Cinco anos atrás, no LLL:
Quarta, 7 de setembro de 2005
Vocês leitores são sensacionais. Como é que vocês me acreditam em uma história ridícula dessas?! A cada detalhe que eu acrescentava, eu pensava: porra, agora alguém vai ter que dizer "Caralho, você tá zoando da gente. Quer mesmo que eu acredite no fotógrafo chinês?!"
Não me entendam mal. Cada detalhe inverossível dessa epopéia é verdade. Mas, nem eu, que sei que é verdade, acredito ainda. Acho que só vou acreditar quando ele estiver aqui, latindo na sala. Como é que vocês acreditaram e tiveram tanta fé?
Eu amo vocês.
* * *
Hoje de madrugada, 7 de setembro, o Oliver chegou em Washington DC e já está hospedado na casa dos sogros da minha amiga Renata.
Tudo começou mesmo com a Renata, uma das minhas amigas mais queridas, uma pessoa que repetidamente me salva de mim mesmo e das confusões em que me meto. Não satisfeita em me salvar do Katrina (ela me mandou um email, quando eu estava no abrigo, em Jackson, dizendo simplesmente, "vem aqui pra NY ficar comigo agora, eu pago a passagem"), ela também foi quem indiretamente salvou o Oliver.
Depois que eu saí de NY para vir para a Califórnia, no sábado, ela foi passar o feriadão de Labor Day com os sogros, em Washington. Na casa dos sogros, que são colombianos (essa história é cheia de colombianos, inclusive meu roomate fidaputa), ela conheceu um outro casal colombiano, que estava lá com a filha, Marcela. A moça, mais ou menos da nossa idade, era de New Orleans. As duas não eram muito amigas mas começaram a conversar.
Pra começar, Marcela confirmou que o meu roomate era mesmo um filho da puta - como se eu não soubesse. Em uma emergência como essa, você não evacua a cidade com dois lugares vazios no seu carro. Você oferece lugar pra quem não tem carro. Até mesmo pra um vizinho que você não conheça muito bem. Qualquer um. Muitas pessoas morreram por falta de quem lhes desse carona pra fora da cidade.
Algumas horas depois, Marcela ligou pra Renata, disse que um amigo dela maluco iria tentar penetrar em Nola pra tirar umas fotos, passaria na casa dela pra pegar uns documentos importantes e poderia tentar resgatar o Oliver. A Renata deu meus dados todos mas nem ela nem eu tínhamos muitas esperanças.
Todos os elos dessa cadeia eram extremamente tênues. It was a long shot, at best.
* * *
O herói dessa história se chama Mark. Falei com ele ao telefone ontem mas não consegui pegar seu sobrenome. Aliás, o homem não é chinês-chinês, e sim sino-americano.
Fotógrafo free-lance de revistas universitárias de Washington, ele e um amigo decidiram penetrar em New Orleans, documentar a tragédia do Katrina e tentar tirar algumas boas fotos pra vender depois.
UPDATE O nome dele é Mark M. Gong. Confiram seu portfólio ou suas fotos de New Orleans pós-Katrina.
Chegando lá, viram que a coisa era mais complicada do que imaginavam. Ruas alagadas ou bloqueadas por árvores ou destroços, toque de recolher do exército, saques e tiros, um caos.
Agora, tem mais um detalhe daqueles que fazem parecer que a história foi escrita por um mau roteirista de Hollywood. Eu posso até ver um leitor mais cético fechando o blog e dizendo, putaqueopariu, até aqui eu até vinha acreditando, mas agora esse gordo mentiroso exagerou! Mas, enfim, foi assim que me contaram.
Mark ligou pra Marcela e disse que as coisas estavam muito difíceis em Nola. Não iria dar pra pegar os importantíssimos documentos dela e salvar o cachorro do amigo da mulher do filho dos conhecidos dos pais dela. Talvez não desse pra fazer nem um. O que ela preferia?
