A Couraça da Insensibilidade Social (Apartheid Brasileiro, 1 de 4)

Minha ex-mulher é de uma pequena cidade no interior da Amazônia. Não é uma cidade rica, naturalmente, mas também não é uma cidade pobre. Havia pobreza, mas não havia miséria. Não se via mendigos dormindo nas ruas. Quando ela foi morar comigo no Rio de Janeiro, eu acompanhei um dos processos mais tristes que já vi: o gradual endurecimento do seu coração. A princípio, cada mendigo, cada criança de rua lhe partia o coração de uma forma tão real, tão forte que eu não conseguia nem compreender. Ela queria sair do carro, ajudar, fazer qualquer coisa. Algumas vezes, ela queria só chorar.

Eu? Eu sou carioca de nascença. Se cada mendigo ou criança de rua me partisse o coração, eu não tinha chegado aos 8 anos. De certo modo, os miseráveis eram tão parte do meu meio ambiente quanto a chuva das duas da tarde do dela.

Gradualmente, minha ex-mulher criou uma couraça de insensibilidade social, a mesma que todos os cariocas e paulistas usam pra poder ir daqui até ali sem sofrer um colapso de empatia. Esse triste processo, por um lado, sublinhou a minha própria dolorosa insensibilidade. A gente não sabe que é insensível até se comparar a alguém realmente sensível. E, por outro, como foi duro ver aquela sensibilidade tão linda, tão humana, tão invejável, sendo lentamente coberta, soterrada, superada! Nunca amei tanto minha ex-mulher como naqueles momentos em que a simples visão de uma criança de rua era suficiente para quase levá-la às lágrimas.

E sabe por quê? Porque é. Porque uma única criança vivendo nas ruas já deveria ser suficiente pra fazer qualquer um chorar, pra fazer qualquer um levantar a bunda da cadeira e tomar uma atitude. Assim como eu chorei muito pelo menino arrastado pelo cinto de segurança, que era só um, por que o destino único daquele moleque encardido no sinal já não nos comove mais? Uma tragédia se soma a outra: a tragédia da miséria é terrível, assim como é terrível que nós, os privilegiados, tenhamos que, de algum grau, sublimar essa tragédia para podermos funcionar como seres humanos.

A graça é que não consigo mais. Perdi essa capacidade. Morei nos EUA por dois anos e a minha couraça, cuidadosamente construída ao longo de 31 anos, se desfez. Não tem como uma infância ter sido mais escravocrata do que a minha. Nos bons tempos, minha casa tinha dez empregados fixos, entre copeira, jardineiro, piscineiro, costureira, etc etc. Eu ia pra escola de motorista todos os dias. Só fui lavar prato e fazer minha cama quando comecei a morar sozinho. Minha couraça era das mais fortes. E puff. Acabou-se.

De certo modo, sinto falta da minha couraça. Sem ela, voltar ao Rio dói. Me dói a saudade da minha cidade querida e, agora, me dói mais ainda a realidade da minha cidade destruída. Coisas que eu nem via, coisas que faziam parte da paisagem, coisas que eu pensava que "o mundo é assim mesmo" ou que eram responsabilidade de outras pessoas resolver, essas coisas agora cortam de um jeito desagradável, profundo, inesperado.

(amanhã... crianças mandando em adultos...)

* * *

Apartheid Brasileiro

I - A Couraça da Insensibilidade Social
II - Crianças Mandando em Adultos
III - Antipatia Cidadã vs Simpatia Servil
IV - Gente que Sabe o seu Lugar

* * *

Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição já está disponível para pré-venda, com entrega antes do natal.

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01.11.10


Categorias: Política, Livros, LLL, O Livro


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Comentários:


Comentário de: Rogério Santos · http://www.efemeridesbaianas.blogspot.com

Esse texto me lembrou de dois trechos de duas músicas dos Racionais MCs. Um, da música Rapaz Comum, em que Edy Rock diz "caralho, não quero ter que achar normal ver um mano meu coberto com jornal", e outro, da música Negro Drama, em que o mesmo Edy Rock diz que "ver preto pobre preso ou morto já é cultural".

É justamente isso. Infelizmente, somos treinados para pensar e agir na base do "pimenta no cu dos outros é refresco". É ele que está dormindo na rua e passando fome, não eu. Portanto, que se foda!

PermalinkPermalink 01.11.10 @ 14:29



Comentário de: Pedro Lobato · http://quilombo.blogsome.com

Belo texto.

PermalinkPermalink 01.11.10 @ 15:23



Comentário de: Rachel

Tava pensando outro dia como a vida da criança negra tem baixo valor no Rio (não sei generalizar o Brasil). Putz, fico imaginando uma criança loira maltrapilha pedindo esmola num bar em Copa... ia chamar atenção, o povo ia querer saber "cadê seus pais, menina(o)???" rapididim.
Já idosos não sei pensar, porque véio aqu é meio que jogado pra escanteio seja da cor que for.

PermalinkPermalink 01.11.10 @ 23:01



Comentário de: Rachel

Tava pensando outro dia como a vida da criança negra tem baixo valor no Rio (não sei generalizar o Brasil). Putz, fico imaginando uma criança loira maltrapilha pedindo esmola num bar em Copa... ia chamar atenção, o povo ia querer saber "cadê seus pais, menina(o)???" rapididim.
Já idosos não sei pensar, porque véio aqu é meio que jogado pra escanteio seja da cor que for.

PermalinkPermalink 01.11.10 @ 23:04



Comentário de: Fabio R.

Tem crianças louras maltrapilhas esmolando em copa. Claro, elas estão sempre tão zuadas que não se percebe necessariamente sua cor, mas sua posição social. Assim como há pessoas se comportando desse jeito "cade seus pais, menino..." com crianças negras. Acontece que, por mais que tenhamos crescido em metrópoles e sido criados com valores cristãos ou similares, a couraça não precisa ser o paradigma dominante. Eu mesmo sempre identifiquei um mecanismo de me preparar para fazer alguma coisa, de acordo com minhas possibilidades. O principal de nós, privilegiados, é pensar no que podemos fazer de efetivo. Isso é muito dificil com eficácia. A maioria que conheço se safisfez em participar de sopões e se decepcionar com o primeiro governo Lula. Eu ainda estou pensando...

PermalinkPermalink 02.11.10 @ 18:46



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