Uma amiga perguntou:
Quando você voltou de um mês na Ásia, o Oliver surtou de felicidade?
E eu respondi:
Não. Ele não percebe o conceito de tempo. Pra ele, foi como se eu estivesse voltando de um dia fora.
Minha amiga discordou veementemente e começamos a conversar: será que animais conseguem mesmo apreender o conceito de tempo. Se conseguem, como?
Afinal, existe isso de "tempo", assim, abstratamente, concretamente, ou será que o tempo não é só mais uma construção humana para tentarmos fazer sentido do universo?
* * *
Vejamos o que diz a ciência.
Da descrição da Amazon de The End of Time: The Next Revolution in Physics, de Julian Barbour, que pretendo ler:
Where does the time go? Independent physicist Barbour presents an unusual alternate to the standard way of viewing the four-dimensional universe (three spatial dimensions and time), beginning with how our perception of time is formed. Time, he says, does not exist apart from events: the motions of the sun and the stars, the mechanical movement of a clock. Rather than truly feeling the passing of time, we merely note changes in our surroundings, described by the author as a series of "Nows," like frames of a motion picture. ...
Barbour is a research physicist who works without formal ties to the academy. Here, he presents his thesis that time and motion do not exist; they are illusions. The first portion of the book is rather philosophical in tone, but most of the work is concerned with the struggle to resolve the disparities among classical physics, quantum mechanics, and general relativity. Barbour argues that the omission of time from the foundations of physics will enable scientists to achieve a unified theory of physics.
* * *
A física encontra o Zen.
Do livro The Way of True Zen, do Mestre Taisen Deshimaru, mestre do meu mestre:
If you are totally present to yourself, concentrating in body and mind, in the fullness of here and now, without holding anything back, an instant can become an eternity. This instant now is all that is important, it is eternity; past and future are nothing but dreams and imaginings, visions.
All time, all life is only an instant, and so it is impossible to analyze, categorize, conceptualize. It is only a series of steps, so many here-and-nows. So the most precious thing in our life is to walk along the path, the way that has never been tried, that is never experienced twice.
Time is not a line, but a series of now-points. ...
Experience is here and now. Time exists only now, existence exists only now. The past and the future are not existence. Every instant experienced is a point, and the series of points makes a line but leaves no trace. Only here-and-now exists.
It is completely senseless to think about what comes after death, about heaven, paradise. It is not necessary to ask questions about what we become after this life. Such questions are the fruit of egoism, and torment people unnecessarily.
Here-and-now contains eternity.
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Por fim, literatura, meu campo.
Qual é a relação entre tempo e memória? Será que um não é a origem do outro? Existe tempo sem memória ou memória sem tempo? O conto Funes, el Memorioso, de Jorge Luis Borges (que pode ser lido de graça aqui) conta a história de um homem que tinha a memória tão prodigiosa que não percebia a passagem do tempo. Trecho de um texto meu sobre esse conto:
"Funes, O Memorioso", ostensivamente sobre a memória e o esquecimento, também revela-se um conto sobre o tempo – já que nem memória nem esquecimento podem ser entendidos exceto em função do tempo. É sintomático que Funes tenha a capacidade de relembrar um dia nos seus mínimos detalhes ("esos recuerdos no eran simples; cada imagen visual estaba ligada a sensaciones musculares, térmicas, etc."), mas para isso ele necessite de um outro dia inteiro. Para Funes, a memória é um traiçoeiro pacto do diabo, um sinistro jogo de soma zero: para cada dádiva que recebe precisa fazer um sacrifício de igual valor.
"No sólo le costaba comprender que el símbolo genérico perro abarcara tantos individuos dispares de diversos tamaños y diversa forma; le molestaba que el perro de las tres y catorce (visto de perfil) tuviera el mismo nombre que el perro de las tres y cuarto (visto de frente)."
Por um lado, a prodigiosa memória de Funes fazia com que vivesse em um eterno presente: como o cachorro que ele observa, Funes também vive de minuto em minuto, sempre no presente, fora de qualquer tempo sequencial histórico. Por perceber tudo, Funes não percebe nada: ao registrar minuciosamente todas as diferenças entre o cachorro das três e quatorze e das três e quinze, Funes não concebe conceber que animais tão diferentes entre si (com ângulos, sombras, expressão diferentes) possam ser o mesmo animal. Ironicamente, Funes vê tudo, menos a passagem do tempo – que é justamente o que conecta o cachorro das três e catorze ao das três e quinze, "mesclando-os" em um mesmo animal.
Por outro lado, entretanto, ao ver tudo e registrar tudo, Funes percebe passagem do tempo talvez melhor do que ninguém: todo dia, diante do espelho, cada aspecto de sua progressiva decadência física lhe é surpreendente:
"discernía continuamente los tranquilos avances de la corrupción, de las caries, de la fatiga. Notaba los progresos de la muerte, de la humedad."
Na verdade, resta uma dúvida: se não conseguia perceber que o cão das três e catorze e o das três e quinze eram o mesmo animal, conseguiria perceber que o rosto no espelho de ontem e o de hoje, um pouco mais velho, pertenciam à mesma pessoa, ele, Funes? Será que sua prodigiosa memória não teria o efeito de fazer com que nem mesmo se reconhecesse no espelho, que sumisse completamente enquanto indivíduo? Será esse o preço da memória? ...
Funes simplesmente não vê o tempo: vive somente no presente e sua existência é ahistórica. Tem poderes mentais milagrosos (poderiamos dizer amaldiçoados), mas quanto mais recorda, mais torna-se incapaz de perceber qualquer sequência temporal. Para ele, é como se o tempo não existisse: cada cachorro observado é um novo cachorro. O tempo não passa, ele se reinicia a cada nova observação. O cronômetro está sempre sendo zerado.
* * *
E assim, voltamos ao Oliver.
Por tudo o que conheço de cachorros, minha impressão é que os fenômenos acontecem (eu acordo, eu saio de casa, eu volto pra casa, o sol nasce, o sol se põe, ele tem fome, ele come, ele tem fome, etc) mas Oliver seria incapaz de transformar esse acúmulo de fenômenos em uma sequência lógica e convencionada chamada "tempo". Para mim (seria talvez wishful thinking?), cachorros vivenciariam "o tempo" da forma mais zen possível e ahistórica possível, sempre no "here-and-now", sempre em um eterno presente que nunca termina.
Talvez por isso sejam tão felizes.
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Três livros maravilhosos sobre Zen Budismo: The Gateless Gate: All 48 Koans, with Commentary by Ekai, called Mumon, An Introduction to Zen Buddhism
e Buddhism Without Beliefs: A Contemporary Guide to Awakening
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