Não sei quanto tempo Marcela pensou antes de responder, mas acabou dizendo: salva o cachorro.
Na segunda de manhã, Mark e o amigo chegaram na minha rua. A água estava batendo no segundo degrau da casa, ou seja, havia cerca de um metro de água na rua. A princípio, ele ficou relutante em arrombar a porta. Chamou pelo Oliver. Lá de dentro, o cachorro latiu de volta.
Finalmente, ele tomou coragem e arrombou a porta.
A casa estava toda cagada e mijada, um fedor dos infernos. Tirando isso, as janelas todas resistiram, tudo em ordem. O Oliver não parecia triste ou fraco ou abatido mas sim (como sempre) elétrico e cheio de energia. Mark não viu comida nenhuma (eu tinha deixado 2kg nove dias antes, mas estavam pelos cantos, ele pode não ter visto ou o Oliver pode ter comido tudo) mas disse que ainda havia muita água no balde e na bacia.
Ou seja, esse cachorro sem-vergonha, esse cachorro herói, esse cachorro durão estava bem, agitado, latindo, e ainda tinha guardado sua água muito bem. Não estava nas últimas coisa nenhuma, como todo mundo achou, e provavelmente ainda aguentaria vários dias por lá.
Nesse momento, o Mark cometeu um erro pelo qual ele iria se arrepender amargamente nos dois dias seguintes. Ele não viu a caixa de transporte do Oliver, a caixa na qual ele veio do Brasil e que estava em lugar bem visível no meu quarto.
O Oliver é hiperativo. Ir com ele de carro até a esquina é um sacrifício, ainda mais de New Orleans até Washington DC. A caixa seria uma excelente maneira de garantir uma viagem mais segura e tranqüila.
O Mark admitiu que, realmente, o primeiro dia no carro foi meio infernal pros três mas que, no segundo, eles já tinham "warmed up to one another".
Finalmente, hoje, quarta feira, as quatro da manhã hora local, Mark e seu amigo deixaram o Oliver na casa dos sogros da Renata.
* * *
Esse homem é meu herói. De verdade. Por uma série de razões.
A primeira é por ter conseguido entrar em Nola, sozinho, só ele e um amigo, quando muita gente boa e mais cheia de contatos não conseguiu. Depois, ele conseguiu achar meu endereço em uma cidade desconhecida e totalmente convulsionada, arrombou minha porta sem ninguém prendê-lo ou linchá-lo, resgatou o Oliver e ainda dirigiu por dois dias com aquele bicho maluco perturbando.
E tudo isso pelo cachorro do amigo da mulher do filho dos conhecidos dos pais da amiga dele. Sensacional.
Ele hoje está chapado em casa. Vai dormir o dia todo.
Amanhã ou hoje mais tarde, vou falar com ele por telefone e MSN, ele vai me dar mais detalhes, me mandar algumas fotos da casa e do Oliver e escrever um breve relato aqui pro blog. Provavelmente, essa história que contei aqui tem vários errinhos factuais que ele deve poder corrigir.
Eu disse pra ele que o Oliver era famoso no Brasil todo e que meu último post, avisando do resgate, já estava com mais de duzentos comentários e ele morreu de rir.
Aguardem mais detalhes.
* * *
Agora, os meus problemas imediatos de refugiado:
1. Ser aceito oficialmente em Berkeley pra cursar disciplinas aqui. Quase resolvido.
2. Continuar sendo regularmente pago pro Tulane. Eles juraram que vão continuar pagando, mas a burocracia vai ser complicada.
3 Arranjar um lugar pra ficar pelos próximos quatro meses, em Berkeley, que aceite cachorro e que não seja absurdamente caro. Tudo aqui é caríssimo e eu tenho que viver com $900 por mês. Encontrei um site maravilhoso, com muitas ofertas especiais pra refugiados do Katrina, e estou saindo daqui a pouco para ver apartamentos. Pode ser resolvido em breve, mas ainda assim preciso de toda a ajuda possível.
