Outro dia, me perguntaram no Formspring, mas respondo aqui.
Favoritos Absolutos
Esses estão nas listas de quase todo mundo. De fato, não dá pra fugir deles. Se você não leu qualquer um desses, faça disso sua prioridade absoluta. Em ordem aleatória:
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Talvez obra-prima mais universal da língua portuguesa.
Um post sobre o livro: Dom Casmurro, de Machado de Assis
* * *
O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco
Um dos livros mais corajosos e radicais escritos no Brasil oitocentista.
Alguns posts relacionados: Leis para Inglês Ver // Na Verdade, As Idéias Estão no Lugar // O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco
* * *
Os Sertões, de Euclides da Cunha
A loucura, a ambiguidade, a empáfia, o deslumbre de Euclides são os nossos próprios, até hoje. A obra que nos define, apesar de si mesma e apesar de nós mesmos. Para se ler com o rabinho entre as pernas e de orelhas baixas.
Uma série de posts sobre o livro: Os Sertões Explica o Brasil // A Importância Tautológica de Os Sertões // O Atavismo de Euclides da Cunha
* * *
Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre
Talvez a maior contribuição brasileira à Grande Conversa Mundial. Em termos historiográficos, a metodologia de Freyre foi imensamente influente mesmo para quem caga pro Brasil.
Um texto meu sobre o livro: Gilberto Freyre e Casa Grande & Senzala
* * *
Agua Viva, de Clarice Lispector
Talvez a obra que leva a língua portuguesa mais longe, que mais força os limites entre o que pode e o que não pode ser articulado.
* * *
A Hora da Estrela, de Clarice Lispector
Muitos tentaram e quase todos fracassaram, pelos mais diversos motivos, mas só Clarice triunfou totalmente em sua tentativa de escrever um romance verdadeiramente social, problematizando não só o pobre subalterno (Macabéa) mas também nosso próprio olhar autoritário sobre ele (Rodrigo S.M.).
Alguns textos relacionados: O Narrador Masculino de A Hora da Estrela // O Livro Enquanto Instrumento: Uma Ode À Hora da Estrela // Clarice // Três Marginalizados Entre a Palavra e o Silêncio: Fabiano, Macabéa e Biela // A Hora da Estrela, de Clarice Lispector // A Invenção do Nordeste em A Hora da Estrela // A Nordestinidade de Clarice Lispector // A Desconstrução de Um Olhar em A Hora da Estrela
* * *
Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa
Talvez nossa obra mais autenticamente brasileira, no sentido de ser completamente intraduzível e incontextualizável. Ou você conhece o Brasil, vive o Brasil, fala o português do Brasil, ou não dá.
* * *
Dificilmente alguém discutiria contra a inclusão dos livros acima, mas também fazem parte dos meus favoritos absolutos os seguintes:
Qualquer antologia dos melhores contos de Machado de Assis
Os outros romances ficam muito abaixo de Dom Casmurro, mas qualquer seleção dos melhores contos será incrível. Impossível dizer os favoritos, mas sou bem parcial aos contos sobre escravidão, como Pai Contra Mãe e Caso da Vara. Tem muita antologia de contos de Machado circulando por aí, mas recomendo fortemente as duas acima, ambas organizadas por dois excelentes machadianos, John Gledson (esquerda) e Massaud Moisés (direita).
* * *
Qualquer antologia das melhores poesias de Gonçalves Dias
Em geral, confesso, sou meio impermeável à poesia - como dá pra ver pela lista - mas Gonçalves Dias me emociona sempre, a cada releitura.
* * *
O conjunto da obra de José de Alencar
Nenhum livro de José de Alencar pode ser, a rigor, considerado uma obra-prima. Mas a melhor obra de Alencar foi... sua obra! Uma construção una, magistral, monumental, que ele concebeu de forma integrada e orgânica. O Brasil inteiro está em Alencar, do sertanejo ao gaúcho; das mulheres honradas às mulheres decaídas; do índio nobre ao negro gozador; das minas de prata aos troncos dos ipês; do dândi bacharel da Corte ao fazendeiro trabalhador do campo. Não é exagero dizer que Alencar inventou a própria idéia de Brasil que temos hoje. Ainda vivemos e trabalhamos e pensamos nós mesmos utilizando as palavras, as categorias, as classificações de Alencar. Tem que ler tudo. Tudinho.
Não consigo pensar em Alencar sem lembrar uma frase do Marconi Leal:
Grosso modo, a Espanha desenvolveu sua tradição literária a partir de Cervantes; a Inglaterra, de Shakespeare; a Itália, de Dante; Portugal, de Camões. Seguindo o exemplo desses países e possuindo um gênio como Machado de Assis, o Brasil também desenvolveu sua tradição literária: a partir de José de Alencar.
* * *
O Cemiterio dos Vivos, de Lima Barreto
Vários romances de Lima Barreto são obras-primas em potencial (como Clara dos Anjos, Isaías Caminhas, M.J. Gonzaga), sabotadas por ele mesmo e pela sociedade que o discriminava. Entretanto, em O Cemitério dos Vivos, todos os defeitos que desmontavam os outros livros agora se tornam virtudes e temos uma das obras mais duras, mais fortes, mais emocionantes sobre a vida... do outro lado. A vida de quem não estava na Colombo tomando chá com Olavo Bilac. Sensacional. Doloroso. Talvez seja a obra mais desconhecida da minha lista e, longe, a que você mais deve correr pra ler.
* * *
Mas aí, amigo leitor, você me pergunta: por que perder tempo lendo Lima Barreto e José de Alencar? Por que não ler Moby Dick, Ulysses, Ana Karenina, Em Busca do Tempo Perdido, O Homem Sem Qualidade?
E eu responderia: poxa, leitor amigo, muito obrigado por essa pergunta, porque tudo o que eu queria era uma desculpa pra citar o Antonio Cândido sem parecer muito bobão ufanista:
Há literaturas de que um homem não precisa sair para receber cultura e enriquecer a sensibilidade; outras, que só podem ocupar uma parte de sua vida de leitor, sob pena de lhe restringirem irremediavelmente o horizonte. Assim, podemos imaginar um francês, um italiano, um inglês, um alemão, mesmo um russo e um espanhol, que só conheçam os autores de sua terra e, não obstante, encontrem neles o suficiente para elaborar a visão das coisas, experimentando as mais altas emoções literárias.
[...] A nossa literatura é galho secundária da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no Jardim das Musas. [...] Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a compõem, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão. Ninguém, além de nós, poderá dar vida a essas tentativas muitas vezes débeis, outras vezes fortes, sempre tocantes, em que os homens do passado, no fundo de uma terra inculta, em meio a uma aclimação penosa da cultura européia, procuravam estilizar para nós, seus descendentes, os sentimentos que experimentavam, as observações que faziam - das quais se formaram os nossos.
* * *
Em breve, as menções honrosas.
* * *
Esse blog só existe por causa das comissões do Submarino. Se gosta do blog e se pretende comprar livros na internet, compre pelo Submarino clicando por aqui e ajude a manter seu blogueiro favorito. Grato.
Posts similares:
A Literatura e seus Gęnios
Pirraça Anti-Machado
Mais livros online
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Post anterior: O Voto na História do Brasil Próximo post: Os Dois Documentos e os Analfabetos (Pequena História da Cidadania no Brasil)