O Sul dos Estados Unidos tinha algumas das mais severas leis sobre escravidão do mundo. Para uma sociedade tão livre, era incrível como a leí interferia até no poder privado do Senhor: por exemplo, no interesse da coletividade e da paz geral, donos de escravos não podia alfabetizá-los e, muitas vezes, nem libertá-los.
(Caso pudesse, o escravo liberto tinha poucas semanas pra abandonar o estado e nunca mais voltar. Reparem que quase sempre era seu estado natal, a única terra que ele conhecia! A ideia era justamente evitar o surgimento de uma população de negros livres no seio da elita branca.)
Enfim, quando a Louisiana é comprada (1803), Nova Orleans já vem com uma história de 80 anos de domínio francês (1718-63) e espanhol (1763-1801), com leis e costumes bem diferentes - especialmente referentes à manumissão. Nova Orleans não apenas tinha uma grande população de negros livres, mas essa população ainda era francófona, razoavelmente próspera e, muitas vezes, miscigenada. Ou seja, em todos os aspectos, era uma população completamente única dentro do país. Eram conhecidos como "free people of color", "creoles of color" ou simplesmente "creoles". Em 1802, 1.355 das 8.050 famílias da cidade eram chefiadas por creoles de cor.
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Os sulistas americanos estavam completamente despreparados para lidar com tamanha população de negros livres, cultos, ricos, miscigenados, usando uniformes militares... armados! Para o típico sulista, tudo isso era simplesmente escandaloso.
O século XIX em Nova Orleans é uma longa história de a população branca retirando, um a um, todos os direitos, prerrogativas e privilégios da população creole de cor da cidade.
Por exemplo, em documentos oficiais, seus nomes tinham que ser acompanhados de fmc ou fwm (free man/woman of color), para que ninguém tivesse dúvida sobre quem se estava falando. Não podiam estar nas ruas depois de nove da noite. Precisavam de permissão para sair da cidade e viajar pelo estado. Negros livres não podiam entrar no estado. Tinham que sempre carregar prova de liberdade.
Nova Orleans, a maior cidade da Confederação, é tomada em 1862 e, já em 1863, enquanto se organizava o governo provisório da cidade, uma comissão de creoles reclama que enquanto eles, cidadãos da cidade, escolarizados e proprietários, não podiam votar por serem negros, homens brancos que tinham lutado contra a União estavam votando normalmente. De que adiantava terem ganho a batalha?
Finalmente, em 1890, Homer Plessy, um creole de cor de Nova Orleans, entrou na justiça contra a primeira lei segregacionista estadual, que criava vagões de trens separados para brancos e negros. Precursor de Rosa Parks, Pleassy sentou-se no vagão branco e se recusou a sair. Infelizmente, na decisão Plessy v Ferguson, em 1896, a Suprema Corte dos Estados Unidos confirmou a lei, criando assim a jurisprudência que validou as leis de segregação racial em todo país. Jim Crow nasce em Nova Orleans.
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(Tristemente, Plessy tem outra coisa em comum com Rosa Parks: ambos desafiaram a lei de propósito, para poder questioná-la na instância superior. Mas, ao contrário do que esperava o New Orleans Comité des Citoyens - grupo por trás de Plessy - a Suprema Corte confirmou a lei. Me fez lembrar o caso de Oscar Wilde, mais ou menos na mesma época, 1895, onde ele processou uma pessoa por chamá-lo de homossexual e o outro, sem ter outro recurso, provou que Wilde era de fato homossexual e ele acabou preso. Plessy e Wilde, dois membros de minorias que cometerem uma severo erro de cálculo ao subestimar os ventos conservadores que sopravam no final do XIX.)
No começo do século, os creoles de Nova Orleans estão vivendo sob domínio francês e são a elite de sua cidade. Na virada do XX, já são os novos intocáveis. E as coisas ainda iriam piorar muito antes de melhorar.
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Leia outros textos sobre Nova Orleans:
Mulatas de Nova Orleans
1 - Plaçage
2 - Quadroon Balls
3 - Bailes de Cuna em Cuba
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