Antonio Sergio Bueno, doutor em Literatura, professor aposentado da UFMG, autor de "Visceras da memoria: Uma leitura da obra de Pedro Nava", entre outros, leu meu romance Mulher de Um Homem Só e fez uma análise bem interessante das minúcias do estilo.
Enquanto a maioria dos leitores comenta apenas sobre o enredo, o professor Antonio Sergio não só reparou em cada coisinha que tentei fazer com a língua, como ainda batizou esses meus esforços com nomes como "adjetivação expressionista", "volúpia alegória", "elegantes construções triádicas", "capacidade de outrar-se", etc. São pequenos detalhes de técnica que o escritor esculpe sem nenhuma intenção de serem percebidos pelo leitor comum, mas que é legal saber que tem gente que nota:
Meu filho ... passou-me o MULHER DE UM HOMEM SÓ, que li com prazer e com surpresa.
No seu posfácio você diz que mudou o título UTI POSSIDETIS "para não dar ao romance um ar pedante e sofisticado". Pedante ele não é, mas é inegavelmente sofisticado. É um texto do séc.XXI: ágil, leve, fluente.
E você domina muito bem uma rica parafernália de recursos narrativos: uma SINTAXE INUSITADA como em "...a idéia do casamento nunca me irrompera" (p.9), "Júlia me correu para o hospital" (p.92), a fartura de pertinentes NEOLOGISMOS, tais como "vitrinar" (p.13), "sãfuga,normálfuga" (p.45), "impichada" (p.77), "doidelha" (p.41) etc..., a ADJETIVAÇÃO EXPRESSIONISTA como em "CABELUDO conceito de honra", "psicopatia RELINCHANTE" (p.72), "amores fugazes mas FAISCANTES" (p.60) etc...
Alguém falou em "compulsão metafórica" e tem razão; dá pra falar em "VOLÚPIA ALEGÓRICA", como ocorre no final da p.115 e início da p.116. São ótimas as contundentes imagens como "(Júlia) fungava cada carreirinha de Murilo" (p.18), "Não me forcem a dedilhar esse piano" (p.117), "grãos-de-bico de sabedoria, maduras (quase podres) lições de vida" (p.66) etc...
Uma estranha novidade são as PALAVRAS E EXPRESSÕES TRUNCADAS como "tev" (p.31), "e mesmo assi" (p.33), "nunca pens" (p.51) etc...
Se predominam esmagadoramente as lancinantes frases curtas, não são raras as elegantes construções triádicas como em "tudo ia pro vácuo de sua inteligência, pro sumidouro do seu bom-senso, pro rabo de sua sensibilidade" (p.39) ou "e assim eu me despejava naquele toque, me sumia naquele carinho, me desenganava naquele afago" (p.98). Que coisa fina, menino!
A narradora fala com o narratário (no caso, o leitor) entre parênteses, como no último parágrafo da p.57: "(até o Murilo se revoltar e pedir pra sair,vocês lembram)" e, às vezes fala diretamente, mesmo sem parênteses, como na p.124, em baixo: "...uma colônia de ciganos, VOCÊS JÁ VIRAM?..."
Esse DOMÍNIO DA NARRATIVA, típico do narrador machadiano (que também faz, sedutoramente, do narrador um cúmplice, você o faz também - e muito bem - via narradora), como na p.120: "...e lembram, lá atrás, quando eu disse que o carro voltou fedendo a vômito?" Do Machado vem também aquela frase "...não é a criança o pai do homem?" (p.70) Talvez o narrador não-confiável (volúvel?-R.Schwarz) tenha a ver tb com o velho bruxo. O Murilo que nos chega vem de Carla que vem de você, Alex, cuja capacidade de OUTRAR-SE é impressionante. Quem é CAMALEÔNICO, o Murilo ou a Carla? Veja no final da p.49: "...como EU disse, MURILO não sabe o que é ou onde se situa, e por isso muda sempre de opinião."
Ficou ótima a mistura de discurso direto e indireto, como no meio da p.75, onde a voz de Júlia (primeira pessoa) segue-se sem sinal gráfico algum à voz narradora (terceira pessoa): "...Murilo nem quis se sentar, pra não dar muita coleira. Vou me matar de qualquer jeito, não é blefe."
Leia também essa entrevista do professor Antonio Sergio Bueno ao Jornal O Norte de Minas, falando sobre o ensino de poesia no Brasil e no vestibular: Doutor em literatura afirma: - Não se formam leitores de poesia no Brasil
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E, naturalmente, depois de tudo isso, só lhe resta deixar de doce e comprar Mulher de Um Homem Só.
Mulher de Um Homem Só (2009), romance.
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