Crianças Mandando em Adultos (Apartheid Brasileiro, 2 de 4)

Hoje em dia, sem minha couraça da insensibilidade social, os meses que passo no Rio são agridoces, a velha mistura de nostalgia com decepção que todo imigrante sente quando volta pra casa. Coisas que sempre me pareceram normais subitamente ficaram incômodas, dolorosas, insuportaveis. Por exemplo, o que o patriciado faz com as próprias crianças.

Eu adoro crianças. Toda criança nasce um gênio. É essa nossa sociedade castradora que sistematicamente emburrece, domestica e automatiza esses pequenos seres humanos que poderiam ser tudo mas acabam pessoas vazias, pequenas, ridículas. Os pais constroem os filhos sob medida de acordo com seus preconceitos e mesquinharias, e depois reclamam dos homens que eles se tornam. Como aquelas mães que cuidadosamente cultivam o machismo dos seus filhotes, obrigam a Julinha a arrumar o quarto, afinal, ela é mocinha, mas o Paulinho não precisa, ele é menino, oras!, ele pode dormir num chiqueiro!, e depois reclamam dos homens, que é tudo machista mesmo, quando é que isso vai mudar, meu deus?!

Nada me é mais horripilante, deformador e cruel do que observar uma criança mandando num adulto. É perverso com o adulto, um porteiro, uma cozinheira, homens feitos, mães de família, sendo humilhados por sinhôzinhos de oito anos de idade, obedecendo aos caprichos de uma criança mimada, com medo de perder o emprego por causa dos humores de alguém que mal aprendeu a se limpar. É perverso com a criança, a quem é negada a chance de se tornar um adulto consciente e civilizado, que desde cedo se acostuma com a idéia de que, por mais que ela seja inferior aos pais e que tenha que obedecer ao "sim porque sim" da mãe, bem, pelo menos ela é superior a toda uma casta de pessoas, muitas delas respeitáveis e de cabelos brancos, mas que são suas pra mandar, dispor e humilhar. Gente pra quem ela também pode cruelmente repassar o mesmo "sim porque sim" que ouviu minutos antes.

   Casa-Grande e Senzala História Social da Infância no Brasil

Uma criança nunca, nunca, nunca deveria poder mandar num adulto. Que tipo de sociedade estamos criando? Que tipo de mundo essas crianças vão construir?

O que me faz sofrer não é nem tanto a criança mimada humilhando o porteiro, é o porteiro engolindo calado, aceitando a humilhação passivamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se ele soubesse que é mesmo uma sub-raça e que seu papel no mundo é mesmo somente engolir desaforo dos seus superiores, e ainda abanar o rabinho.

(amanhã... antipatia cidadã versus simpatia servil...)

* * *

Apartheid Brasileiro

I - A Couraça da Insensibilidade Social
II - Crianças Mandando em Adultos
III - Antipatia Cidadã vs Simpatia Servil
IV - Gente que Sabe o seu Lugar

* * *

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02.11.10


Categorias: Política, Livros, LLL, O Livro


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Comentários:


Comentário de: Alexandra · http://www.peregrinatrix.com

Isso me choca muito. Apesar da minha mãe ter vindo de família escravocrata, da minha avó ter sido criada em berço de ouro, o exemplo lá em casa era de que o respeito aos mais velhos era sacrossanto e estava acima de tudo. As empregadas que tivemos que eram pessoas mais velhas, já de meia idade, eram chamadas de "Dona" até pela minha mãe. O jardineiro grisalho era "Seu" Zé, e por aí vai. Não era pq era empregada ou porteiro que poderíamos tratar com intimidade. Ai da gente se tomasse a liberdade de chamar um adulto pelo primeiro nome. Adultos automaticamente eram chamados de "Tio" ou "Tia". Responder a um adulto? Nem em sonhos... Não compartilho da crença atual de que as pessoas têm que ganhar o respeito através da maneira como agem. Discordo. Acho que todo mundo merece respeito from the get go. Principalmente se for uma pessoa mais velha. Agradeço todos os dias por ter aprendido isso e acho extremamente importante.

Compartilho da sua revolta.

PermalinkPermalink 02.11.10 @ 23:02



Comentário de: Fabio R.