UPDATE: graças ao site acima, eu já consegui um apartamento em Berkeley pra morar, de três quartos, na melhor vizinhança da cidade, pagando a mesma coisa que pagava em Nola, ou seja, quase nada.
4. Voltar pra Nova Orleans o mais rápido possível pra tirar minhas coisas de casa. Já tive uma discussão com meu roomate, ele queria me cobrar setembro, eu não vou pagar, ele está ameaçando jogar minhas coisas na rua (ou seja, na água) assim que chegar lá.
5. Finalmente, preciso de algum jeito de trazer o Oliver de Washington DC pra Berkeley. Esse é o MAIOR problema e estou aceitando qualquer oferta de ajuda, qualquer idéia, anything. Naturalmente, eu já não tenho dinheiro pra nada.
UPDATE: a Continental Airlines está transportando, de graça, animais de estimação que se separaram dos donos. Tudo o que tive fazer é provar que eu morava em New Orleans. Até sexta, o Oliver deve estar aqui. Bendita Continental.
Enfim, comparado com o meu inferno da semana passada, nada disso parece importante. Essa não foi a primeira vez que achei que tinha ficado livre desse bicho louco mas foi, com certeza, a pior.
Estou escrevendo um post contando algumas das outras aventuras do Oliver. Sobreviver o Katrina foi apenas sua maior façanha, de modo algum a única.
* * *
A leitora Jade, de Washington, foi pra Nola como voluntária e estava com todos os dados do Oliver. Ele teria sido resgatado por ela, se o Mark não tivesse chegado antes. Eu ainda consegui deixar uma mensagem no celular dela, dizendo que não precisava mais. A Jade foi realmente sensacional. Aproveitando que estava nas redondezas, ela tirou as fotos abaixo, no bairro de Uptown, bem perto da minha casa. Minha rua provavelmente está igualzinha:
* * *
Mais uma vez, obrigado a todos. Vocês conseguiram convencer um velho cínico ateu que existe muito mais gente boa nesse mundo do que eu imaginaria possível. Recebi emails, telefonemas e ofertas de ajuda do mundo inteiro. Abaixo, alguns exemplos:
Your plea for Oliver touched my heart as I am a poodle owner (on my fourth and have had different poodles for 30 years). Oliver has been rescued by now I hope. Because I can not locate anything on the Internet about him tonight I feel sure that since so much is being done to find all the pets for the people in NO surely Oliver has been found safe. Please let me know. I live in Oklahoma but if I had been in NO I think I would have tried to get to him for you but I am an old woman (81) but I love my Poodle "Rufus" (silver, tiny, toy) just as you love "Oliver". Hug and prayers,
Just trying to help hope it does. I cannot imagine what it would be like in a new country and lose your four legged companion that has traveled as far as you. My prays are still with you and "Oliver" I search for him for you.
I wrote you yesterday and then talked to my husband. He is a pilot for XXXX Airlines. If your poodle is located, he said I could just fly him/her out to you. I can fly for a lower fare than on the internet. He also said that if you need us to keep it until you can get it back, that is OK too. I am a school district administrator so it would be best for it to be a weekend. However, if your pet is found on a Monday, I will just go get it for you. I just hope this works out for you and they can get your pet. No, you would not owe me anything- I would just do it to help you. Please keep me updated. Praying for you and your pet,
I just read about your poodle. If you need to have it housed after it is rescued, I would be happy to take it for you until you are able to take it back. I have a 12 year old toy that was born in Ft. Walton Beach, Fl. I used to live in Pensacola. My husband is a retired Navy Pilot, and now flies for XXXX Airlines. I just housed 2 Brazilians this summer through the YMCA of Fairfield, OH and SanPalo, for 3 weeks. My boys are probably close to your age, but they are not here. One is 27 and in law school at Ohio State, and the other is at the Coast Guard Academy, in CT, and is hoping to become a pilot as well. XXXXX gets his orders this coming Tuesday. I can probably fly down to get the poodle once it is rescued. Mine is only 9 pounds and fits under the seat in the plane. I could possibly even fly out to Calif. to bring you the poodle, as long as there is room on the plane. Let me know if I can help you-my Scarlet is my daughter to me. My prayers are with you.
