Chato falar de Mulher de Um Homem Só dois dias seguidos, mas cá vai: está circulando pela internet um novo site, teoricamente fofíssimo, de uma fotógrafa que tira fotos da filha dormindo, tentando interpretar seus sonhos. Todo mundo achou lindo e coisa e tal, mas eu me lembrei do trecho abaixo de Mulher de Um Homem Só:
Não queria mais Júlia despachando tanto tempo com minha filha. Encerrei o expediente, pode sair, queridinha, deixa seu paletó aí na cadeira, se quiser, mas rua pra você. Murilo ainda tentou me convencer, mas seus argumentos começavam derrotados: ele não falava nem de Raquel e nem de mim, só de Júlia. Que Júlia precisava de Raquel, que Júlia estava torcida e luxada, que Raquel era essencial para ela se rearticular. Perdoem-me por ter dado uma impressão errada, mas não tive filha só para remediar a maluquete. Se é desequilibrada, que se equilibre sozinha.
Na semana seguinte, aconteceu a terceira e última vernissage de Júlia.
Todos os abstêmios são iguais, mas cada bêbado é bêbado do seu próprio jeito. Conheci um que ficava agressivo e batia na filha. Tive uma amiga que bastava uma caipirinha e caía em depressão. Outros, se entusiasmam, rodopiam e cantam, e me abraçam pela cintura e gritam que sou a mulher mais felizarda do mundo, que casei com o melhor homem que existe, e ainda posam para fotos enquanto estão grudadas em mim, fotos que só não saíram nos grandes jornais porque, sinceramente, a imprensa já não dava mais a mínima para Júlia. Aliás, tinha sido por isso que ela começara a beber. A crítica destruiu a terceira fase de Júlia com a eficiência e o cinismo que apenas alguém que até ontem era só elogios poderia fazer. Mas se limitou a considerar os quadros péssimos.
Há algo de obsceno em uma mulher adulta observando uma criança dormir e enchendo cadernos e mais cadernos de croquis e estudos, desenhos da menina em várias posições, sempre dormindo, sempre indefesa, sempre de olhos fechados àquela predadora em busca da melhor oportunidade de caça, da melhor pose, do melhor ângulo, das melhores cores, uma verdadeira comedora de carniça espreitando o filhote adormecido, trincando os pincéis e salivando aquarela, apenas para depois expor ao mundo quadros distorcidos e desvairados.
Acabaram quase todos lá em casa, doados ainda em vida para Raquel. Protestei, mas em troca da proibição de Raquel ver Júlia, permiti que Murilo os pendurasse na sala.
* * *
Mulher de Um Homem Só (2009), romance.
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