Para muitos autores, a maior conquista da monarquia brasileira foi a nossa unidade nacional. Sem a centralização de poder nas mãos do Imperador, o Grão-Pará ou a República de Piratini poderiam hoje ser nações tão independentes quanto Chile ou Venezuela. (Se isso foi bom ou não é outra história.) Durante todo o século XIX, os defensores do Federalismo (ou seja, maior autonomia para as províncias) eram os republicanos: havia uma percepção generalizada de que nossa monarquia, centralizadora e escravista, seria incompatível tanto com o federalismo quanto com a abolição.
Joaquim Nabuco, entretanto, deputado pernambucano, era ao mesmo tempo monarquista, federalista e abolicionista e não via incompatibilidade alguma entre eles. Em 8 de agosto de 1888 (sim, 8/8/88), naquela breve janela entre a abolição e a república, ele defendeu essas idéias em um de seus mais belos discursos. (Reparem como ele já faz menção à idéia sulista de que carregavam o Norte nas costas.) Alguns trechos:
A obra da monarquia no Brasil tem sido inconscientemente em parte, mas, em parte também com imenso sacrifício próprio, uma obra nacional por excelência. Em primeiro lugar, ela fez a Independência, foi a obra de Pedro I; em segundo lugar, e esta é a grande obra do Segundo Reinado, ela fez a unificação do povo brasileiro (apoiado); em terceiro lugar, ela fez a Abolição da escravidão, o que quer dizer a igualdade das duas raças vinculadas ao nosso solo. (Apoiados. Muito bem!)
Não há razão para que ela não faça agora a organização definitiva do país que libertou e igualou, sob a forma federal, a única que permite o crescimento legítimo e natural de todas as partes da comunhão. Acusa-se o Imperador e seu Reinado de ter estabelecido a centralização pesada que liga todo o País no Governo Central. É isto verdade, mas não há dúvida de que, se não fosse também a ação desta causa, o Brasil não se teria constituído em nação homogênea, e o território ter-se-ia talvez dividido em tantas regiões quantas são as diversas grandes zonas dos interesses nacionais. ...
Tivemos e teremos ainda, é certo, que pagar essa obra da unificação nacional com uma perda sensível da autonomia das Províncias. As Províncias perderam muito da sua antiga energia; o seu crescimento autônomo teria sido muito mais vigoroso, mas era preciso que durante o tempo da fusão nacional o sentimento particularista, autonomista não estivesse tão vivo como dantes. ...
A idéia federal não é uma idéia, em si, liberal ou conservadora, é uma idéia apenas devida local, é um recurso extremo de salvação para o Norte e uma medida de justiça e de eqüidade para o Sul.
Não é justo que Províncias, como a de São Paulo e outras, que se vão desenvolvendo e crescendo, carreguem com uma parte de responsabilidade além da quota que lhes deve pertencer; assim como, quando se nos propõem aqui esses gigantescos projetos que se dividem por todo o Império, é impossível repartir o beneficio de forma eqüitativa, e de sorte que o encargo da Província corresponda exatamente ao que lhe aproveitou. Eu sei que se lança sempre em rosto ao Norte a imensa despes aque o Império fez com a seca do Norte. Mas eu quero crer que, se nesse tempo houvesse já a independência das Províncias, ter-se-ia feito muito mais economicamente, com muito menos desmoralização para o povo, com muito menos ônus para o contribuinte e com muito mais moralidade para os contratos, do que foi feito todo esse imenso e desacreditado serviço da seca do Norte.
Terminando, Sr. Presidente, devo dizer que não acredito que a monarquia perca esta grande oportunidade de conseguir a clientela das Províncias, como já conseguiu a da raça negra.
A monarquia matou o colonialismo; matou depois o separatismo, o particularismo; matou o escravismo.
Mas sempre tem um gaiato:
O Sr. João Penido – E há de matar-se a si própria. (Riso.)
Dito e feito.
A Monarquia não sobreviveu à abolição e caiu de madura. O República renomeou o país Estados Unidos do Brasil e estabeleceu uma constituição federalista que possibilitou, entre outras coisas, a política do café-com-leite. Até que, um dia, um gaúcho baixinho amarrou seu cavalo num obelisco... mas isso já é outra história.
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Referências:
Vamireh Chacon. Joaquim Nabuco. Revolucionário Conservador. (Sua Filosofia Política). Brasília: Senado Federal, 2000. pp.204-208. (Disponível na Internet)
Anais do Parlamento Brasileiro. Câmara dos Srs. Deputados. Terceira sessão da vigésima legislativa. De 3 de agosto a 1 de setembro de 1888. Volume IV. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1888. pp.95-96. (Disponível na Internet)
R. Magalhães Júnior. "Prefácio" in Machado de Assis. Diálogo e Reflexões de um Joalheiro. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1956. pp.22-23.
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