Henry Miller costumava dizer que amava seus livros preferidos mais por seus erros (enormes, monumentais, heróicos) do que pelos acertos - em geral, bem-comportados e tímidos.
Pois Elite da Tropa 2 é um livro falho e, talvez por isso, sensacional.
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Os dois livros básicos de Henry Miller. Essenciais. Lindos. Não sei o que teria sido de minha vida sem eles.
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O começo dos livro nos dá a entender que vamos acompanhar a carreira de um oficial da DRACO (divisão anti-crime organizado). A história avança bem, Twitter, Lei Seca, milícias, engenheira sumida, mas sem empolgação. De repente, o narrador é excluído da ação e eu me senti como se o livro tivesse sido abortado no meio. E agora? Acabou?
Para nossa sorte (nossa do povo fluminense e do público-leitor brasileiro), o livro abre espaço então para duas narrativas em primeira pessoa que são os pontos-altos do livro: em primeiro lugar, o deputado Marcelo Freixo (ops, Freitas, é tudo ficção, gente) narra seu envolvimento na Rebelião de Bangu I em 2002 e suas luta posterior contra as milícias na Assembléia Legislativa. Em seguida, o ex-oficial do BOPE Lima Neto (o co-autor Rodrigo Pimentel?) narra sua experiência de consultor do filme Tropa de Elite e o circo de mídia que acompanhou o filme. Exatamente. A reação da sociedade brasileira (fluminense?) ao filme Tropa de Elite é parte integrante e fundamental de Elite da Tropa 2.
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Algumas Breves Críticas
Não me pareceu que o uso do Twitter foi justificado. A total exclusão dos trechos tuitados não mudaria em nada o livro. Me pareceram ter sido incluídos somente para dar um tom modernoso, de último segundo, à trama. Não era necessário, gente. A Lei Seca, a engenheira sumida, as milícias, tudo isso está no jornal hoje, agora: o livro de vocês já é foda, urgente e premente. Não sou um ludita e acho linda a idéia de incluir o twitter em um romance, mas qualquer trecho que possa ser excluído sem quebrar a espinha do livro é porque está sobrando.
Quanto à qualidade amorfa do livro, talvez nem seja um problema. O primeiro Elite da Tropa também sofria disso e, apesar de ser bem inferior ao segundo, não se perdeu pela falta de uma linha narrativa coerente. Elite da Tropa 2 se equilibra de forma instável entre vários gêneros: pode ser lido como romance, como não-ficção, como denúncia, como reportagem. Não creio que valha muito a pena querer forçar o livro a escolher um lado: deixa ele ser um exemplar instável dessa cross-polinização de gêneros. Mas eu diria o seguinte:
Melhor abdicar de uma fraca ou falsa linha-mestra narrativa do que dar ao livro (ainda mais a um excelente livro) um esqueleto que não o sustenta. Minha humilde sugestão aos autores: ao invés de uma super-narrativa (a mais fraca das três) de um oficial da DRACO sendo interrompida (e claramente superada) por duas supra-narrativas de um militante de direitos humanos e de um ex-oficial do BOPE, por que não simplesmente um livro formado por três novelas independentes, cada uma narrada por uma pessoa, com personagens em comum, e talvez entrelaçando-se em um epílogo?
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As Tropas de Elite e a Ética
Moro em Nova Orleans, nos Estados Unidos, onde dou aulas de português e cultura brasileira. Quase todo semestre, passo Tropa de Elite aos meus alunos. Em parte, por ser um bom antídoto à Cidade de Deus - esse semestre foi o primeiro, em cinco anos, em que a maioria dos meus alunos NÃO tinha assistido esse filme. E, além disso, claro, por ser (provavelmente?) o maior fenômeno cinematográfico do Brasil (do Rio?) em todos os tempos.
(Para mim, ambos os filmes e livros são absurdamente importantes e levantam questões fundamentais para minha vida, para meu futuro, para minha terra. Mas sou carioca, passo cinco meses por ano no Rio, minha amostra pode estar enviesada. Será que brasileiros em Roraima e Santa Catarina pensam igual? Será que o filme os mobiliza tanto quanto á mim? Talvez sim. O primeiro filme foi assistido por cerca de 13 milhões de pessoas e, talvez o dado mais importante, em uma época onde o cinema está cada vez mais desimportante, sete entre cada dez brasileiros moradores em grandes cidades ouviram falar dele. E ganhou o Urso de Ouro.)
