Rara foi a peça que não utilizou algum tipo de fogo em cena. Cartas e papéis são queimados, velas são acesas e derrubadas, fogueiras brilham no centro do palco.
No monólogo Negrinha, por exemplo, enquanto a atriz e sua platéia estão entulhados num quarto escuro em um casarão colonial todo em madeira, a única e precária fonte de luz são as dezenas de velas que a protagonista acende e apaga e gira e derruba. O efeito cênico é simplesmente sensacional, mas o lindo do teatro é que ele não é cinema. Estávamos de fato apertados como sardinhas em um quarto cheio de móveis de madeira, em uma casa feita de madeira, enquanto uma moça fazia acrobacias (no escuro!) com velas acesas!
E eu pensando: se essa vela rola e pega na cortina e o fogo sobe cortina acima, quando tempo até o quarto estar tomado por fumaça? Qual é a saída mais próxima? A porta abre pra fora ou pra dentro? Será que eles têm algum plano B de segurança em caso de acidente com fogo?
Não estou sendo paranóico, estou sendo historiador. Incêndios eram a principal causa de destruição de teatros no século XIX - aliás, teatros construídos na mesma época em que o casarão onde se encenou Negrinha.
O atual Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, foi o principal teatro brasileiro do século XIX em todas as suas diferentes encarnações: Real Teatro de São João, Constitucional Fluminense, São Pedro de Alcântara. Somente em um período de trinta anos, ele foi completamente destruído pelo fogo, e então diligentemente reconstruído, três vezes: 1824, 1851, 1856.
Apesar de minha área de estudos ser o teatro brasileiro do século XIX, frequentar as peças da nossa cena contemporânea tem me ajudado muito a iluminar nosso passado.
Por exemplo, agora entendo porque, mesmo em uma era onde todas as casas eram de madeira e viviam atulhadas de velas e lampiões, os teatros ainda assim tinham ocorrências de incêndio muito mais frequentes que a média.
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