O Fogo em Cena (Drops de Teatro, 8)

Rara foi a peça que não utilizou algum tipo de fogo em cena. Cartas e papéis são queimados, velas são acesas e derrubadas, fogueiras brilham no centro do palco.

No monólogo Negrinha, por exemplo, enquanto a atriz e sua platéia estão entulhados num quarto escuro em um casarão colonial todo em madeira, a única e precária fonte de luz são as dezenas de velas que a protagonista acende e apaga e gira e derruba. O efeito cênico é simplesmente sensacional, mas o lindo do teatro é que ele não é cinema. Estávamos de fato apertados como sardinhas em um quarto cheio de móveis de madeira, em uma casa feita de madeira, enquanto uma moça fazia acrobacias (no escuro!) com velas acesas!

E eu pensando: se essa vela rola e pega na cortina e o fogo sobe cortina acima, quando tempo até o quarto estar tomado por fumaça? Qual é a saída mais próxima? A porta abre pra fora ou pra dentro? Será que eles têm algum plano B de segurança em caso de acidente com fogo?

  Idéias Teatrais: o Século XIX no Brasil  Quorpo Santo

Não estou sendo paranóico, estou sendo historiador. Incêndios eram a principal causa de destruição de teatros no século XIX - aliás, teatros construídos na mesma época em que o casarão onde se encenou Negrinha.

O atual Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, foi o principal teatro brasileiro do século XIX em todas as suas diferentes encarnações: Real Teatro de São João, Constitucional Fluminense, São Pedro de Alcântara. Somente em um período de trinta anos, ele foi completamente destruído pelo fogo, e então diligentemente reconstruído, três vezes: 1824, 1851, 1856.

Apesar de minha área de estudos ser o teatro brasileiro do século XIX, frequentar as peças da nossa cena contemporânea tem me ajudado muito a iluminar nosso passado.

Por exemplo, agora entendo porque, mesmo em uma era onde todas as casas eram de madeira e viviam atulhadas de velas e lampiões, os teatros ainda assim tinham ocorrências de incêndio muito mais frequentes que a média.

* * *

Leia todos meus textos sobre teatro e também dê uma olhada na seção de livros de teatro do Submarino.

Negrinha

 

13.10.10


Categorias: Teatro


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Comentários:


Comentário de: João Paulo Cursino (aka Sr Atoz) · http://sratoz.wordpress.com

E foi assim que BB King escapou de um teatro em chamas... A lenda é que dois homens brigavam por causa de uma certa Lucille. Na briga, derrubaram o latão cujo fogo aquecia o ambiente. Veio o incêndio, morreu gente, o guitarrista se salvou e, em referência ao evento, pôs o nome da mulher na guitarra.

Não que isso tenha muito a ver. É só que me lembrei mesmo. 'Mal aê.

PermalinkPermalink 13.10.10 @ 13:22



Comentário de: Arthur

Eu sempre pensei que teatros pegavam fogo pelo mesmo motivo que cinemas, que seria ter muito espaço vazio, onde possíveis focos de incêndio poderiam crescer por algum tempo sem ser percebidos, e bastante combustível, no cinema sendo os rolos de fitas, e no teatro sendo o figurino e coisas de teatro.

Isso tanto no caso dos incêndios antigos à lampião, quando dos incêndios novos via problemas elétricos.

Eu nunca achei que incêndios começassem em cena, por que parece que seria rápida a reação.

PermalinkPermalink 13.10.10 @ 16:03



Comentário de: Ulisses Adirt · http://incautosdoontem.opsblog.org/

Faz mais ou menos um ano, eu estava vendo uma peça horrivel (da qual nem lembro o nome), tb todo encolhido, em uma estrutura de madeira. Aí um tapete começou a pegar fogo com uma das velas e o ator (era um monólogo) não viu. Uma moça da platéia gritou e eu apontei, o ator viu, pegou o tapete e saiu correndo... voltou dois minutos depois e continuou a peça como se nada tivesse acontecido. Qdo a peça terminou ele agradeceu. Foi o melhor momento da peça.


PermalinkPermalink 17.10.10 @ 17:32



Comentário de: Ulisses Adirt · http://incautosdoontem.opsblog.org/

Ei, Alex, este post tb não estava no meu leitor de feeds... Acho q o RSS aqui do Interney corta posts q t/ palavras como "Negrinha" e coisas do tipo.

PermalinkPermalink 17.10.10 @ 17:37




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PermalinkPermalink 05.10.11 @ 01:02



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