Cinco anos atrás, no LLL:
Segunda, 29 de agosto de 2005
Sao 6 da manha e ainda estou em detroit. Nao acredito que faz soh 48 horas que eu estava dormindo pacificamente, pensando que sabado ia ser o dia do oliver. Meu roomate ia passar remedio contra pulgas na casa e eu e o oliver iriamos ficar na rua o dia todo. Eu ia levar ele pra conhecer o levy e tulane. Ao inves disso, foi o dia em que eu o abandonei.
Nao consigo me perdoar. Acabei de passar minha segunda noite de refugiado, dormindo no chao em um aeroporto deserto (tirei fotos), e passando um frio fudido. Nao trouxe casaco, pq estava fazendo quase 40c em Nola. Acho engracado imaginar que saih de casa sem conceber que iria acabar em NY.
A principio, fiquei colado nos teloes da CNN vendo noticias sobre katrina e, finalmente, desabei, e chorei muito pelo meu filho, sem acreditar que trouxe ele pra morrer nessa terra, e pensando em todo o carinho e em todo o trabalho que ele me deu nessas duas semanas pra se estabelecer em Nola. Cara, como chorei. Devem ter achado que eu era o mais apaixonado New Orlenian. Depois, tentei fugir dos teloes, nao estava mais aguentando chorar tanto, mas esse aeroporto maldito tem teloes ligados na CNN a cada 10m. Nao deu pra fugir. Felizmente, foram todos desligados a meia-noite.
Uma ultima coisa: eu sei que sou interesseiro, mas quando vc estah sozinho, refugee, on the road, tem que usar all the help you can possibly get. Entao, faco questao de dizer pra todo mundo que sou um evacuee de New Orleans, e isso ganha a simpatia/empatia imediata das pessoas, elas se viram ao avesso pra tentar ajudar. Quando eu falo do cachorro, entao.
Soh faco pensar no Oliver. Tomara que a ex consiga me perdoar por deixa-lo lah. Tomara que eu consiga me perdoar.
Mas para os que achavam que dava, nao dava. Nos onibus de tulane, ele nao iria. Tinham familias sendo separadas as lagrimas e ninguem pode fazer nada. Voos out of new orleans, no way, nao tinha mais nenhum. Carro, eu nao tinha. O que eu nao fiz foi ver se algum dos vizinhos ficaria na cidade e dar a chave da casa pra ele. Mas nao tive tempo. Tive que evacuar em menos de uma hora.
Meu consolo eh que se a casa estiver de peh, ele vai ficar bem.
PS: Ulysses nao dah. Joyce estava de sacanagem. Estou lendo Decline and Fall, do Gibbon, que eu tb trouxe, meu segundo livro favorito depois da Biblia.
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New York
Jah estou instalado em NY. Os estragos em New Orleans parecem que foram menores do que poderiam ser. Pode ser que de pra eu voltar no fim de semana. Seria minha prioridade. Tenho historias pra contar. Mas antes vou tomar banho, trocar de roupa, tirar um cochilo, essas coisas.
Daqui a pouco, eu volto.
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Celebrando o aniversário de cinco anos do Furacão Katrina, e em homenagem à minha enorme preguiça de escrever novos textos, vou reeditar "em tempo real" os mesmos posts que fiz naqueles dias tão movimentados de agosto e setembro de 2005. Não mudei nem uma vírgula. Para quem quiser saber a história completa, comprem meu livro de crônicas Liberal Libertário Libertino - cuja parte final é inteirinha sobre o Katrina. Por fim, um pequeno epílogo das minhas aventuras durante o Katrina, não incluído no livro acima, onde agradeço a todos que me ajudaram: Dia de Ação de Graças.
Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. Ebook em pdf.
Preço recomendado: R$20 / US$15, envio por email
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Alguns livros sobre Nova Orleans e o furacão Katrina: Zeitoun // Why New Orleans Matters // Do Not Open: The Discarded Refrigerators of Post-Katrina New Orleans
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