A Alegria Alheia

Hoje, eu fiz uma coisa da qual muito me envergonhei.

Eram 9 da manhã, eu tinha dormido pouco, já tinha saído de uma reunião e meu destino era passar o dia todo no meu cliente, trabalhando como um mouro. Nada disso é desculpa.

Estava em um daqueles bares de rua, aqui de Jacarepaguá, comendo um joelho e bebendo uma média. Havia umas outras três pessoas no balcão, uma delas um velhinho sorridente, de bigode branco e careca.

O velhinho estava muito feliz. Rindo. Brincando. Fazendo brincadeiras bobas com a atendente. Só me lembro de uma: ele pediu o açucar e ela respondeu, grosseiramente, que estava no balcão. Ele nem ligou. Começou a fazer uma pantomima de procurar alguma coisa, levou a mão como uma aba sobre a testa e olhava em volta, vendo se alguém estava olhando. Como ninguém lhe deu a menor pelota - eu baixei os olhos, para evitar contato visual - ele continuou: localizou o açucareiro atrás dos canudos e disse, bem alto: "Ahá, eu não tinha visto, estava escondido por detrás essa árvore."

Eu aproveitei para me transferir ao outro lado do balcão, bem longe dele.

Mas foi só chegar lá que bateu a culpa. Eu me senti um verme. Comecei a observá-lo com mais atenção.

Ele tentou brincar com todos. Eu gostaria de poder dizer que sua alegria era contagiante, mas não era. Para vergonha de todos nós, sua alegria era tudo menos contagiante. Era enojante. Ninguém lhe deu atenção. Ninguém reconheceu sua existência. Ninguém trocou olhares com ele. Ninguém retribuiu seu sorriso.

E ele, verdadeiro herói do bom humor, não desistiu. Seu sorriso não morreu. Falou com todos, comentou o noticíario, riu, contou piadas. Absolutamente sozinho.

Finalmente, deu bons-dias sorridentes a todos e saiu. Antes de virar à esquina, ainda falou com um vendedor de cocos. O vendedor de cocos virou a cara e ele foi embora. Inabalável.

Custava alguém ter retribuído o seu olhar? Sorrido de volta? Dado qualquer indicação de que estava ouvindo?

Nenhum de nós merecia a alegria daquele velhinho àquela hora da manhã.

* * *

Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição já está disponível para pré-venda, com entrega antes do natal.

Preço recomendado: R$35 via PagSeguro ou US$25 via PayPal. Você paga o quanto quiser. Recebe o livro na hora, por email.

Se você gosta desse blog, acho que deveria comprar mas, sei lá, sou suspeito. Também à venda, em formato ebook, na Amazon e no Gato Sabido.

Liberal Libertário Libertino - Crônicas

Liberal Libertário Libertino (2007), crônicas. (2ª ed.: 2010) Livro.
Preço recomendado: R$35 / US$25, frete incluso

Compre.

 

12.08.10



Posts similares:
O Que Você Gosta de Ouvir?, Me Perguntou Um Amigo
Liberal Libertário Libertino, o Livro!
Parada Gay

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: Mario Abramo

Seu Alex,
Protesto veementemente contra a destruição de mais uma ilusão: a de que o carioca é um ser simpático, alegre, cordial, ticeteretal. Jamais imaginaria essa cena em Jacarepaguá. Na Vila Maria sim, talvez. Já aqui na Lapa paulistana, reduto reacionário, no buteco pé-pra-fora onde não como joelho por causa de um cardiologista isento de humor e graça, porcos, gambás, bambis e lambaris compartilham risadas, piadas e brincadeiras com garçonetes e chapeiros.
Abraços camposdepiratininganos ao sãosebastianense,
Mario Abramo

PermalinkPermalink 12.08.10 @ 10:01



Comentário de: Fabio Robbe

Qual é, Alex. Isso foi um lapso de culpa católica mesmo? Ou o vitoriano perdeu uma oportunidade de ser boenevolente? Se não aproveitou a alegria canhestra do velhinho, pior pra você.

PermalinkPermalink 12.08.10 @ 10:55



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

Mas eu sou a favor das cotas para os velhinhos alegres nas universidades públicas. As cotas para os velhinhos alegres irão alegrar a universidade pública. E para o Brasil começa a dar certo é preciso alegrar com a universidade pública. A universidade pública triste é a saúva moderna: ou o Brasíl acaba com a universidade pública triste ou a universidade pública acaba triste com o Brasil. Temos que acabar com essas saúvas. E as cotas para os velhinhos alegres serão nosso tamanduá! Vamos defender as cotas para os velhinhos alegres, Alex, eu te apoio nessa!