Em Tropa de Elite, o cinema (pela primeira vez em muitos anos) estava pautando a conversa nacional de forma inteligente e não-maniqueísta, levantando questões prementes e relevantes, gerando debates e reflexão. O Brasil (ou o Rio?) se reconheceu em Tropa de Elite. A esquerda louvou o filme por denunciar a mau treinamento, o despreparo, a violência das polícias. A direita louvou o filme por lhes dar o herói que precisavam, o Jack Bauer brasileiro - e ainda por cima mostrou como são esses intelectuais esquerdinhas que patrocinam o tráfico!
Apesar de adorar o filme, seu grande problema é justamente se permitir ser cooptado pela direita. Um artista tem um mínimo de controle e responsabilidade sobre a leitura da sua obra. Eu teria carregado só mais um pouquinho na visão negativa do Capitão Nascimento, justamente para prevenir uma leitura do filme onde ele fosse percebido como um herói positivo a ser emulado. Tive longas conversas com Idelber sobre o filme - ele discorda e acha que o filme JÁ faz isso. Meu artigo: Tropa de Elite, Cúmplice por Incompetência. Ainda não vi o segundo filme, mas ambos os livros, diga-se a seu favor, se colocam inequivocamente de um dos lados da discussão e não abrem espaço para servirem de suporte aos preconceitos da direita.
Algumas resenhas sobre o novo filme, Tropa de Elite 2, também já estão se posicionando quanto a essa questão. Na Folha, escreveu José Geraldo Couto:
O cinema não tem obrigação de ser otimista, nem de apontar soluções. O problema, a meu ver, está na maneira como o diretor José Padilha manipula as emoções do espectador para, supostamente, esclarecê-lo ao final do processo. Em entrevista à Folha o cineasta disse que a identificação catártica do público com o capitão Nascimento, no primeiro filme, foi algo que o surpreenedeu e desagradou. Ora, que conversinha estranha. Como um diretor com sua experiência e gabarito poderia ignorar que a narração em off pelo protagonista, a escalação de um ator carismático para vivê-lo na tela, implicaria inevitavelmente uma adesão do espectador a suas ideias e sentimentos? ...
Vi o filme numa sessão normal, com o cinema lotado. É impossível não perceber que boa parte da plateia vibra com as execuções de criminosos, que se regozija com as vinganças mais crueis e macabras, corpos carbonizados, sangue aos borbotões. Padilha dirá, e com razão, que os impulsos sádicos entranhados no indivíduo e na sociedade não são culpa de seu filme. Ainda assim, saí do cinema com a sensação de que há algo de perverso na satisfação desses impulsos. O cinema não precisa mostrar tudo, não tem que ser refém dessa apoteose expositiva, a menos que seu interesse primordial seja conquistar espectadores a qualquer preço. ... Podem me chamar de tolo, mas sonho com um filme que fale de violência sem mostrar uma gota de sangue.
E, na Época, Paulo Moreira Leite:
Tropa 2 quer fazer um discurso político sobre o Brasil e aí o filme se perde num universo ideológico antigo... A idéia de Tropa 2 é que o Estado não presta, os políticos são todos corruptos, a imprensa está comprometida com interesses obscuros, as eleições são fruto da roubalheira e a polícia deveria acabar. ... Na cena final, Tropa 2 mostra imagens de Brasilia e da Esplanada dos Ministérios. Fica a sugestão de que o país inteiro está dominado por aquilo que o filme chama de “sistema,” organismo definido numa cena como “articulação de interesses escrotos”. ... Compreensivelmente, o personagem positivo do filme é um herói quase utópico, à beira do inviável: um professor de história que se torna combatente pelos direitos humanos e por fim vira deputado estadual... Nos debates do Tropa 1, Padilha disse que enfocava a violência de um ponto de vista que não era marxista nem neo-liberal. Em Tropa 2 o discurso político é uma revolta pelo fim do Estado. É como se não houvesse classes sociais, nem interesses mais amplos em choque. Não há política — apenas uma guerra de quadrilhas.
Ainda não assisti o filme. Infelizmente, por morar no exterior, dependerei das cópias piratas que a equipe de produção tanto abomina. Aliás, até mesmo na própria questão das cópias piratas, o assunto ética nunca está distante de Tropa de Elite.
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Imediatismo do Livro
Em termos de literatura, é sempre uma novidade interessante ver nossa vida contemporânea ali retratada, sentir que a literatura pulsa no ritmo do nosso dia-a-dia. Nessa linha, mesmo pouco justificado, o recurso ao Twitter serve para ancorar o livro firmemente no hoje e no agora - espero apenas que não envelheça o livro precocente quando o Twitter sumir, daqui a poucos anos.
