Ontem, 31 de agosto de 2010, o jornal mexicano La Jornada publicou uma entrevista com Fidel Castro. O título já diz tudo:
Soy el responsable de la persecución a homosexuales que hubo en Cuba: Fidel Castro
Todos os jornais do mundo noticiaram a entrevista mas, se querem saber mais, recomendo clicar no link acima e ler na fonte. Alguns trechos:
–Sí –recuerda–, fueron momentos de una gran injusticia, ¡una gran injusticia! –repite enfático–, la haya hecho quien sea. Si la hicimos nosotros, nosotros… Estoy tratando de delimitar mi responsabilidad en todo eso porque, desde luego, personalmente, yo no tengo ese tipo de prejuicios. ...
–¿Quién fue, por tanto, el responsable, directo o indirecto, de que no se pusiera un alto a lo que estaba sucediendo en la sociedad cubana? ¿El Partido? Porque ésta es la hora en que el Partido Comunista de Cuba no "explicita" en sus estatutos la prohibición a discriminar por orientación sexual.
–No –dice Fidel–. Si alguien es responsable, soy yo…
Recentemente, terminei de escrever uma noveleta sobre, entre outras coisas, lésbicas em Cuba - ficou com 40 mil palavras, estou revisando. Por causa disso, muita gente - muita gente mesmo - me passou links não para a entrevista original mas para matérias sobre ela na CNN, Estadão, etc. Desnecessário dizer que recomendo fortemente que leiam o original, né?
* * *
Aos passadores de links, sinto informar que a notícia é velha.
No livro Cien Horas con Fidel (2006), uma série de entrevistas concedidas ao jornalista francês Ignacio Ramonet, Fidel já fazia a mesma auto-crítica, o mesmo mea-culpa :
“Con relación a los homosexuales había fuertes [prejuicios]… la parte de responsabilidad que me corresponda la asumo… Yo tenía opiniones, y más bien me oponía y me había opuesto siempre a cualquier abuso, a cualquier discriminación, porque en aquella sociedad había muchos prejuicios. Ciertamente los homosexuales eran víctimas de discriminación. En otros lugares mucho más que aquí, pero si eran, en Cuba, víctimas de discriminación, y afortunadamente, una población mucho más culta, más preparada ha ido superando esos prejuicios. ...
Había – y hay – destacadísimas personalidades de la cultura, de la literatura, gente famosa, orgullo de este país, que eran y son homosexuales, y han gozado y gozan de mucha consideración y mucho respeto en nuestro país. Así que no hay que pensar en sentimientos generalizados. En los sectores más cultos y más preparados había menos prejuicios contra los homosexuales. En los sectores con mucha incultura –un país en aquel tiempo de un 30 por ciento de analfabetismo– eran fuertes los prejuicios contra los homosexuales, y en los semianalfabetos también y hasta en mucha gente que pueden ser profesionales. Eso era una verdad en nuestra sociedad. ...
La discriminación contra los homosexuales ya es un problema bastante superado. La adquisición de una cultura general integral, el pueblo que tenemos hoy... No le voy a decir que no haya machismo, pero ya no como el de aquella cultura nuestra en que era muy fuerte" (pp.222-225)
A Revolução fez muita besteira - mas também fez muita autocrítica.
O livro Cien Horas con Fidel também foi publicado com os títulos Fidel Castro: Biografía a dos voces e também Fidel Castro: My Life: A Spoken Autobiography - mas é tudo o mesmo livro.
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Já que estamos falando nisso, circula muito, pela internet e por mesas de bares, uma citação terrível de Fidel, onde ele diz:
Nunca hemos creído que un homosexual pueda personificar las condiciones y requisitos de conducta que nos permitan considerarlo un verdadero revolucionario. Una desviación de esa naturaleza choca con el concepto que tenemos de lo que debe ser un militante comunista.
