Uma cena que aconteceu comigo repetidas vezes nos Estados Unidos, sempre com pequenas variações: Chego no caixa do supermercado, coloco minha cesta de compras no balcão, passam-se alguns segundos de constrangimento, enquanto o idiota aqui, criado como um principezinho entre dezenas de criados, não percebe que não tem nada de esquisito acontecendo, e a atendente finalmente diz: "Sir, please remove your items from the basket."
E eu me dou conta de que a moça do caixa, apesar de ser inculta e ter um subemprego, é filha de uma cultura que enfatiza que todos os cidadãos tem direitos iguais e são iguais perante a lei. Ela pode ser apenas uma operadora de caixa mas sabe que, independente de quem eu seja, eu não sou melhor que ela em nada. Ela tem um emprego que lhe demanda fazer X, Y e Z, não A, B e C, e pronto. Sua mentalidade é service-oriented ("Would you like fries with that, sir?") mas não serviçal ("Deixe eu lhe servir, sinhôzinho!")
Deve acontecer muito com nossos patrícios visitando a civilização. Acostumados que estamos a ser servidos e paparicados por nossa casta servil, achamos que esses americanos ignorantes (faz parte do nosso folclore consolador compensatório imaginar os donos do mundo como burros; espertos somos nós, os subdesenvolvidos) estão sendo antipáticos conosco ao fazer somente a sua obrigação e nada mais. Realmente, nada mais antipático do que uma criadagem que não nos lambe as botas! Simpática é nossa cozinheira da Rocinha que, quando precisamos, serve a mesa, lava o chão do banheiro, cuida das crianças, paga até boquete.
Uma das características que distingue o trabalho escravo do assalariado é justamente a indefinição das funções, essa não-delimitação das tarefas. Afinal, o escravo é nosso, seu tempo é nosso, tudo o que ele possui é nosso, ele faz o que mandarmos e pronto. Já nossos empregados, bem, o advogado é o advogado justamente porque não é o contador. Ninguém aproveita que o dr. Gouvêa está na sua casa fazendo o testamento da titia para pedir que ele dê uma olhada no nosso Imposto de Renda.
Aqui, nos Estados Unidos, existem as domésticas e, sim, como no Brasil, elas também formam uma casta inferior de intocáveis (os imigrantes latinos, ou seja, nós!), mas mesmo elas se adaptaram aos costumes da terra. Faxineira é faxineira: ela não cozinha, não passeia com o cachorro, não cata a sua roupa jogada pelo chão. Ela faz a faxina e pronto. Para um americano pedir pra a faxineira lavar a sua louça seria quase tão estranho quanto pedir ao advogado pra fazer seu Imposto de Renda.
No Brasil, uma empregada doméstica é alguém que você contrata por "X" horas e, durante essas horas, ela é literalmente sua, sua posse, sua escrava, e tem que fazer o que você mandar, desde limpar cocô de cachorro a lavar o carro, fazer pequenas costuras ou esfregar calcinhas. Vale tudo. E ai da insolente que disser que não: tem uma fila de paraibinhas lá fora procurando emprego, sua abusada!
(amanhã... gente que sabe o seu lugar...)
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Apartheid Brasileiro
I - A Couraça da Insensibilidade Social
II - Crianças Mandando em Adultos
III - Antipatia Cidadã vs Simpatia Servil
IV - Gente que Sabe o seu Lugar
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