(texto escrito em setembro de 2004, um mês após minha separação de minha ex-mulher. em janeiro de 2010, Liloló e eu terminamos depois de cinco anos de relacionamento. o texto se mantém. fiz algumas adições em colchetes)
Estive deprimido em agosto mas parece que acabou. Amanheci muito bem na segunda e continuei bem a semana toda. Percebi uma coisa muito importante. Percebi que sou livre. Estou no auge de minha forma física e mental e sou livre como nunca fui. Livre como talvez nunca vou ser. Mais livre do que a maioria das pessoas que conheço jamais será.
Nada me prende ao Rio. Meu contrato de aluguel é flexível. Não tenho mais mulher. O cachorro eu levo pra onde quiser. [Agora, moro em Nova Orleans, mas nada também me prende aqui: a tese eu escrevo em qualquer lugar.]
Falo fluentemente as três principais línguas do Ocidente e tenho amigos espalhados nas maiores cidades do mundo. Alguns dias de sofá, pelo menos, eu arranco deles.
Tirando estar um pouco acima do peso, não tenho doença debilitante alguma. Meu coração é ótimo. Minha pressão, perfeita e meu colesterol, baixo. Meu fôlego está acima da média e minha flexibilidade é surpreendente - o grande desafio dos meus alunos é tentar sentar de pernas cruzadas como eu sento e ninguém consegue. Ando 20km sem precisar parar pra descansar e já andei 40km num só dia. E quero fazer isso de novo, é uma delícia. Uso óculos para ler, usar o computador e dirigir, mas também passo bem sem eles. De alergia, só uma leve rinite, que todo mundo tem. [Continuo saudável, mas a luta hoje é não deixar o açúcar no sangue subir demais, para não entrar num diabetes.]
Não tenho carreira, investimentos, chefes, obrigações. Dou aulas de inglês e português, mas poderia dá-las em qualquer lugar. Presto serviços de consultoria, mas poderia prestá-los em qualquer lugar. Minha coluna pra Tribuna eu mando de qualquer lugar. [Tribuna acabou, não estou mais no Brasil para prestar consultoria, agora ensino português e espanhol pra americanos, mas continuo sem carreira e sem investimentos.]
Tenho dívidas, isso é verdade, R$6.000 no cartão de crédito e outros R$7.000 com o meu pai. A dívida com o meu pai eu pago aos poucos, a do cartão, eu vou carregando nas costas, ela me acompanha onde eu for e não me impede de fazer nada. [Já paguei todas minhas dívidas, mas continuo sem ter um centavo economizado, sem um único bem no meu nome.]
Fiscalmente, não existo - presto declaração de isento. Trabalhisticamente, não existo - o único trabalho de carteira assinada que tive foi por seis meses, muitos anos atrás, em um curselho de inglês. Estou no Serasa por causa de uma conta atrasada da ex que estava no meu nome, mas nunca perdi o sono por isso. Estar no Serasa só quer dizer que você não tem crédito na praça, e quem disse que quero ter crédito na praça? [Meu nome saiu automaticamente do Serasa em 2008, quando a dívida fez cinco anos. Pago imposto nos EUA mas sou tão pobrinho que pago só 12%, um dos menores tax-brackets.]
Amo minha família, que está toda aqui no Rio, mas não são âncora pra mim. Posso amá-los por internet e DDD.
Posso fazer um concurso público, começar uma faculdade, tentar um mestrado, escrever um livro, praticar um esporte, subir a serra, ir trabalhar na ONU, qualquer coisa.
Tenho medo. É uma situação avassaladora. O processo que começou quando chutei o balde da minha vida, em 2002, finalmente se completou com minha separação, em 2004. Uma a uma, fui me livrando de todas as minhas amarras, de todas as obrigações, de todos os compromissos, de todos os preconceitos. Olho em volta pro meu apartamento vazio e vejo que não sobrou nada. [Não tenho mais medo de nada.]
Tenho um Renault Clio 2001, que está no nome do meu pai, absolutamente nenhum dinheiro guardado, alguns poucos móveis e utensílios e uma quantidade gigantesca de livros e gibis. O carro vai comigo, os utensílios e os livros, se ela quiser, ficam na casa da minha mãe. Não vão ser os meus livros que vão me prender, logo eles, coitados, cuja função é me dar asas. [Meu Renault está no Rio, me esperando, sendo usando pelos enteados do meu pai. O que sobrou dos meus livros estão na casa de uma amiga querida. Quase tudo, eu dei.]
