Minha ex-mulher é de uma pequena cidade no interior da Amazônia. Não é uma cidade rica, naturalmente, mas também não é uma cidade pobre. Havia pobreza, mas não havia miséria. Não se via mendigos dormindo nas ruas. Quando ela foi morar comigo no Rio de Janeiro, eu acompanhei um dos processos mais tristes que já vi: o gradual endurecimento do seu coração. A princípio, cada mendigo, cada criança de rua lhe partia o coração de uma forma tão real, tão forte que eu não conseguia nem compreender. Ela queria sair do carro, ajudar, fazer qualquer coisa. Algumas vezes, ela queria só chorar.
Eu? Eu sou carioca de nascença. Se cada mendigo ou criança de rua me partisse o coração, eu não tinha chegado aos 8 anos. De certo modo, os miseráveis eram tão parte do meu meio ambiente quanto a chuva das duas da tarde do dela.
Gradualmente, minha ex-mulher criou uma couraça de insensibilidade social, a mesma que todos os cariocas e paulistas usam pra poder ir daqui até ali sem sofrer um colapso de empatia. Esse triste processo, por um lado, sublinhou a minha própria dolorosa insensibilidade. A gente não sabe que é insensível até se comparar a alguém realmente sensível. E, por outro, como foi duro ver aquela sensibilidade tão linda, tão humana, tão invejável, sendo lentamente coberta, soterrada, superada! Nunca amei tanto minha ex-mulher como naqueles momentos em que a simples visão de uma criança de rua era suficiente para quase levá-la às lágrimas.
E sabe por quê? Porque é. Porque uma única criança vivendo nas ruas já deveria ser suficiente pra fazer qualquer um chorar, pra fazer qualquer um levantar a bunda da cadeira e tomar uma atitude. Assim como eu chorei muito pelo menino arrastado pelo cinto de segurança, que era só um, por que o destino único daquele moleque encardido no sinal já não nos comove mais? Uma tragédia se soma a outra: a tragédia da miséria é terrível, assim como é terrível que nós, os privilegiados, tenhamos que, de algum grau, sublimar essa tragédia para podermos funcionar como seres humanos.
A graça é que não consigo mais. Perdi essa capacidade. Morei nos EUA por dois anos e a minha couraça, cuidadosamente construída ao longo de 31 anos, se desfez. Não tem como uma infância ter sido mais escravocrata do que a minha. Nos bons tempos, minha casa tinha dez empregados fixos, entre copeira, jardineiro, piscineiro, costureira, etc etc. Eu ia pra escola de motorista todos os dias. Só fui lavar prato e fazer minha cama quando comecei a morar sozinho. Minha couraça era das mais fortes. E puff. Acabou-se.
De certo modo, sinto falta da minha couraça. Sem ela, voltar ao Rio dói. Me dói a saudade da minha cidade querida e, agora, me dói mais ainda a realidade da minha cidade destruída. Coisas que eu nem via, coisas que faziam parte da paisagem, coisas que eu pensava que "o mundo é assim mesmo" ou que eram responsabilidade de outras pessoas resolver, essas coisas agora cortam de um jeito desagradável, profundo, inesperado.
(amanhã... crianças mandando em adultos...)
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Apartheid Brasileiro
I - A Couraça da Insensibilidade Social
II - Crianças Mandando em Adultos
III - Antipatia Cidadã vs Simpatia Servil
IV - Gente que Sabe o seu Lugar
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Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição já está disponível para pré-venda, com entrega antes do natal.
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