Meus textos da série sobre racismo são, de fato, totalmente irrelevantes. São lugares-comuns inócuos que todo mundo deveria estar cansado de saber. Podem ter alguma utilidade didática em sala de aula, iniciando debates, e olhe lá. A série só se justifica pelos comentários gerados.
O Brasil inteiro está exposto nesses comentários: o racismo brutal de uma sociedade hierarquizada, a denegação profunda que permite que esse racismo sempre se fortaleça, a tendência patológica de fugir do conflito a todo custo, o triste espetáculo dos privilegiados que acham que o privilegiado é sempre o outro.
Dá um baita medo.
Abaixo, uma seleção dos melhores textos da série:
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O Meu Preferido
- A Invisibilidade do Racismo
Em uma sociedade racista e desigual como o Brasil, afirmar não ver raça, não ligar pra raça, que raças não existem, que isso não tem importância, "que besteira você se importar com isso", etc, significa na prática tomar partido racialmente ao se aliar com a hegemonia invisível que *precisa* desse tipo de negação para sobreviver e prosperar. Não existe neutralidade possível: negar raça já é uma afirmação política que te coloca em um dos lados bem definidos de uma briga antiga. Negar raça já é intrinsecamente racista.
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Os melhores dos melhores (não deixem de ler esses):
- Alguns Números do Racismo
Resumo das conclusões principais do Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, da UFRJ.
- "O Brasil Não É Um País Racista! Nosso Problema É Econômico!"
Não é preciso muitos dados e gráficos. Se você chega numa cadeia ou no fórum, e todos os juízes e advogados são brancos, e todos os réus são negros; se você chega num hospital, e todos os médicos são brancos, mas todos os faxineiros são negros; se você chega numa empresa e toda a diretoria é branca, mas a moça do café e o rapaz da xerox e o ascensorista são negros; então esse é um país racista.
- Pretos, Pobres e Polícia
O racismo É um problema sócio-econômico. O que mais vocês acham que o racismo é, meu deus? Um problema literário? Um problema culinário? Reclamar que alguém "falou de racismo deixando de lado o fator sócio-econômico" é como reclamar que alguém falou de inflação deixando de lado o aspecto econômico. Inflação É um fenômeno econômico: não tem como discutir, debater, estudar, pensar a inflação e, ao mesmo tempo, deixar de lado o fator econômico. Como isso seria possível?
- Racismo & Casamentos Interraciais
Somente o fato de o Brasil ter muitos casamentos interraciais não prova que o país não é racista. Pelo contrário, a dinâmica desses casamentos comprova, mais uma vez, a sobrevalorização do branco e a estigmatização do negro em nossa cultura racista.
- Negritude e Cabelo, Estética e Escravidão
A beleza é definida em termos das características físicas do grupo dominante. Ou seja, uma pessoa é mais bela quanto mais se parece com o grupo que manda, e é mais feia quanto mais se parece com o grupo que obedece. Dentre os negros e negras universalmente considerados como sex symbols, quantos têm características negróides marcantes e quantos parecem brancos de pele escura? Em outras palavras, a Halle Berry é uma negra linda por ser uma negra linda, ou é uma negra linda por ter cara de branca tostada?
Enquanto discutimos essa fascinante questão, os membros-da-raça-que-não-existe-mas-é-mais-escurinha continuarão sendo consistentemente preteridos em promoções, ganhando salários menores e não conseguindo alugar bons apartamentos. As raças podem até não existir geneticamente mas, durante uma blitz às onze da noite, os policiais já tensos e de armas engatilhadas, as raças são uma realidade bem palpável. Hoje, para todos os fins e efeitos, na vida real e nos estudos universitários, raças existem sim: não como um conceito biológico ou genético, mas sim histórico, sociopolítico, cultural.
- O Problema do Brasil É a Falta de Conflito Racial
Sangue correndo na rua é o que já não falta. A questão é: de quem?
- O Racismo Não É um Problema Individual
O baralho que herdamos dos nossos antepassados já está viciado para beneficiar sempre um tipo específico de jogador. Não basta somente que nós, os jogadores beneficiados, simplesmente não trapaceemos. É necessário trocar de baralho.
