Matéria interessantíssima da New York Magazine (@NTMag), revista que estou aprendendo a amar, aponta que estudos de diversas área indicam que, ao contrário do "senso comum", as pessoas se tornam mais tristes, mais deprimidas, menos felizes depois que tem filhos. Pior, tornam-se mais tristes quanto mais filhos tem:
All Joy and No Fun: Why parents hate parenting, por Jennifer Senior
Most people assume that having children will make them happier. Yet a wide variety of academic research shows that parents are not happier than their childless peers, and in many cases are less so. This finding is surprisingly consistent, showing up across a range of disciplines. ... Robin Simon, a sociologist at Wake Forest University, says parents are more depressed than nonparents no matter what their circumstances—whether they’re single or married, whether they have one child or four.
The idea that parents are less happy than nonparents has become so commonplace in academia that it was big news last year when the Journal of Happiness Studies published a Scottish paper declaring the opposite was true. “Contrary to much of the literature,” said the introduction, “our results are consistent with an effect of children on life satisfaction that is positive, large and increasing in the number of children.” Alas, the euphoria was short-lived. A few months later, the poor author discovered a coding error in his data, and the publication ran an erratum. “After correcting the problem,”it read,“the main results of the paper no longer hold. The effect of children on the life satisfaction of married individuals is small, often negative, and never statistically significant.”
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Em um dado momento, a matéria adquire um interessante tom político e econômico:
The researcher, Hans-Peter Kohler, a sociology professor at the University of Pennsylvania, says he originally studied this question because he was intrigued by the declining fertility rates in Europe. One of the things he noticed is that countries with stronger welfare systems produce more children—and happier parents.
Of course, this should not be a surprise. If you are no longer fretting about spending too little time with your children after they’re born (because you have a year of paid maternity leave), if you’re no longer anxious about finding affordable child care once you go back to work (because the state subsidizes it), if you’re no longer wondering how to pay for your children’s education and health care (because they’re free)—well, it stands to reason that your own mental health would improve. When Kahneman and his colleagues did another version of his survey of working women, this time comparing those in Columbus, Ohio, to those in Rennes, France, the French sample enjoyed child care a good deal more than its American counterpart. “We’ve put all this energy into being perfect parents,” says Judith Warner, author of Perfect Madness: Motherhood in the Age of Anxiety
, “instead of political change that would make family life better.”
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Minha amiga querida Isabel Löfgren (@isabello)(com quem acabei de passar três semanas rodando o Timor-Leste) apontou o particularismo anglo-saxão do artigo:
o artigo é fofo, mas é bem americano, anglo-saxão, protestante, individualista, com pesos e medidas, rewards e outros quesitos que não sei se são literalmente transponíveis para outras culturas. Dou um exemplo: em outras estruturas sociais, cuidar das crianças não é exclusividade dos pais, mas é uma tarefa dividida pela família extendida (claro que isso pode variar de família em família). O artigo não menciona isso em nenhum momento.
mas gostei da parte em que ela fala das mulheres africanas que curtem mais os momentos com os filhos, sem o estresse comparado com a pressão sobre o pais de classes mais abstadas talharem os seus filhos à perfeição. A infância deixa de ser uma fonte de estresse tanto para os pais quanto para os adultos. Mas o argumento mais convincente para tentar mudar um pouco essa noção americana de parenting como uma prisão (mesmo que prazerosa) são as comparações com a escandinávia - quando os pais têm a ajuda de um sistema que dá tempo e dinheiro para adultos dedicarem-se aos filhos pequenos, a felicidade dos adultos, da família e das crianças é maior. Cuidar dos filhos não é tarefa só do indivíduo, mas é uma tarefa do país como um todo e todos contribuem para o sistema tendo isso em conta. O que ela diz no artigo sobre gastar mais tempo fazendo pressão política para mudar as condições ao invés de gastar energia no acúmulo de riqueza pessoal poderia ser uma solução para elas nos EU da A.
No Brasil, o caso é diferente. Os pais delegam as chatices dos filhos aos empregados. Estes empregados delegam seus filhos aos avós, tias, etc e assim sucessivamente numa cadeia de dependência mútua.
Conclusão pessoal: não ter filhos nos estados unidos pra não ter que conviver com essas mães estressadas. cruz credo.
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Enquanto isso, minha amiga Alex (@peregrinatrix), com quem aparentemente concordo em tudo e é casada com um cara muito legal, mandou o seguinte link, do The Globe and Mail, em resposta à matéria da New York Magazine: [correção: na verdade quem recomendou o link foi outra amiga querida Isis Sadek!]
So you expected kids to make you happy? Get real
Well here’s my newsflash. Your point? Parents today need to get over expecting to be intrinsically happy or rewarded doing what people have dutifully done for millennia under sometimes astonishingly adverse conditions: create and raise the next generation. The search for perfect happiness through parenting is not only counterproductive, it’s a luxury that only the affluent can indulge.
