalink 10.12.10 @ 15:21




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