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Racismo e Cotas
- O Peso da História: A Escravidão e as Cotas
A História ainda é uma bola de ferro que os descendentes dos escravos arrastam pelos tornozelos. Os efeitos nocivos da escravidão continuam afetando os bisnetos de suas vítimas diretas. Dado que os efeitos nocivos da escravidão ainda se fazem sentir na pele dos descendentes das vítimas, não é tarde demais para serem indenizados pelo Estado.
- Livre Concorrência e Ação Afirmativa
Uma das críticas mais comuns à Ação Afirmativa é quanto a injustiça inerente a dar vantagens desproporcionais a um grupo em detrimento dos outros. Mas será que as pessoas acham mesmo que o sistema é justo e meritocrático... e que as malvadas cotas estão chegando para destruir essa perfeita igualdade?! Oras, o sistema não é meritocrático e não é justo. O objetivo das cotas é proporcionar uma vantagem adicional aos grupos que são consistentemente excluídos.
- Sem a Discussão sobre as Cotas, Como Saberíamos Quem São os Racistas?
O discurso anti-cotas não é por definição e necessariamente racista, mas acaba se tornando terreno fértil para que alguns dos mais comuns e silenciados preconceitos raciais brasileiros vejam finalmente a luz do dia e sejam (pasmem!) articulados em público sem vergonha alguma.
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Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
O objetivo da série Raça não é promover no leitor uma reflexão individual sobre seu racismo enquanto pessoa, mas sim compreender melhor como funciona o racismo institucional e constitutivo da sociedade brasileira. Se essa reflexão for feita, cada um também vai naturalmente refletir sobre seu papel individual nesse estado de coisas - sem que seja preciso instituir uma caça às bruxas nem pelos "racistas" de verdade e muito menos pelos racistas dentro de nós.
I - A Invisibilidade do Privilégio
Nossa elite não se vê como elite e nossos privilegiados não se vêem como privilegiados. ... Quando você cresce rodeado por algo - nesse caso, privilégio - aquilo vira a regra contra a qual o mundo é comparado. Nossa vida é sempre a normal, ou melhor, a normativa: as outras é que são menos ou mais alguma coisa. ... O processo funciona mais ou menos assim: você evita os mais pobres (por serem francamente desagradáveis, não?), considera sua vida normativa, e só conhece em detalhes as rotinas dos mais ricos. Resultado: você não se acha nem rico nem privilegiado nem de elite; privilegiado é o Luciano Huck, que tem uma jacuzzi em cada cômodo da casa! Sério, eu vi na Caras.
II - O Ônus da Elite
Afinal, se sou privilegiado, então existe alguém que não é. Que privilégios eu tive que essas pessoas não tiveram? Qual é a origem sociohistórica dessa assimetria? Se essa assimetria é tão gigantesca como parece, então será que faz sentido falar em sociedade meritocrática? ... No Brasil, a elite-que-não-se-admite-elite (porque a palavra virou xingamento) só sabe desfrutar da delícia de ser elite mas não aceita mais o ônus: rejeita as obrigações morais e responsabilidades históricas que a elite de qualquer sociedade sempre possuiu.
III - Os Privilégios da Classe Média
Talvez seja essa a maior marca do privilégio: saber que a polícia está do seu lado, que vai defender seus interesses, que vai te ajudar no que for possível. No Brasil, só a elite é inocente até prova em contrário.
IV - Brasil, Meritocracia de Todos!
É por isso, entre outras coisas, que o Brasil não é um país meritocrático. É por isso, aliás, que o próprio conceito de meritocracia não faz nenhum sentido, pois meu mérito individual nunca é só meu, mas está sempre corrompido ou viciado pelos méritos acumulados dos meus antepassados, na minha família, dos meus compatriotas. É por isso, entre outras coisas, que mesmo um cidadão de classe média baixa, daqueles que fala coisas como "é um absurdo eu gastar uma fortuna em escola particular e plano de saúde, e depois ainda ser escorchado pelo governo que não faz nada por mim!", ainda assim é um tremendo de um privilegiado em comparação à massa de cidadãos brasileiros que não teriam renda pra pagar nem escola particular e nem plano de saúde.
Adendos:
I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?")
Nenhum leitor desse blog é culpado pela escravidão, pelo racismo, pela desigualdade. Esses problemas são mais antigos que nós e sua culpa transcende qualquer indivíduo. ... Ser responsável por solucionar um problema é muito distante de ser culpado por ele. Somos responsáveis porque esses problemas não podem mais ser ignorados, afetam nossas vidas todos os dias e um dia vão explodir na nossa cara.