Cheguei até a ouvir defensores de Fidel argumentando que a frase só podia ser apócrifa, pois todos sabiam citá-la mas ninguém sabia dizer de onde veio. Bem, então eu conto. Saiu do livro Castro's Cuba, Cuba's Fidel (1965), de Lee Lockwood:
"LOCKWOOD: There has apparently been an organized effort by men in your government to deal firmly with homosexuals, some of whom were in positions of responsibility. It seemed that a general, naively conceived effort was under way to stamp out homosexuality.
CASTRO: That problem has not been sufficiently studied nor sufficiently analyzed, nor to I believe that definitive norms exist yet anywhere in relation to this very delicate problem. We have considered it our duty to take at least minimum measures to the effect that those positions in which one might have a direct influence upon children and young people should not be in the hands of homosexuals, above all in educational centers.
LOCKWOOD: Is it our position that if one is a homosexual, one cannot be a Revolutionary?
CASTRO: Nothing prevents a homosexual from professing revolutionary ideology and, consequently, exhibiting a correct political position. In this case he should not be considered politically negative. And yet we would never come to believe that a homosexual could embody the conditions and requirements of conduct that would enable us to consider him a true Revolutionary, a true Communist militant. A deviation of that nature clashes with the concept we have of what a militant Communist must be. But above all, I do not believe that anybody has a definitive answer as to what causes homosexuality. I think the problem must be studied very carefully. But I will be frank and say that homosexuals should not be allowed in positions where they are able to exert influence upon young people. In the conditions under which we live, because of the problems which our country is facing, we must inculcate your youth with the spirit of discipline, of struggle, of work. In my opinion, everything that tends to promote in our youth the strongest possible spirit, activities related in some way with the defense of the country, such as sports, must be promoted. This attitude may or may not be correct, but it is our honest feeling. It may be in some cases a person is homosexual for pathological reasons. It would indeed by arbitrary if such a person were maltreated for something over which he has no control. You can only ask yourself when assigning a person to a position of responsibility, what are the factors which might help that person do his job well, and what are those that might hinder him?"
* * *
Diante disso, o narrador do meu romance faz a seguinte defesa:
- Sempre que aparece esse assunto, alguém puxa do bolso essa frase infeliz do Fidel. Sim, ele disse que que não acreditava que um homossexual pudesse ser um verdadeiro militante comunista revolucionário e que homossexuais não deveriam estar em posição de influenciar os jovens . Mas nunca citam o contexto, no qual ele qualificou e relativizou esse absurdo várias vezes. Nunca citam que Fidel e a Revolução fazem mea culpa desse absurdo há quase cinquenta anos. Nunca citam os tantos outros chefes de estado desse mesma época que falavam absurdos ainda maiores. O próprio Lula, antes mesmo de fundar o PT, deu uma entrevista famosa pra um jornal gay afirmando que não havia homossexuais na classe operária e que as lésbicas eram umas burguesas desocupadas[1]. E eu te pergunto: faria sentido usar essa frase pra acusar o Brasil ou o Governo Lula de homófobos hoje em dia?
- É, mas nem o Brasil e nem o Governo Lula, em nenhum momento, criaram campos de concentração para homossexuais. Pelo contrário, enquanto a gente quebrou as patentes dos coquetéis contra a Aids, os cubanos prenderam e isolaram os soropositivos em quarentena forçada[2]. O Brasil pode não ser nenhum paraíso GLS mas são duas trajetórias nacionais bem diferentes. Além disso, em Cuba, esse governo ainda está no poder. E nós, quantos já tivemos desde que Fidel derrubou o Batista? 15? [3]
- Alex, claro que não estou defendendo a presidência vitalícia do Fidel, mas quase todos esses absurdos que a direita adora puxar do chapéu foram cometidos no quinquenio gris, lá na década de setenta, o período mais soviético e repressivo da Revolução. Para todos os fins e efeitos, foi outro governo sim. E, além disso, sociedade cubana já fez uma auto-crítica muito mais contundente do quinquenio gris do que, digamos, o Brasil e nossa ditadura. De vez em quando, ainda leio na Folha algum general de pijama cantando loas ao AI5 e muito leitor concordando. Em Cuba, ninguém, a começar pelo próprio Fidel, acha que as UMAP foram uma boa idéia . De lá pra cá, o governo cubano reverteu todas essas práticas, tirou as referências ao homossexualismo do Código Civil[4], colocou casais gays nas novelas[5], e hoje faz até cirurgias de troca de sexo. O Cenesex, que a Rosa Maria mencionou, é dirigido pela própria filha do Raul[6], promove mil campanhas de tolerância e diversidade, está até fazendo lobby no congresso para aprovarem o casamento homossexual[7]. Apesar de todos os absurdos cometidos, Cuba é hoje um dos melhores países latino-americanos para ser gay - talvez o mais. Lá no sul dos Estados Unidos, onde você mora, ainda existem leis severas contra homossexualidade que proíbem o sexo anal mesmo entre adultos, sem ninguém ver, dentro de casa[8]. E o nosso querido Brasil-sil, enquanto isso, país do carnaval blá blá, também é o país da homofobia, com números altíssimos de crimes violentos contra homossexuais[9]. O quinquenio gris realmente não foi fácil, eu me lembro, estava aqui, mas foi uma fase que passou rápido e foi totalmente repudiada.
