Um texto sobre o filme Tropa de Elite, originalmente publicado em 15 de outubro de 2007. Ainda concordo com tudo, mas teria maneirado na linguagem. Amanhã, publico texto original sobre o novo livro Elite da Tropa 2.
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Não diria que Tropa de Elite é um filme fascista, mas somente por uma evidência extra-filme: o documentário "Ônibus 174". O diretor desse magnifíco documentário não pode ser um direitista ensandecido. De qualquer modo, no mínimo, "Tropa de Elite" é um filme que falha ao não conseguir evitar de ser cooptado pelo inimigo: se não é fascista, é incompetente.
Uma obra de arte precisa ser aberta a uma variedade de interpretações e não pode impor um único sentido ao seu público. Por outro lado, embora tente não limitar demais o leque de interpretações, cabe ao artista (especialmente se tem objetivos políticos) direcionar minimamente essas interpretações. Não existe obra de arte inocente. Ela ou está contra o establishment ou é cúmplice dele.
"Tropa de Elite" me pareceu um filme fascista, sim. Mesmo se não tenha sido essa a intenção do diretor, é um filme que se presta muito facilmente a esse papel. Se o diretor não desejava que o filme fosse entendido assim, deveria ter sabotado internamente essa leitura. Não o fez. Portanto, é cúmplice dessa leitura.
Sim, claro, o Capitão Nascimento não está satisfeito na polícia, sonha em sair, se entope de remédios. Mas e daí? Hoje em dia, qualquer herói de ação minimamente realista também faz tudo isso. Só James Bond nunca pensou em largar essa vida de violência - e por isso mesmo já se tornou um personagem quase humorístico. Se formos por esse raciocínio, Jack Bauer também não é um herói fascista, pois ele sabe que sua vida é uma merda e também está sempre querendo pular fora. As dúvidas de Nascimento não sabotam sua voz: pelo contrário, a valorizam, ao mostrá-lo como um herói estóico que suporta todas essas dificuldades em nome da sua Missão com m maiúsculo.
A mensagem do filme me parece clara: o problema são os burguesinhos maconheiros hipócritas e os maus policiais corruptos. São eles que sustentam e possibilitam o tráfico. Se todos fossem como o Capitão Nascimento, estava tudo resolvido. Anauê!
Há somente um momento em que o filme problematiza o Capitão Nascimento e deixa entrever que ele talvez não seja tão heróico ou perfeito assim: quando chega em casa e quase agride sua mulher. Mas passa rápido.
Estudei História e Jornalismo na PUC-RJ. Já fumei muita maconha nas casinhas. Já discuti muito Foucault em salas de aula com vista pra mata. Já subi morro. Já levei dura. Confesso aqui a fraqueza de ter vibrado quando os traficantes matam os maconheirinhos da PUC, mas só porque me lembrei de vários colegas em que não pensava faz tempo. De qualquer modo, logo fiquei corado e não me orgulho disso.
Triste mesmo é ver essa turba direitista ensandecida, babando de prazer e ódio, com sangue nos olhos, exigindo olho por olho e dente por dente, louvando o filme por ser a transposição cinematográfica de seus desejos mais fascistas e homicidas. Era óbvio que o filme, tal como está, seria saudado por essa corja. O diretor tinha mil maneiras diferentes de sabotar e impedir previamente essa interpretação. Não o fez porque não quis. Por incompetência? Por omissão? De qualquer modo, agora ele não pode mais se omitir: tornou-se cúmplice de qualquer um que utilizar seu filme para pregar mais violência policial.
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Só pra ficar claro: a discussão acima é política, não artística. O filme falha politicamente, não artisticamente. É, apesar de tudo, um filmaço.
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Amanhã, uma resenha do livro Elite da Tropa 2.
Update
Escreveu o Arranhaponte:
Eu perguntei ao meu porteiro, morador da favela do Vidigal, ponto importante de tráfico, se ele tinha visto Tropa de Elite e o que tinha achado. A resposta, num tom sereno e desencantado, foi: "É, F., é a realidade, a realidade"
O que mais se pode pedir de uma obra de arte?
Hmmm, então quer dizer que a função de uma obra de arte é refletir a realidade e mais nada? Portanto, se ela refletir a realidade já cumpriu sua obrigação e não se pode/deve pedir mais nada? Portanto, se não reflete a realidade, não é arte?
Rapaz, eu não saberia nem por onde começar a discordar. Provavelmente, começaria citando TODA a teoria da arte desenvolvida nos últimos 150 anos, mas daria muito trabalho.
Update II
Escreveu o arguto leitor Geraldo:
Talvez você deva citar as partes da "Teoria da Arte" que dizem que diretor de Cinema deveria fazer apologia das drogas. Aparentemente, você é tão provinciano que confunde Arte com o que se costumava fazer no Cinema Brasileiro.
Bem, vou citar então textualmente. Desculpem o idioma, mas a minha edição da Teoria do Romance, de Lukacs, é em espanhol (Barcelona: Edhasa, 1971, pp.45-46). Reparem que esse ainda é o Lukacs pré-marxista. Depois, ele ficaria mais dogmático:
Una obra de arte que muestre las fuerzas del orden (policía, exército, etc) de manera positiva es, por definición, una obra burguesa y reaccionária, y su autor merece el paredón. Una buena obra de arte, proletariamente hablando, tiene que promover la inversión de los valores burgueses, la exaltación del crímen y la humillación de las fuerzas de la ley y del orden. Sólo asi consiguiremos derrumbar la democracía liberal y instaurar la dictadura del proletariado.
Naturalmente, Lukacs não fala ainda de apologia das drogas, mas a inferência é clara. Durante as filmagens de Cidade de Deus, dizem, Fernando Meireles tinha esse trecho emoldurado em sua sala. Mas pode ser boato.
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