Furthermore, if you count on your kids to make you happy, you will muck up not only your own life but theirs, too. ...
Despite its occasional whiff of baffled entitlement (wondering why, say, that parenting isn’t as much fun as going out to dinner with friends), that New York piece eventually comes to the same conclusion that most of us have: raising kids is always hard work and yet at times it’s tremendously rewarding.
But don’t look to it to make you happy. There are only, Ms. Senior writes, “moments of transcendence, not an overall improvement in well-being.”
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Enquanto isso, outra querida amiga, a Alessandra (@alessandramms) (desencavadora das coisas mais bizarras da internet, que já não concorda mais comigo em nada mas que me ama mesmo eu tendo virado comunista) me mandou o texto abaixo que simplesmente destrói, de forma elegante e quase tesuda, a reportagem original da New York Magazine. O blog, The Last Psychiatrist (@thelastpsych), já se tornou um dos meus favoritos:
It would be a pointless act of euthanasia to criticize the article, except that these popular press articles are more than bathroom reading, they are the template for how to think about these social issues, in the same way that you can't think about Obama without resorting to language implanted by CNN or the New York Times. Try it. It's impossible.
These articles offer you the freedom to argue about the conclusions, but trick you into accepting the form of the argument. ... [They] are cognitive parasites, that's what makes them dangerous. They change the way you think. Even if you disagreed with the conclusion, you're still going to approach this problem from, "why aren't put together moms happy?" This will never lead you to the answer.
The real form of the question, the one that generates the correct answer simply in its asking, is, "why doesn't having kids-- or getting married or getting a better job or getting laid or anything else I try to do-- make me happy? Oh. I get it. I'll shut up now."
Para o autor, um dos grandes culpados por esse dilema é nosso atual narcissismo. Em um outro artigo, The Other Ego Epidemic, linkado no texto acima, ele dá um excelente conselho para narcissistas terminais:
"Help me, please, I think I'm a narcissist. What do I do?"
There are a hundred correct answers, yet all of them useless, all of them will fail precisely because you want to hear them.
There's only one that's universally effective, I've said it before and no one liked it. This is step 1: fake it.
You'll say: but this isn't a treatment, this doesn't make a real change in me, this isn't going to make me less of a narcissist if I'm faking!
All of those answers are the narcissism talking. All of those answers miss the point: your treatment isn't for you, it's for everyone else.
If you do not understand this, repeat step 1.
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Por fim, outra amiga, a Cristiana Soares (@cristalk), que me honrou com um convite pra assumir o seu Projeto Enchentes, encerrou a polêmica com uma bela frase:
uma das melhores coisas que filho fez por mim foi me tirar do centro da minha vida.
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Em minha modesta opinião, o ponto fraco desse artigo, e de outros similares, dessas pesquisas, e de outras similares, é uma completa incapacidade de definir.... felicidade! Afinal, o que é felicidade? É um estado de êxtase? São momentos de transcendência? É simplesmente a ausência de dor? É o prazer? Como medir isso de forma objetiva? Como medir isso de forma objetiva para pessoas de culturas diferentes, com valores diferentes, com prioridades diferentes?
Talvez a questão seja outra: felicidade *deveria* ser definível? E daí que não é definível? Devemos gastar tanto tempo tentando definir o indefinível?
Vocês perdoem esse escritor que ama Clarice Lispector, lê Zen como projeto espiritual e está imerso em um projeto acadêmico pós-moderno... (ao lado, uma de minhas últimas compras: Zen and the Art of Postmodern Philosophy) ...mas cada vez me convenço que as coisas importantes são justamente aquelas que não podem ser ditas, que são indizíveis e indefiníveis, que acontecem nas entrelinhas, nas viradas de página, nos espaços entre as letras. No romance que estou escrevendo, Cria da Casa, todas as palavras escritas estão a serviço de várias não-ditas e servem apenas de alavanca para que o leitor crie, em sua própria cabeça, no vazio do texto, o seu próprio romance.
Deixo vocês com o capítulo 11 do Tao Te Ching, que também poderia ser minha Teoria da Literatura:
Trinta raios convergem para o meio de uma roda
Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o espaço dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;
São os buracos que o tornam útil.Por isso, a vantagem do que está lá
Assenta exclusivamente
na utilidade do que lá não está.
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Outros textos meus sobre a espinhosa questão "Ter ou Não Ter Filhos":
A Decisão de Não Ter Filhos
Os Filhos dos Outros
A Decisão Econômica de Ter Filhos
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Disclosure: me inscrevi no plano de afiliados da Amazon. Esse foi o primeiro post nesse blog com link "afiliado" para a Amazon. Toda publicidade no LLL é sempre explícita e escancarada. Em caso de dúvidas, leia o Termos de Uso.
http://twitter.com/alexcastrolll
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