Por que acho isso? Ah, eu já expliquei porque aqui: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/09/09/o_povo_quer_saber_1

PermalinkPermalink 12.08.10 @ 11:01



Comentário de: Leonardo Xavier · http://discordando-do-mundo.blogspot.com

Realmente Alex, essa sensação de não se sensibilizar com os sentimentos das pessoas sejam bons ou ruins é meio estranha. Eu acho que eu me sinto o pior dos homens quando alguém age de maneira simpática e alegre na minha frente e eu não consigo retribuir a pessoa com o mesmo entusiasmo.

PermalinkPermalink 12.08.10 @ 11:22



Comentário de: rayssa gon · http://presencadapeste.blogspot.com

se ele não fosse um velhinho, ou seja, se ele fosse jovem e bonito, tenho certeza de que conseguiria atenção.

e , muito provavelmente, nem estaria pedindo atenção por aí desse jeito. yeah.

PermalinkPermalink 12.08.10 @ 14:06



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/

Não sou muito simpática quando estou sozinha,tipo,não mantenho contato visual com nenhuma pessoa por mais de três segundos,quando não a conheço,obvio.Pra não dar a deixa de ela vir conversar comigo.Também não puxo conversa,sou metida comigo mesmo.Mas se alguem vem me perguntar alguma coisa ou puxar assunto,abro aquele sorriso.Que bom vc ter se envergonhado,vá e não peques mais.A maioria das pessoas fazem isso mesmo,eu tiro por mim,quantas vezes aconteceu de eu desabar no choro dentro do onibus,por dor de cotovelo,problemas familiares,perguntas sem respostas,um amor pra recordar,comercial de margarina.Enfim eu sempre choro quando tenho vontade de chorar.Só que vc esta falando de alegria né,não importa,as pessoas irão se manter estáticas em relação a esses sentimentos tão dicotômicos.Todos ficam com cara de paisagem,no melhor estilo "eu não tenho nada com alegria/tristeza alheia".

P.S:Jorge Nobre eu ja estava com saudades,tá,eu não estava.

PermalinkPermalink 12.08.10 @ 14:16



Comentário de: Fabio M · http://www.sinosdobram.wordpress.com

Só pra saber. Que porra é um 'joelho'?

Explica pra esses paulistanos (eu incluso) ignorantes....

PermalinkPermalink 12.08.10 @ 18:15



Comentário de: Roger Moreira

alguém já tinha me explicado o que é um joelho, mas já esqueci.

PermalinkPermalink 12.08.10 @ 19:02



Comentário de: Eu

Sou muito mal humorado de manhã. Pode ter certeza que teria o mesmo comportamento independente da idade, tipo um sorriso "Ah, legal, já chega". E talvez transferisse de lugar. As manhãs não foram feitas pra mim. Agora se fosse a noite meu comportamento sera totalmente agradável independente de quem fosse também. Mas o problema não é o humor em si, mas o horário que ele é aplicado.

PermalinkPermalink 12.08.10 @ 23:35



Comentário de: Raf

É o que a Lauren falou. Gente carente, necessitada (emocionalmente), causa repulsa. Vc pode até sentir uma "aura" ruim. Desagradável.

Dá quase pode ouvir a frase dentro da cabeça da pessoa: "pleeeeaaase, goste de mim". Ninguém merece isso. Inclusive quem "age" assim. Pobrezinho desse velhinho.

PermalinkPermalink 13.08.10 @ 00:29



Comentário de: Rogério Santos · http://www.efemeridesbaianas.blogspot.com

Não é todo dia que eu estou disposto a fazer e aguentar expressões de bom-humor. Eu me esforço para ser o mais bem-humorado possível (quase sempre eu consigo), mas há dias que não dá. Quando isso acontece,eu fecho a minha cara mesmo.

PermalinkPermalink 13.08.10 @ 00:33



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Post anterior: Rio: Cidade Aberta (Projetos em Andamento)

Próximo post: Vida Universitária em São Paulo do XIX

um blog sobre literatura, empatia e desapego

sobre mim

contato, bio, fotos, livros, compre

Busca

    Se gostou desse blog, inclua um botão no seu site