Notas:
[1] Entrevista ao jornal "Lampião da Esquina", editado pelo escritor e ativista João Silvério Trevisan, edição de julho de 1979. Se Lula fazia afirmações assim como líder operário sendo entrevistado em um jornal gay, é de se imaginar o que não falava na mesa de bar entre amigos.
[2] Em um capítulo vergonhoso, mas tristemente eficiente, da Revolução, Cuba controlou a AIDS colocando seus soropositivos em quarentena total. Somente em 1989 eles obtiveram o direito de circular semi-livremente entre casa e sanatório. Em 1993, a internação nos sanatórios deixou de ser obrigatória. Hoje, a maioria dos soropositivos cubanos, quase todos homossexuais e bissexuais, apenas residem nos sanatórios por escolha própria.
[3] De fato, se contarmos tanto Chefes de Estado quanto de Governo, sem incluir a Junta que governou o país por dois meses em 1969, o Brasil teve 17: Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Ranieri Mazzilli, Tancredo Neves, Brochado da Rocha, Hermes Lima, João Goulart, Castelo Branco, Costa e Silva, Emilio Medici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula.
[4] Em 1975, o Tribunal Supremo reverte todas as leis e resoluções oficiais impedindo homossexuais de trabalhar em educação e cultura. Em 1979, ser gay deixa de ser crime, mas a "ostentação da homossexualidade" continou proibida: segundo o artigo 359 do Código Penal, era proibida a "pública ostentación de su condición homosexual o importune, o solicite con sus requerimientos a otro”. Além disso, realizar “actos homosexuales en sitio público o en sitio privado, pero expuestos a ser vistos involuntariamente por otras personas” também continuava proibido, por ser considerado delito "contra el normal desarrollo de las relaciones sexuales”. Sucessivas reformas, em 1988, 1997 e 1998, eliminaram toda e qualquer linguagem homofóbica do Código Penal. A categoria "escándalo publico", por exemplo, definida explicitamente como importunar publicamente com "requerimientos homosexuales" foi substituída por "ultraje sexual", definido como "acoso con requerimientos sexuales".