I live in VA but read your post. My heart goes out to you and everyone who went through the whole ordeal and is continuing to deal with the trauma. I am a pet lover myself so it breaks my heart that these pets are missing. Did you get any info? will you keep me posted if you have time. My prayers are with you.
Olhei um monte de fotos tuas... dá dozinho mesmo de não poder fazer nada.Lembrei da minha poodle que era parecidinha com o Oliver... espero que consiga salvá-lo. de coração.. e que vc fique bem. está abroad, ainda? ou já voltou? se precisar de um ombro ou colo amigo, estou à disposição, viu?
Here is some more info that I came across yesterday in my search for another what some people tell me at the hospital that I work at was a lady carring her only possesion she had left , no family , no home, no ID, NOTHING. Just her little four legged companion of 9 years. They say it was a little poodle but, when she tried to get on the bus with the dog they refused to let her board with the dog. So I heard that the bus pulled away and the camera crew video'd the little poodle sitting there looking for its only friend it ever knew. Tell me How can people be so cruel at times? Our pets are our companions our love. and the little boy that would not leave his dog "Snowball" but they made him leave Snowball behind. The boy became so distraught he starting getting really sick and vomitting. Thats wrong! In my eyes! Hope this is another site to help you. Praying for you !
My heart goes out to you....Have you had any word of anyone going and getting Oliver? I am a poodle breeder In Kansas (honest person) I will do my dead level best to help you. I sit here alone with my little poodles because my husband is in Iraq and I am in total tears for your heart is with Oliver. I have seen the pictures he is to beautiful. Oh, like you I pray for his safe return to your loving arms. Please if you wish me to help tell me what I could do. I would even if they have him in a shelter take him in and take care of him for you and get him shipped to you. I have shipped several poodles to Calif. I have crates that are big enough for him. Have have a new wonderful home in the country in kansas. He would be safe ........Oh I pray he has made it...... Please let me know I WILL HELP .... here is my website I need to update it but since my husband has been in Iraq for a year its been hard for me.
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Leia Oliver nos Estados Unidos, com meus motivos pra trazê-lo pra cá, ou veja todas as fotos dele.
UPDATE Eu, em geral, evito de usar muitos nomes próprios nas minhas histórias pra não confundir, mas teve gente confundindo minha amiga Renata com a colombiana amiga do Mark, então decidi incluir o nome dela na história. Quem renunciou aos documentos pra salvar o Oliver foi a Marcela. Vejam acima.
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Celebrando o aniversário de cinco anos do Furacão Katrina, e em homenagem à minha enorme preguiça de escrever novos textos, vou reeditar "em tempo real" os mesmos posts que fiz naqueles dias tão movimentados de agosto e setembro de 2005. Não mudei nem uma vírgula. Para quem quiser saber a história completa, comprem meu livro de crônicas Liberal Libertário Libertino - cuja parte final é inteirinha sobre o Katrina. Por fim, um pequeno epílogo das minhas aventuras durante o Katrina, não incluído no livro acima, onde agradeço a todos que me ajudaram: Dia de Ação de Graças.
Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. Ebook em pdf.
Preço recomendado: R$20 / US$15, envio por email
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Alguns livros sobre Nova Orleans e o furacão Katrina: There is No Such Thing as a Natural Disaster: Race, Class, and Katrina // It Takes a Nation: How Strangers Became Family in the Wake of Hurricane Katrina // The Sociology of Katrina: Perspectives on a Modern Catastrophe
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