II - Governo, Raça e Privilégio
Quando falo de racismo e privilégio, alguns leitores pensam que estou clamando por ação governamental ou propondo políticas públicas, e respondem que é um absurdo o governo querer se meter no problema das raças, que o governo não tem nada a ver com a desigualdade, que o papel do governo é outro, etc. Governo, governo, governo. Não deixa de ser engraçado: porque não estou falando de governo em momento algum.
III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
"Tá, professor. Entendemos o problema. Priorizar as raças é ruim porque fortalece o racismo mas promover a mestiçagem é ruim porque estigmatiza quem quer assumir suas raízes. Mas qual é a solução então? Qual é a resposta? O que fazemos?"
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O Racismo e a Palavra
- Usos do Nego
Usar o carioquíssimo "nego" ("pô, aí, negozinho tá pirando na batatinha") é racista?
- Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
Não importa se o apelido do "pretinho" foi dito super na boa, supercarinhosamente, como todo afeto e amor: o que importa é o que ELE acha. E ele não vai te dizer nunca, sabe por quê? Porque ele é o faxineiro, porque ele precisa do emprego, porque ele não quer criar problema com alguém da casta superior, porque ele já ouviu isso tanto que internalizou, etc etc. As razões possíveis são muitas, e nenhuma é boa. Só quem é negro sabe como é ser chamado de negão o dia todo por pessoas brancas.
- Lá Se Foram os Negrinhos - Politicamente Correto e Liberdade
Polzonoff e eu dividiríamos bravamente a mesma trincheira, conversando sobre livros favoritos entre as salvas de morteiro, empenhados em combate renhido contra os fascistas nojentos que quisessem impedir uma editora de publicar um livro chamado "O Caso dos Dez Negrinhos".
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Série "Ser da Raça Certa":
I: Você É da Raça Certa?
Ser da raça certa é nunca pensar na sua raça como raça. Quem tem raça são as minorias, os negros, os japoneses, os índios. Você, não. ... Ser da raça certa é fazer parte do grupo que está dentro, não do que está fora, olhando pelo vidro, com cara de pidão. ... Ser da raça certa é nunca ser *interpelado* racialmente.
II: 100% Branco
Uma camisa "100% Branco" é de profundo mau-gosto, ao mostrar quem está por cima celebrando sua hegemonia. "100% Negro", por outro lado, é a celebração de uma identidade subalterna tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.
III: De que Cor É o Personagem?
Ser da raça errada é precisar ser descrito. Se o personagem for da raça certa, ela não fará parte da descrição, pois os leitores JÁ irão visualizá-lo assim. Quando você lê um romance chinês, todo mundo na sua cabeça tem cara de chinês.
IV: O Critério Eliminatório
Ser da raça certa é saber, com certeza absoluta, que a família da sua nova namorada não vai querer vetar o relacionamento só de olhar pra sua cara, antes mesmo de você abrir a boca.
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História da Escravidão
- Os Defeitos dos Negros Americanos
Ou seja, os defeitos e vícios que trazem os negros americanos é justamente serem cidadãos, homens orgulhosos e altivos, conscientes de seus direitos. Cruzes, o Brasil quer distância dessa gente!
- Os Americanos e o Tráfico Negreiro
Em meados do século XIX, a Grã-Bretanha proibiu unilateralmente o tráfico de escravos no Atlântico e se deu o direito de abordar qualquer navio suspeito de estar carregando escravos. Já os Estados Unidos, país escravista, ainda sem o poder que teria mas já cheio de panache, negou à Grã-Bretanha o chamado "direito de visita". Na verdade, todo mundo negou, claro, inclusive o Brasil, mas, quando era país marronzinho, os ingleses abordavam à força. Daí veio a Questão Christie, blá blá.
- Leis para Inglês Ver
Caso único na história do mundo, quando o governo imperial finalmente decidiu, por motivos próprios, terminar com o tráfico, passou uma outra lei, em 1850, basicamente proibindo o que já era proibido pela lei de 1831 – mas, dessa vez, é sério, hein, gente? Olha, não pode mais. De verdade. Mesmo.
- Será Muita Forçação de Barra Comparar Domésticas com Escravos?
