Amigo que já morou em São Francisco: - Então, eu acordei com os móveis chacoalhando, peguei minha filha e corri pra rua.
Eu: - Você nunca pode correr pra rua. Morre muita gente eletrocutada pelos fios de alta tensão que caem dos postes.
Ele: - Pois é, depois me disseram isso, tem mais é que ficar no vão da porta, ou embaixo de uma mesa forte.
Eu: - O bom de furacão é que sempre tem muito aviso, já terromoto acontece de repente.
Ele: - Depois disso, eu passei a manter uma bolsa-terremoto sempre pronta perto da porta, com back-up dos arquivos do computador, dinheiro, nossos passaportes e documentos.
Eu: - É, em Berkeley eu também fazia isso. Lá em Nova Orleans, todo mundo está no esquema também, eles costumam evacuar a cidade sempre que tem possibilidade de um furacão, o que acontece quase todo ano, e o pessoal é acostumado, tem onde ficar em caso de evacuação etc. Esse ano, eu já estava combinado de ir pra casa de uma amiga no Tennessee. Se ela visse que Nova Orleans estava sendo evacuada, já podia me esperar batendo na porta dela com o Oliver.
Amiga, carioca da gema, sinceramente chocada: - Meu Deus, como as pessoas conseguem viver assim?
Ele: - O ser humano realmente se acostuma a tudo. É impressionante.
Eu: - Que mundo!
Ela: - Bem, está na hora de ir pra casa, está ficando tarde. Por onde vocês vão?
Ele: - Não sei. Eu nunca passo pela Linha Amarela depois das 10h, mas hoje à tarde teve tiroteio na Rocinha...
Eu: - Não é muito contramão pra você?
Ela: - Vale mais a pena fazer a volta do que passar no meio do fogo de novo. Eu já fui da Barra à Freguesia pelo Itanhangá pra não passar pela Cidade de Deus.
Eu: - Mas isso era na época que dava pra passar por Rio das Pedras tranqüilo. Hoje, parece que as milícias estão perdendo terreno pros traficantes.
Ele: - Deixa eu ligar pro meu irmão e pedir pra ele ver na internet se está tendo tiroteio em algum lugar.
Etc.
* * *
Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição já está disponível para pré-venda, com entrega antes do natal.
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