[5] Houve uma novela, em 1998, com uma subtrama lésbica, mas super-rápida. Em três capítulos, as duas moças se conheceram, se apaixonaram, uma delas largou o marido violento e alcoólatra, saiu do armário para a outra e, convenientemente, morreu num acidente de trem. Tudo sem contato físico, é claro, nada de beijos no horário nobre. "La otra cara de la moneda", exibida pela TVC em 1998 // Parece a nossa "Vale Tudo", mas com dez anos de atraso. Em "Vale Tudo" também havia um casal de lésbicas estável e fofo, donas de pousada, bem de vida, que faziam o favor de não se pegar em público pra não constranger os telespectadores e, rapidamente, assim que o ponto foi feito, uma delas morreu em um acidente de carro - justamente para não ficarem esfregando sua felicidade homossexual por muito tempo na cara dos telespectadores. // Eu me lembro de "Vale Tudo"! - Disse Rosa Maria - Também fez muito sucesso aqui! Exatamente. A TV acena com uma mão e tira com a outra. // Não teve uma outra novela que fez parecido recentemente? Duas adolescentes lésbicas foram namoradinhas sem contato físico pela novela inteira e havia parte do público clamando por pelo menos um beijo entre elas e, outra parte, ameaçando jogar foras os televisores se houvesse um beijo gay? Lembra disso? Pois a solução que arranjaram foi que, no último capítulo, as duas meninas estavam em uma montagem escolar de Romeu e Julieta e se beijaram no palco, interpretando seus personagens masculino e feminino e não mais como duas mulheres, uma solução elegante que, se não deixou ninguém feliz, também não deixou ninguém revoltado. ("Mulheres Apaixonadas", exibida pela Rede Globo em 2003) // Essas coisas avançam devagar. Faz pouco tempo houve outra telenovela com um casal de lésbicas. ("El balcón de los helechos", exibida pela TVC em 2004) Dessa vez não morreu ninguém. Elas eram simpáticas, felizes, criavam juntas um menino. O mais incrível é que nunca se mencionava sua condição de casal, jamais trocavam carícias ou se beijavam. Ou seja, ou eram melhores amigas inseparáveis que criavam junto um menino como se fosse seu filho... ou eram uma casal de lésbicas! Imagino que os silêncios e as elipses sejam uma estratégia de plausible deniability. Caso elementos mais conservadores reclamassem, a produção poderia argumentar: o que? como? casal homossexual? na minha novela? Não! Jamais! São apenas duas excelentes amigas! [essa nota de rodapé, originalmente, era um diálogo que foi cortado e será reescrito e resumido aqui]
[6] Mariela Castro, filha de Raul Castro, irmão mais novo de Fidel, que assumiu a Presidência de Cuba no ano seguinte de nossa conversa, 2008.
[7] Poucos meses depois de nossa conversa, em dezembro de 2007, celebrou-se o casamento (simbólico) de Mônica e Elizabeth, o primeiro realizado em Cuba com apoio estatal. Vestidas ambas de noiva, elas se uniram no pátio interior do Cenesex (Centro Nacional de Educación Sexual), com presença e estímulo da própria diretora, Mariela Castro, filha de Raul e sobrinha de Fidel. O casamento não tem valor legal, mas o tema do casamento homossexual, por iniciativa do Cenesex e da Federación de Mujeres Cubanas, já está sendo debatido na Assembléia Nacional. Enquanto isso, segundo Mariela afirmou a um jornal cubano, uma das atribuições do Cenesex é justamente fazer campanhas educativas para preparar o povo para essa mudança.
[8] Na verdade, eu estava errado, mas somente por quatro anos. Foi somente em 2003 que a Suprema Corte americana derrubou todas essas leis estaduais, decidindo que a conduta sexual privada é protegida pela constituição. Nesse ano, 14 estados ainda tinham leis contra a sodomia e, até hoje, três estados ainda possuem leis contra a "conduta" homossexual em público.
[9] Segundo o Relatório Anual divulgado pela Ong "Grupo Gay da Bahia" em 2010, o Brasil teve um homossexual assassinado a cada dois dias no ano anterior, tornando-se assim o país mais homofóbico do mundo.
O romance ainda está em fase de revisão. As opiniões dos personagens não são necessariamente as minhas. As notas são reflexo do próprio academicismo do narrador.
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Cuba é um país como qualquer outro. Você não tem opiniões fortes sobre a Nigéria sem saber nada sobre ela, então também não saia levantando o dedo, brandindo contra ou a favor do Fidel, sem nunca ter se informado a respeito. Se você tem interesse o suficiente por Cuba pra ter opiniões fortes, então também deveria ter interesse o suficiente para ler um livro sobre o assunto. Caso contrário, desculpe a franqueza, mas você é a definição do idiota ignorante.
Sugiro que comece pelo meu humilde livrinho, somente algumas crônicas despretensiosas, leve e barato, que você paga pela internet e recebe por email, na hora:
Radical Rebelde Revolucionário (2007), crônicas cubanas. Ebook em pdf.
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