As desculpas paternalistas, familiares e carinhosas que os patrões usam pra restringir a liberdade de movimento das empregadas são sempre muito criativas. ... Difícil de imaginar uma história como essa acontecendo em um país sem um forte passado escravista.
- A Revolução Haitiana
A Revolução Haitiana não ser parte do currículo obrigatório de História é um absurdo. Ela foi um dos acontecimentos mais decisivos e marcantes da história mundial. Sem conhecer a Revolução Haitiana, não dá pra entender NADA sobre a História das Américas no século XIX.
- A Tática do Deixa-Disso
Fomos a última nação ocidental a abolir a escravidão - e *ninguém* era a favor dela. Nas discussões sobre o assunto, não se vê (como nos Estados Unidos) partidários da escravidão defendendo o sistema ou pregando a inferioridade do negro. ... Convenhamos: já tentamos essa tática. Há cento e tantos anos, o Brasil enfia a cabeça na areia, diz que é uma democracia racial e que não existe problema. Claramente, não funcionou. É hora de mudar de tática.
- A Ausência do Escravo da Lei Brasileira
Fomos uma das maiores e mais extensivas economias escravistas do mundo, dependíamos de escravos para nossa própria sobrevivência, a escravidão nos definia enquanto cultura - e, mesmo assim, incrivelmente, e nossa Constituição e nosso Código Civil jamais mencionaram a escravidão. Nem mesmo para defini-la. Especialmente para não defini-la. ... Como poderia funcionar uma sociedade complexa e sofisticada como o Brasil oitocentista, uma economia totalmente dependente do escravo, uma cultura completamente bacharelista, se não havia uma definição legal de escravo?
- Definindo a Escravidão: Afinal, O Que É um Escravo?
Se não existia definição de escravo, então também não existia essência de escravo. Ou seja, a escravidão não era um SER, era um FAZER. Não existia teoria, somente a prática. Escravo é quem agia como escravo, escravo é quem era escravizado. Consequentemente, quem não agia como escravo, quem não se deixava escravizar... não era escravo! Pois, afinal, tirando o agir como escravo, de que outra maneira saberíamos quem era escravo e quem não era?
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Uma aula de racismo e literatura sobre uma poesia de Castro Alves
- Lúcia, de Castro Alves
- Conversando sobre "Lúcia", de Castro Alves
- Ainda sobre "Lúcia", de Castro Alves
- Três Leituras de "Lúcia", de Castro Alves
No fim, realmente, a literatura sempre nos ensina mais sobre quem somos, como vemos o mundo e quais são nossas idéias pré-concebidas, do que sobre o texto em si.
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Racismo e Teatro
- Negrinha, de Monteiro Lobato (Cadernos de Teatro, 6)
Um pouco da história da representação da escravura nos palcos brasileiros, e uma resenha da recente montagem de Negrinha, com Sara Antunes.
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Sobre Livros e Autores
- Na Verdade, as Idéias Estão no Lugar
Uma análise do influente artigo "As Idéias Fora do Lugar", de Roberto Schwarz, trazendo para a discussão outros autores como Joaquim Nabuco, Sidney Chalhoub, Alfredo Bosi e Ricardo Salles.
- Gilberto Freyre e Casa Grande & Senzala
Uma das melhores coisas que já escrevi.
- O Livro do Ano: The Racial Contract, por Charles W. Mills
O racismo é um sistema político e uma estrutura de poder baseados em um Contrato Social (na verdade, um Contrato Racial) no qual os membros da raça dominante formam um acordo tácito de, ao mesmo tempo em que garantem para si a maior parte das riquezas/oportunidades/etc da sociedade, também consentem em não ver o próprio sistema, criando assim a "alucinação consensual" de um mundo sem raças, meritocrático e igualitário, que passa a mediar sua interpretação da realidade. Nem todos os brancos são signatários do Contrato Racial, mas todos são beneficiários.
- Não Somos Racistas, de Ali Kamel (enfim, lido!)
Na mesma linha de Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia, o romance de fantasia Não Somos Racistas, de Ali Kamel, se passa em uma terra mítica e utópica, onde não existe racismo e impera a mais estrita meritocracia. O livro é polivalente: pode ser lido tanto como humor ("rárá! não acredito que esse cara falou mesmo isso!") ou terror ("e pensar que esse homem é o diretor de jornalismo da Globo!", mas é diversão sempre garantida.
- Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial, de Demétrio Magnoli
Ele se diz sociólogo mas, de ouvi-lo falar, o homem não parece ter cursado nem Sociologia I. Eu quase diria que ele dá um verniz acadêmico a muitos dos mais comuns preconceitos raciais brasileiros, mas ele não soa nada acadêmico. Em termos de raciocínio e discurso, ele é muito, muito pior do que o Ali Kamel - tem apenas menos poder. Chegou a me dar calafrios de nojo em alguns momentos.
- Nosso Racismo É Um Crime Perfeito: Kabengele Munanga
O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. ... Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. ... Há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar... Como você vai combater isso? ... Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.
- Um Debate Sobre Racismo
Primeiro, Demétrio Magnolli escreve um artigo no Estadão sobre alguns alunos auto-declarados negros aos quais foram negados os benefícios das cotas universitárias. No artigo, ele aproveita pra enxovalhar o Prof Kabengele Munanga, antropólogo da USP, e um dos homens que mais entende de racismo no Brasil. E vem a resposta, claro.
- Racismo à Brasileira, por Edward Telles
Um dos melhores livros sobre raça que já li: basicamente, um apanhado de números, estatísticas e experimentos cujo objetivo é combater o "anedotismo" das discussões sobre o assunto.
- Caetana Diz Não, de Sandra Lauderdale Graham
Um dos meus livros preferidos sobre a escravidão no Brasil. Sem teorias nem tabelas, argumentos ou academês. Só a história real de duas mulheres na sociedade escravista.
- O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco
Nunca vi análise mais corajosa, mais lúcida, mais combativa, mais atual.
- A Centralidade da Liberdade no Pensamento Ocidental
Uma resenha, em inglês, comparando dois livros-chave sobre escravidão e relações raciais, enfatizando o modo como o conceito de liberdade, tão importante no pensamento ocidental, só faz sentido quando oposto à experiência da escravidão: Black Atlantic, de Paul Gilroy, e Slavery and Social Death, de Orlando Patterson.
- Os Sertões Explica o Brasil
- A Importância Tautológica de Os Sertões
- O Atavismo de Euclides da Cunha
A cada vez que um brasileiro se orgulha dos feitos do Pelé ("coisa nossa!") mas se pergunta porque "eles" têm que vir logo à "nossa" praia!, a contradição constitutiva de Euclides se perpetua. Os Sertões é um clássico porque sua contradição interna ainda é a mesma que a nossa - "nossa" de todos os brasileiros, aliás. Sua fratura exposta é a mesma que ainda nos incomoda. Como todo clássico, Os Sertões vive e pulsa e respira porque ainda fala diretamente a nós.
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Raça em Nova Orleans
- Nova Orleans Gelada ou Os Escravos e a Cana
Enquanto isso, nos campos onde foices cortavam com desespero e nos engenhos onde as moendas funcionavam sem parar, qualquer distração desses homens insones significava facilmente a perda de um braço ou da própria vida. Ao final da colheita, com ou sem geada, havia sempre mãos de escravos adubando os campos. O modo mais fácil de reconhecer escravos da cana-de-açúcar, em oposição aos que plantavam café, algodão ou tabaco, era pela enorme quantidade de mutilados.
- O Incrível Caso da Mulher Que Processou o Estado da Louisiana para Provar que Não Era Negra - e Perdeu
Talvez um dos casos mais emblemáticos da importância cultural de raça e dos problemas da identificação racial.
- Um Triste Século para Ser Negro em Nova Orleans
No começo do século, os creoles de Nova Orleans estão vivendo sob domínio francês e são a elite de sua cidade. Na virada do XX, já são os novos intocáveis. E as coisas ainda iriam piorar muito antes de melhorar.
Série Mulatas de Nova Orleans
1 - Plaçage
Era então socialmente aceitável que os moçoilos na casa dos vinte escolhessem uma negra ou mulata livre lá pelos seus 12 a 15 anos para montar casa, criar família e se amancebar. Essas mulheres, que não eram nem amantes nem cortesãs, pois viviam em relações monogâmicas e estáveis, publicamente reconhecidas, com respeitados membros da comunidade, eram legalmente chamadas de concubinas ou placées, do verbo placer, dando origem ao substantivo plaçage.