Mesmo atualmente morando fora do Rio por boa parte do ano, eu estava na cidade no primeiro fim de semana da Lei Seca, quando sumiu a engenheira, quando mataram Felix e Nadinho, quando Bangu se rebelou, quando Beira-Mar fechou o comércio.
Para mim, todos esses fatos são tão absurdamente próximos, reais, concretos:
Minha casa era praticamente dentro de Rio das Pedras, a favela dominada pelos milicianos Nadinho e Felix Tostes. Quando Oliver e outros dois cachorros sumiram da minha casa, eles só foram encontrados depois que Nadinho se envolveu pessoalmente. O Oliver, mais esperto, passou de fato os cinco dias perambulando pelas ruas da favela e sobreviveu, mas os outros dois cachorros tinham sido capturados por um vizinho escroto que só os soltou por medo justificado do Nadinho. Mais tarde, eu até (que deus me perdoe) votei nele para vereador, em agradecimento. Foi assassinado em frente ao trabalho da ex-namorada, onde eu a pegava toda tarde. Junto com ela, na mesma empresa, também trabalhava a tal engenheira desaparecida (no livro, arquiteta), que sumiu ao passar pelo viaduto onde eu também passava todos os dias. No dia em que Beira-Mar fechou o comércio e espalhou o pânico pela cidade, eu estava de mudança, andando pela Zona Oeste com todas minhas coisas em um caminhão.
Mal consigo imaginar como deve ser a experiência de leitura de alguém de outra cidade, de outro estado, de outra realidade. Para mim, é impossível separar esse livro da minha vida.
Estou há 14 meses longe do Rio. Meu recorde. Vou perder o ano de 2010 inteiro na minha cidade. Isso me machuca. Vocês vão me achar louco, mas leio um livro desses, e tudo o que penso é: voltar, voltar, voltar.
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Setembro de 2002 no Rio de Janeiro
Um dos meus futuros projetos é escrever um livro sobre três momentos-chave da história do Rio (mais detalhes aqui): setembro de 1711, quando a cidade é tomada pelos franceses; setembro de 1893, quando é bombardeada pela marinha; setembro de 2002, quando Bangu I se rebela e Beira-Mar fecha o comércio. (Vocês acreditam que só agora, escrevendo isso, me dei conta que foram três momentos em setembro?)
Quem cresceu no Rio dos últimos 40 anos já está acostumado à violência urbana. Faz parte do nosso cotidiano. Apesar disso, setembro de 2002 ficou marcado na minha memória: pela primeira vez, parecia que a cidade inteira tinha enlouquecido. Não eram só problemas pontuais ou locais que poderiam ser ignorados: tínhamos todos ido pro buraco juntos.
Aparentemente, os autores de Elite da Tropa concordam comigo que setembro de 2002 foi um mês sui-generis. Sempre lembrando que ambos os livros propositalmente tanto distorcem os fatos reais narrados quanto omitem nomes e anos, eu diria que a segunda parte do primeiro livro, "A Cidade Beija a Lona", se refere muito aos eventos que aconteceram no Rio no final de setembro de 2002. A identificação é problemática e imperfeita, os autores puxam um fato daqui e outro dali, mas dá pra reconhecer as linhas gerais.
Agora, entretanto, no capítulo XIX do segundo livro, a alusão é ainda mais clara: seria impossível não reconhecer uma rebelião em Bangu I, em setembro de um ano eleitoral, com uma governadora de esquerda evangélica no Governo do Estado. Mais uma vez, estamos em setembro de 2002 - mais especificamente, no dia 11, data fatídica.
Não pode ser coincidência que os autores, em dois livros diferentes, voltem ao mesmo mês que também me marcou como um dos pontos baixos da história da cidade. Decididamente, foram semanas sui-generis.
O capítulo talvez seja o melhor do livro, fortíssimo, humano, emocionante. Não consigo deixar de pensar se não teria sido melhor estendê-lo em detrimento da primeira narrativa, do oficial da DRACO.