Das pessoas que conheço e amo, não há nenhuma cuja vida eu inveje, nem por um segundo. Eles têm família, trabalho, filhos, um caminho traçado, poupanças. Boa parte já está começando a investir o que economizaram nos seus vinte anos. Quase todos são felizes. [Quanto mais velho eu fico, menos invejo meus amigos da minha idade.]
Ah, mas abriram mão de tanta coisa. Pagaram um preço que eu nunca quis pagar. Foram formigas, enquanto eu sou cigarra. Trabalharam duro, fizeram hora extra, venderam caro seu tempo, é verdade, tão caro que hoje têm apartamentos e portfólios de investimento para provar.
Mas eu preferi ler, escrever, perambular. Não aprendi nada. Não me preparei pra nada. Meu deus, só essa noção de se preparar me é tão estranha! Ela implica renúncia no presente e investimento no futuro, duas coisas que nunca consegui fazer.
Passei minha vida fazendo o que quis, na hora que eu quis, do jeito que eu quis. Nunca fiz nada pensando no futuro, nunca busquei segurança. Cursei História ao invés de Jornalismo porque me daria mais prazer. E disseram: Estude Jornalismo! É uma profissão! Você aprende a fazer alguma coisa! É verdade. Cursei História e não aprendi nada de útil. Nunca utilizei nenhum dos conhecimentos que adquiri. Nunca ninguém nem pediu pra ver meu diploma. Se tivesse saído de casa e, ao invés de ir pra UFRJ, tivesse ido pra praia, teria dado no mesmo. Fiz o que quis, porque quis, e não me arrependo.
Se um dia vou pagar o preço? Ora, estou pagando o preço hoje. E pago feliz.
As habilidades que hoje uso para ganhar dinheiro não foi ninguém que me ensinou. Aprendi inglês na marra, para ler Fletch e Nero Wolfe. Presto consultoria de informática e nunca fiz um curso. Aprendi tudo na marra. [Hoje, ensino português e espanhol, língua que aprendi ainda mais na marra que inglês!]
Não acredito em estudo. Tirando casos óbvios, como medicina, engenharia e aviação comercial, não vejo o que alguém possa me ensinar que eu não aprenderia melhor sozinho, lendo, refletindo e praticando.
Dá pra aprender mecânica visitando oficinas ao lado de um bom mecânico. Dá pra aprender artes plásticas visitando museus e galerias com um artista. Acredito no movimento. Não acredito que ninguém possa aprender nada sentado, calado, imóvel e passivo, ao lado de outros moscas-mortas, absorvendo como uma esponja a pseudosabedoria que um professor despeja. O nome disso é transferência de mediocridade. Obrigado, passo.
Sou livre porque sei que a vida não faz sentido, porque sei que o sentido da vida sou eu que dou. Quase todo mundo que eu conheço busca por um sentido da vida, como se sentido da vida fosse algo dado, como se o sentido da vida fosse o grand canyon e estivesse lá, paradão fisicamente em algum lugar, esperando por seu cristovão colombo. E, enquanto buscam, suas vidas passam ah tão vazias, tão sem sentido. Não construíram, elas mesmas, o sentido de suas vidas. Não sabem nem o que é isso.
O bom da tábula rasa que estou vivendo é ver claramente os arredores. Em São Paulo, você nunca enxerga o horizonte, há tanta coisa a sua volta. Por isso é bom visitar os pampas. Você sobe num caixote e, de repente, é a coisa mais alta em um raio de 100km. Você vê tudo a sua volta. Pode ir em qualquer direção. É tanta liberdade de escolha que você sente tonturas. Liberdade é assim mesmo.
Não tenho um caminho pré-estabelecido. Não tenho empresa do pai para trabalhar. Não tenho carreira para me especializar. Não tenho nada. Nada. E esse nada hoje é o meu maior ativo. Um bem de uma preciosidade incalculável.
Virei mesmo o que sempre quis: um bicho humano, livre, prazeirosamente livre, dolorosamente livre, com mais 20, 30 anos de vida nessa terra para depois desaparecer para sempre.
E bom proveito.
[Estou apaixonado de novo. Me sentindo amado e acompanhado.]
* * *
Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição já está disponível para pré-venda, com entrega antes do natal.
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