Tenho sentido enorme nojo da cobertura da imprensa sobre o Tiririca. Tenho sentido mais nojo ainda da detestável, quase nazista caça às bruxas empreendida pelo Ministério Público. Me enoja o claro, aberto, escancarado preconceito de classe. Me enoja tratarem o pretenso analfabetismo do deputado eleito como se fosse um crime, uma nódoa, uma mancha DELE e não NOSSA, como se estivessem investigando um criminoso, como se seu pretenso analfabetismo fosse uma falha de caráter dele e não sintoma do fracasso do nosso projeto de país, prova da nossa incapacidade de alfabetizar nossa própria população. Se Tiririca fosse "desmascarado" analfabeto, então as elites que governam esse país há séculos é que teriam que lhe pedir desculpas.
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Na verdade, sejamos honestos, a campanha nojenta não é do Ministério Público, mas de UM promotor, Maurício Antonio Ribeiro Lopes . Tiririca passou em todos os testes, aceitou todas as humilhações com um sorriso (Tiririca está acostumado a sofrer indignações nas mãos de gente como Maurício Lopes), mas o promotor quis mais. Mesmo um juiz tendo afirmado que, para ser considerado alfabetizado de acordo com o lei, "ter noções rudimentares de língua pátria", mesmo o desembargador que aplicou o teste tendo afirmado que Tiririca leu e escreveu a contento, o promotor não largou o osso, exigiu perícia em documentos de campanha, exigiu novos testes. Em sua sanha inexplicável de destruir o deputado eleito, nada estava bom o suficiente.
Agora, finalmente, começou a pegar mal. A corregedoria do Ministério Público vai investigar a conduta do promotor. Da FSP:
Segundo o conselheiro do CNMP Bruno Dantas, autor da representação, o promotor realizou "manifestações públicas inadequadas, exageradas e preconceituosas" contra o humorista. Para Dantas, Lopes "optou pela desmoralização pública do candidato eleito, em vez de pautar sua atuação na técnica processual, como faz a maioria dos membros do Ministério Público que não depende dos holofotes". A representação teve como fundamento entrevistas concedidas pelo promotor nas quais ele classifica o caso como "questão de honra" e disse que a eleição de Tiririca foi um "estelionato eleitoral".
Enquanto isso, tenho amigas que dizem que brocham quando um parceiro em potencial comete um erro de português.
Uma me contou que tinha um namorado lindo e incrível e perfeito, mas que morria por dentro quando, em suas cartas de amor, ele escrevia SALDADE, com L e em maiúsculas. E eu não entendo. Qual é o problema? Ortografia é convenção. No português brasileiro não-sulista, a pronúncia é rigorosamente a mesma. O significado foi perfeitamente entendido. A mensagem foi transmitida e decodificada. O sentimento é real. O cara era um excelente namorado. Então, qual é o problema? Por que essa palavrinha é tão importante? De tanta coisa que poderia ser importante (ele ser peludo, ele torcer pelo Flamengo, ele não saber nada de química, etc), por que é justamente com o bom uso do português que as pessoas encrencam?
Outra perguntou se eu continuaria com uma psicóloga, de quem gostei muito, mas que usou "seje" na primeira sessão. Eu quase nem entendo essa pergunto. E daí que ela usou "seje"? O que isso tem a ver com sua capacidade profissional como psicóloga, com sua empatia, com sua inteligência? É como perguntar se eu teria continuado com uma psicóloga se tivesse reparado, na primeira sessão, que ela era.. canhota!
Não, eu não acho que erros de português são bonitos - mas também não acho que sejam feios. Passo o dia inteiro ensinando português e corrigindo erros assim - são erros, não falhas de caráter. Imagino que acharíamos ridículo o professor de Física dizer que brocha se sua potencial namorada não sabe as três leis de Newton, mas achamos normal fazer pouco do português uns dos outros.
Já eu brocho de ver alguém se importando com essas minúcias.
Tem gente que acha que o Brasil só vai pra frente quando todos falarmos um português correto e castiço. Eu acho que o Brasil só vai pra frente quando deixarmos de ser um país elitista e desigual que usa a língua, entre outras coisas, como diferenciador de classes sociais.
* * *
Minha Série Analfabetismo e Voto no Brasil Imperial foi inspirada na perseguição ao Tiririca:
1. O Voto na História do Brasil
2. Os Dois Documentos e os Analfabetos (Pequena História da Cidadania no Brasil)
3. Por Que Tantos Brasileiros Pobres e Analfabetos Podiam Votar no Brasil Imperial?
4. Por Que Pobres e Analfabetos Perderam Direito ao Voto no Império?
5. Devem Pobres e Analfabetos Poder Votar?: Argumentos Pró e Contra
Duas recomendações: Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno, à esquerda, é um livro que me marcou muito: lindo, forte, aberto, tolerante, recomendo sem restrições. É um livro polêmico, para amar ou odiar. Para os que odeiam, sugiro o livro de Verdes-Leroux, à direita, onde Bagno é "denunciado nas suas incoerências, na sua intolerância e no seu populismo barato." Não li, mas quem quiser ler e me contar os argumentos, fique à vontade.
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