Sobre a Bené, os autores são duros com ela, talvez até demais. Eu, que não sei nada de política nem de polícia, sempre tive a impressão de que seus nove meses de governo, primeira governadora negra do Brasil, espremida entre o Anthony Garotinho que ela substituiu e a Rosinha Garotinho que a sucedeu, foi propositalmente sabotado para afundar ainda mais o PT fluminense. De qualquer modo, não deixa de ser interessante que esse ano sui-generis também sido marcado por um governo completamente sui-generis - de apenas nove meses, de uma governadora petista, negra e favelada, espremida entre um marido e uma mulher, de um outro partido que não o dela, nominalmente aliados mas na verdade inimigos. Bené herdou um baralho viciado e fez o melhor governo possível, contra os interesses da dinastia mais poderosa do Estado. Fiz muita campanha por ela em 2002 mas ela não conseguiu se reeleger. Enfrentou um ostracismo pesado e agora, em 2011, está finalmente voltando a representar o Rio no Congresso Nacional.
Essa matéria da Época (escrita por Nelito "Eu Hein" Fernandes e Martha "Elas por Elas" Mendonça, alguém ainda lembra desses excelentes blogs?) além de comparar a rebelião real com os fatos narrados pelo livro, ainda conseguiu obter um depoimento da Benedita:
Mostrada como “a governadora do maior partido de esquerda do país” na obra, a governadora não tem o nome citado nas páginas. Seu padrinho seria José Dirceu. Os autores não quiseram revelar se a passagem é verdadeira ou não – e nem o nome dos envolvidos. Benedita nega que a ligação tenha acontecido. “O que é isso? Nunca houve essa ligação. Nossa orientação para a polícia foi de negociar, de esgotar todas as possibilidades de negociação. Jamais mandaria invadir o presídio. A única coisa que o livro diz e que é verdade é que eu orei. Isso eu orei mesmo."
Abaixo, um trecho do capítulo XIX, a narrativa do Deputado Marcelo Freitas sobre a rebelião de Bangu 1:
Finalmente, atravessamos o pátio e chegamos à portaria, mas isso não me tranquilizou. O desconforto perdurou. Aos poucos, agravou-se, na medida em que percebia que Huber e Lima Neto iam ficando mais tensos nas conversas que travavam com o comandante-geral da polícia militar e o coronel que comandava o BOPE. Coube a ambos negociar nossa parte do acordo com seus superiores. A resistência à mídia me parecia um sintoma claro do que eu mais temia. Negociar com presos rebelados é fácil. Difícil é bloquear as pressões políticas e impedir que o palácio do governo entorne o caldo. Uma invasão não faria nenhum sentido. Precipitaria uma carnificina, em que os reféns seriam os primeiros a morrer, sem nenhum motivo. Se fez algum sentido antes, tinha deixado de fazer quando retornamos à portaria com o acordo selado. Por que preferir a carnificina à espera de algumas horas pela rendição já prometida? O motivo que restara não tinha a ver com Russo, presos amotinados, reféns ou Bangu, mas com as eleições e a mensagem que uma governadora fraca e titubeante emitiria para reverter o quadro político a seu favor.
O relato do amigo de Lima Neto, ao qual só tive acesso depois, bem depois, confirmou minhas piores expectativas: a governadora não sabia o que fazer. Chorava, evocava as dificuldades de governar, os sacrifícios que o fardo de governar lhe impunha, e invocava a luz divina. Chegou a rezar com o secretário de segurança e os auxiliares mais próximos, pedindo inspiração a Deus. É por aí que se abrem as brechas por onde penetra o diabo. E foi o diabo que soprou, por telefone, a decisão no ouvido da governadora. Do interior de São Paulo, veio a orientação firme de seu padrinho político, um experimentado militante da esquerda revolucionária, curtido na grande marcha da burocracia partidária, que nunca perdera o charme juvenil nem o ar hierático de comandante. O que é que se poderia esperar de um velho stalinista? Um stalinista não hesita nunca, para o bem ou para o mal. O recado era cristalino: “Morte aos párias, aos contrarrevolucionários, aos rebelados de Bangu.”
Mentira. Il padrino não fala assim. Ele provavelmente foi mais coloquial. Deve ter dito algo como: “Fuzile os filhos da puta. Eles querem nos foder. Ou você acha que uma rebelião perto das eleições acontece por acaso? Claro que estão recebendo grana ou promessas de vantagens de nossos inimigos políticos. Ou você mata esses bandidos ou eles nos aniquilam.”
