Hoje em dia, sem minha couraça da insensibilidade social, os meses que passo no Rio são agridoces, a velha mistura de nostalgia com decepção que todo imigrante sente quando volta pra casa. Coisas que sempre me pareceram normais subitamente ficaram incômodas, dolorosas, insuportaveis. Por exemplo, o que o patriciado faz com as próprias crianças.
Eu adoro crianças. Toda criança nasce um gênio. É essa nossa sociedade castradora que sistematicamente emburrece, domestica e automatiza esses pequenos seres humanos que poderiam ser tudo mas acabam pessoas vazias, pequenas, ridículas. Os pais constroem os filhos sob medida de acordo com seus preconceitos e mesquinharias, e depois reclamam dos homens que eles se tornam. Como aquelas mães que cuidadosamente cultivam o machismo dos seus filhotes, obrigam a Julinha a arrumar o quarto, afinal, ela é mocinha, mas o Paulinho não precisa, ele é menino, oras!, ele pode dormir num chiqueiro!, e depois reclamam dos homens, que é tudo machista mesmo, quando é que isso vai mudar, meu deus?!
Nada me é mais horripilante, deformador e cruel do que observar uma criança mandando num adulto. É perverso com o adulto, um porteiro, uma cozinheira, homens feitos, mães de família, sendo humilhados por sinhôzinhos de oito anos de idade, obedecendo aos caprichos de uma criança mimada, com medo de perder o emprego por causa dos humores de alguém que mal aprendeu a se limpar. É perverso com a criança, a quem é negada a chance de se tornar um adulto consciente e civilizado, que desde cedo se acostuma com a idéia de que, por mais que ela seja inferior aos pais e que tenha que obedecer ao "sim porque sim" da mãe, bem, pelo menos ela é superior a toda uma casta de pessoas, muitas delas respeitáveis e de cabelos brancos, mas que são suas pra mandar, dispor e humilhar. Gente pra quem ela também pode cruelmente repassar o mesmo "sim porque sim" que ouviu minutos antes.
Uma criança nunca, nunca, nunca deveria poder mandar num adulto. Que tipo de sociedade estamos criando? Que tipo de mundo essas crianças vão construir?
O que me faz sofrer não é nem tanto a criança mimada humilhando o porteiro, é o porteiro engolindo calado, aceitando a humilhação passivamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se ele soubesse que é mesmo uma sub-raça e que seu papel no mundo é mesmo somente engolir desaforo dos seus superiores, e ainda abanar o rabinho.
(amanhã... antipatia cidadã versus simpatia servil...)
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Apartheid Brasileiro
I - A Couraça da Insensibilidade Social
II - Crianças Mandando em Adultos
III - Antipatia Cidadã vs Simpatia Servil
IV - Gente que Sabe o seu Lugar
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