2 - Quadroon Balls
Quadroon Balls eram bailes dançantes com o objetivo de apresentar meninas creoles livres a homens brancos solteiros e disponíveis. As próprias mães das meninas organizavam os bailes e estavam sempre presentes, fazendo vigilância ferrenha. Antes de colocarem suas filhas sob a proteção de um homem branco, ele primeiro tinha que provar suas intenções honestas e sua capacidade financeira de sustentá-la a contento.
* * *
E Pra Encerrar
- Meus Leitores Acham que Racismo Não Existe...
Dizem (com inocência perversa) que ser chamado de "branquelo" é o mesmo que ser chamado de "neguinho". Acham (com ingenuidade criminosa) que racismo não existe só porque seus amigos negros nunca lhes falaram disso. Mas esquecem que os amigos negros ficam de boca fechada porque, numa cultura que foge do conflito como a nossa, contar quantas vezes a polícia te humilhou na rua é pedir pra ser chamado de chato, criador de caso, ou até mesmo (pasmem!) racista.
- Um Blog Cada Vez Mais Estraga-Prazer
[O blog] continua falando de liberdade (apenas agora coletivamente) e continua esfregando na cara dos seus leitores que eles vivem em denegação, que não enxergam os problemas do Brasil, que são racistas e classistas, que viveram vidas privilegiadas e que deveriam se sentir culpados quanto às suas empregadas ("esse problema não existe mais, Alex!"), quanto às suas palavras ("neguinho tá sem noção") e até mesmo quanto às suas preferências estéticas ("pô, Alex, eu não sou racista, eu só acho que preto é feio e cabelo pixaim é áspero, oras!").
- Definindo Raças nos Estados Unidos
O q importa é o q vc está fazendo no país, ou o q fizeram teus antepassados: - ¿vc descende diretamente dos europeus q tiveram a iniciativa de construir o país? - ¿vc decende de pessoas q foram trazidas à força pra trabalhar de graça, e agora se transformaram num problema de consciência? - ¿vc chegou aí vindo de um pais pobre, atraído pela riqueza q os decendentes diretos dos europeus construíram?
- Como o Racismo Afeta Nossas Vidas
You know what it would take for a black dentist to live in that neighborhood? If a black dentist wanted to live in that neighborhood, he would have had to invent teeth!
- O Que Você Faria se Visse uma Pessoa Sofrendo Preconceito?
O racismo é um problema, antes de tudo, dos brancos.
- Brasil: Paraíso ou Inferno Racial?
Duas mulheres negras norte-americanas relatam experiências BEM diferentes no Brasil.
- 13 Anos de Capas da Playboy
Nesse nosso país mestiço e pretensamente não-racista, quantas dessas 196 mulheres, representando o mainstream da beleza nacional, são negras?
- Racistas que Comentam em Posts Anti-Racistas
"Amigo, acorda. A luta é contra VOCÊ!"
- As Histórias de Horror que o Racismo Engendra
"Não, Anne-Marie, não faça isso! Não interfira! Você... você não entende como as coisas funcionam no Brasil.... Não entende a ditadura a que nós, as branquelas, estamos submetidas.. Ele é... *engasga* negro.... Ele pode fazer o que quiser! Vamos torcer apenas para que não queira estuprar a pobre menina! Sabe como são esses negros! Nesse caso, seríamos obrigadas a... a... olhar pro outro lado! Ó deus, até quando vai durar essa opressão?!"
- Das Vantagens de Ser Negro
Na opinião insuspeita de dois dos melhores comediantes norte-americanos da atualidade: o negro Chris Rock e o branco Louis CK.
O Comitê de "Fair Employment Practices" (algo como Práticas Justas de Contratação) do Sindicato dos Ferroviários barrou a presença de sindicalistas negros das suas deliberações sobre racismo no ambiente de trabalho. A alegação: "não deveria haver no comitê nenhum representante de nenhuma raça ou interesse especial." Como se os brancos não tivessem raça.
- Racismo Reverso
Brancos são 95% dos médicos, 98% dos diretores de empresa, blá blá, mas tudo bem, o mundo é assim mesmo, paciência. Sempre que os negros tentam inverter o placar de 100 X 0 para 100 X 1, tipo criar uma lei que reserve 20% das vagas universitárias para negros, a maioria privilegiada fica histérica: injustiça!, revanchismo!, racismo inverso!
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Os textos acima estão entre as coisas mais sinceras e passionais que já escrevi. Espero que gostem e me ajudem a divulgar a série Raça.
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(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
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