O amigo de Lima Neto, evidentemente, não tinha como ouvir o que de fato disse o maestro político que falava ao telefone com a governadora, do interior de São Paulo. Mas ouviu a resposta da boa senhora: “Será nosso Carandiru! Como é que eu vou pendurar uma carnificina em minha biografia? Vai ser o Carandiru da esquerda.” Isso ela realmente disse, alto e bom som. Entretanto, calou-se ante algum argumento avassalador que ouviu por cinco intermináveis minutos, findos os quais despediu-se, desligou o telefone e determinou a seu secretário que contatasse o comandante-geral da PM e, diretamente, o comandante do BOPE, e lhes transmitisse a ordem, uma ordem expressa da governadora: invadam Bangu 1. A mulher pôs-se a orar, aos prantos.
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"Eu Sou o Capitão Nascimento!"
Depois da narrativa de Marcelo Freitas, descrita acima, o livro envereda por um novo caminho, talvez ainda melhor. Agora acompanhamos a vida de Lima Neto, um oficial do BOPE cuja vida vira ao avesso depois que serve de consultor... para o filme "Tropa de Elite"!
É isso mesmo que vocês ouviram.
Vindicando toda uma tradição metalinguística que já parecia esgotada desde que Dom Quixote, na segunda parte do romance, encontrava pessoas que tinham lido a primeira, o livro Elite da Tropa 2 aborda como um dos seus assuntos principais os debates em torno do filme Tropa de Elite. Todas as questões éticas levantadas por mim, pelo Moreira Leite e pelo Couto citados acima, e por tantos outros, são parte integrante do novo livro. Elite da Tropa 2 se coloca direto no meio do debate.
Só por isso, apesar de algumas falhas, já seria um grande livro. Essencial para qualquer carioca.
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Sobre o Rio de Janeiro
Termino de escrever um texto como esse e percebo cada vez mais a relação concreta que tenho com minha cidade. Essa cidade é minha porque é impossível falar sobre esse filme sem também falar de mim e da minha história: sou herdeiro das pedras portuguesas de Copacabana e do bondinho de Santa Teresa, das lagoas da Barra da Tijuca e das cotias do Campo de Santana, assim como também sou herdeiro da porcaria pelo chão e dos engarrafamentos pelas ruas, das chacinas e do caos. O bom e o mau, o lindo e o podre, é tudo meu. Os mesmos antepassados que me legaram a Floresta da Tijuca e o largo do Boticário também deixaram outras tantas bombas pra explodir na minha mão. Como cidadão carioca, aceito tudo.
Daqui a pouco, nos comentários, vai me aparecer um idiota criticando meu pretenso "orgulho pelo Rio" e dizendo que o Rio é uma cidade suja e violenta, e um outro idiota vai responder que não, que o Rio é a cidade mais linda do mundo, mas não estou falando nem de orgulho, nem de vergonha: meu sentimento é muito mais primal e concreto. Certo ou errado, bonito ou feio, esse chão é meu.
O mundo é cheio de problemas: assisto Juno e fico comovido com toda a questão da gravidez infantil, aborto e adoção, mas assisto Tropa de Elite e o filme ME aponta um dedo direto na cara: esse é o problema da minha época, da minha terra, da minha geração. Na loteria da História, foi essa batata quente que me coube. O bônus é meu, o ônus também.
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Alguns links:
- Entrevista com Rodrigo Pimentel, ex-oficial do Bope, co-roteirista, co-autor.
- Orações e medo na rebelião de Bangu 1 - Comparando os fatos reais com a abordagem do livro.
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Ebook GatoSabido
Fiquei feliz de poder comprar o livro pela GatoSabido e ler mesmo estando longe do Brasil. Entretanto, não gostei de ter que usar o Adobe Digital Editions (se fosse um PDF normal, teria podido ler no meu kindle) e também não gostei dos inúmeros erros de edição do livro - linhas cortadas, formatação torta, etc. Já li muito ebook, alguns pagos, outros gratuitos. Nos segundos, a gente aceita tudo; nos primeiros, queremos qualidade. A edição foi feita pela Singular - mas, estranhamente, esse crédito só aparece na versão de amostra, não no arquivo completo! Enfim, ando muito satisfeito com os ebooks que compro pela Amazon, mas o Brasil parece estar atrasado nessa área. Enquanto isso, o Gizmodo foi comprar um ebook no Ponto Frio e descobriu que a entrega demorava dois dias úteis - a partir da liberação da compra! Parece que eles mandam o arquivo num pen-drive no lombo de um burro ladeira acima. Meu livro LLL está "a venda" na GatoSabido, mas até agora ainda não colocaram a imagem da capa - já mandei vinte mil emails e desisti. Claramente, nem a empresa que quer viver DISSO leva ebooks a sério.
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