Meu Caro Alex, longe de mim defender nossa maravilhosa sociedade, mas em que momento a criança é definitivamente corrompida pelo meio? Soa quase como um édipo social (coisa redundante...). Espero que já tenha lido o último do Chico Buarque. Não sei se porque resolvi na infância que isso nunca ia deixar de me perturbar, mas o machismo e o racismo (e a escravidão?) são sempre muito gritantes pra mim. Se alguém fala algo de mim, sou o primeiro a me cobrar. Mesmo assim, eu me vejo achando que estou fazendo troça, mas na verdade a ponto de magoar alguém. Minha contribuição é meu dilema - quando parar de pensar e agir, quando se preocupar em pensar um pouco mais? Ok, faz sentido se eu disser que nunca vou achar que ajo o bastante ou penso o bastante. Como desisti de me fazer entender nesta comunicação, eu te pergunto: você já viu algum lugar em que não é assim (pra termos esperança)?

PermalinkPermalink 02.11.10 @ 23:44



Comentário de: Fernando

Nossa, vai ser realmente incrível ver o que vai acontecer quando mais uns anos de crescimento econômico drenarem esse proletariado reserva que sempre existiu no Brasil...

Imagina, quando condomínios de classe média não conseguirem mais encontrar porteiros? E quando valets, garçons e etc forem coisa só de restaurante de luxo? E quando não se encontrar mais uma favelada qualquer pra limpar a casa, trocar os filhos e lavar roupa por um prato de comida?

Quando os pobres começarem a engolir menos sapo por saberem que podem arrumar outro emprego na próxima esquina?

PermalinkPermalink 03.11.10 @ 01:09



Comentário de: Amora.

Fernando, essa hipótese de não haver mais sub-empregos
como estes já foi levantada no filme "Um dia
sem mexicanos". Você deveria ver, é lindo e faz
pensar a respeito.

O pessol da classe "mérdia" já tá ficando mesmo
preocupado porque não se acha mais empregada que
queira dormir no emprego e ganhar salário mínimo.
Como também está difícil achar babá que aceite
ganhar merreca. Os pobres senhores de classe
"mérdia" se sentem acuados por ter de pagar bem
por um babá porque "oh meu Deus", ela pode
querer sequestrar meu filho ou até mesmo maltratar.

Enfim...quanto à ditadura das crianças sobre os
adultos, creio que está apenas no começo.Antes,
criança não tinha voz, nem opinião. Pais que foram
(coitadinhos!) oprimidos, apanharam, e não tiveram
brinquedos caros agora querem que suas crianças
sejam pequenos reizinhos. Acho que isso se deve
também à baixa taxa de natalidade, que faz com
que os pais vejam os filhos como seu maior investimento, maior bem, maior tesouro já fabricado
na face da Terra. Exemplo disso é colocar nome,
sobrenome e pós-nome nos filhos, pois se sabe
que aquele será o primeiro, talvez o único.
Por isso se vê tantas "Steffany Rayanne Cristinne
de Souza da Silva" por aí.

PermalinkPermalink 03.11.10 @ 11:46



Comentário de: Sara · http://www.leaoafeminado.blogspot.com


Esse tipo de comportamento é rotineiro. Desde a humilhação para com o faxineiro ou o porteiro, o desdém, o desprezo, as brincadeiras preconceituosas, os chiliques, até para com os próprios pais, naquelas típicas cenas de shoopping, de crianças manipulando adultos com seus gritos e xingos sem fim(exemplo pequeno).É trágico, pois ao contrário do que muitos pensam, é totalmente dispensável e contra tudo que um ser humano tem para oferecer para o mundo.

é por isso que eu digo:da onde as pessoas pensam que saem pitboys espancadores, muleques metidos a "nazistinhas", assassinos frios, pessoa mal-caráter,machistas,homofóbicas?De um buraco de "loucos" cravado no chão?Não, elas são aquelas criançinhas lindinhas, que falavam gugu-dadá, mas que ninguém teve "saco" ou até mesmo coragem pra impor limites e ensina-las de que não é fácil viver nesse mundo, mas que podemos transformá-lo através dos sentimentos mais puros e verdadeiros que fazem parte do ser humano.







PermalinkPermalink 03.11.10 @ 13:57



Comentário de: M.D

Talvez você já saiba disso, mas eu entro na Amazon todo dia e só vi hoje, então talvez seja uma novidade para vc também.A amazon está com um software chamado kindle for pc agora. Não exige o aparelho.

PermalinkPermalink 06.11.10 @ 06:20



Comentário de: Karine

Alex, [citando a história da menina ter que arrumar o quarto] da onde vc conhece a minha sogra?

PermalinkPermalink 15.11.10 @ 20:11



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