Um McDonald's em Haia, capital da Holanda. Grupo de amigos da escola americana, de todas as nacionalidades. O argentino dá uma mordida no seu Big Mac e suspira:
- Every time I come here, it's a deception!
Eu levanto a foto do Big Mac no papel da bandeja, aponto para o Big Mac de verdade na mesa, e digo:
- He doesn't know it, but he's right.
Todo mundo riu. Ele só foi entender a noite.
* * *
"Deception", em inglês, quer dizer enganação, falsidade. "Decepção" seria "disappointment".
* * *
Nova Iorque. Com amigo carioca que se formou pelo CCAA e achava que sabia falar inglês.
A simpática atendente pergunta: - Would you like your coffee black?
Ele ri e responde, com sua autêntica ginga malandra carioca de raiz:
- Yes, of course! - E, pra mim, que já tinha aberto a boca pra explicar: - Hehe, ela queria que fosse de que cor, amarelo? Esses americanos são meio bocós!
Fiquei calado. Claramente, o homem dominava o idioma e não precisava de intérprete.
Ela me entregou o meu expresso, com dois pacotinhos de splenda, e o dele sem nada. Achando que estava adoçado, o poliglota saiu bebendo e logo soltou aquele grito:
- Argh! Porra! Não tem açúcar. - E para a atendente: - Sugar! I want sugar!
Ela me olhou com uma cara de "não estou entendendo nada" e eu devolvi com a minha já clássica e infelizmente muito usada: "não tenho nada a ver com isso, esses brasileiros são loucos!"
* * *
Em inglês, quando perguntam se você quer seu café "black", a pergunta não tem exatamente a ver com a cor do café. Querem saber se você quer açucar ou leite no seu café. "Black coffee" então é café sem leite e sem açúcar. Se você diz que quer "black coffee" e depois pede açúcar, a atendente de fato vai ficar confusa. É como pedir um cheeseburguer sem salada e então reclamar que não veio salada.

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* * *
Ai ai. Adolescente é um bicho ruim. Lembrei de outra, do mesmo argentino, na mesma viagem à Holanda.
Em uma escola caríssima, onde todos são ricos, os símbolos de status tradicionais, dinheiro e afins, perdem um pouco o sentido: afinal, todo mundo tinha relógio caro, roupa de grife, casa em Angra, viajava pra Europa todo ano, etc.
(O Hublot - lindo, lindo - que eu usava na época da escola, por exemplo, custava cinco mil dólares e, ali, naquele ambiente, não era literalmente nada de mais. Sim, eu sou do tempo em que ainda se usava relógio de pulso. Quando saí do SobreSites e quebrei, em 2002, vendi o meu Golf 1996, vermelho, automático, hecho en Mexico, e meu Hublot, preto, discreto, e assim paguei as dívidas do cartão e do cheque especial. E nunca mais usei relógio de pulso.)
Enfim, em uma escola como essa, internacional, alunos do mundo inteiro, onde praticamente todos estavam se comunicando em uma língua que não era a sua, os símbolos de status eram outros: talvez os mais importantes fossem a fluência no inglês e a perfeição no sotaque. Na minha escola, quando se zoava de alguém, geralmente era por coisas assim:
Meio da noite, discutindo o que fazer, o argentino sugere jogarmos "póquer". A pronúncia correta seria "pôuquer". Todo mundo já quase riu. Alguém perguntou, talvez tenha sido eu, shame on me:
- Hmm. Pôuquer or póker?
E ele, coitadinho, completamente inocente, mais uma vez sem perceber nada, respondeu, todo feliz:
- Bóth!
O quarto veio abaixo.
Até hoje, quase vinte anos depois, quando essa turma se encontra, esse diálogo é sempre quase liturgicamente repetido. Alguém comenta que ontem jogou póquer com os amigos, outro pergunta "póquer or pôuquer?" e, invariavelmente, todos respondem em uníssono "bóth". Ai ai.
* * *
Ainda sobre o Hublot. Era todo preto, pulseira preta, ponteiros dourados, nenhuma marca, número, desenho, nada. O relógio mais lindo, discreto, understated do mundo. Era o tipo de relógio que um ladrão nem levaria, pois poderia passar por um reloginho de camelô, mas que somente quem conhecesse saberia que era foda. Era caro justamente por parecer barato e por só revelar seu verdadeiro valor para quem tivesse entendimento. Na prática, era quase uma piada interna. Leiam a Teoria da Classe Ociosa, do Veblen, que ele explica exatamente como funciona esse mecanismo.
* * *
Não tenho orgulho da minha adolescência. Eu era uma pessoa ruim. Talvez por medo de ser sacaneado pelos meus muitos defeitos, eu sacaneava todo mundo, humilhava, zoava. Fazia os mais tímidos chorarem com duas ou três frases. Deu certo. Nunca tive apelido. Não era mesmo sacaneado. As pessoas tinham medo de mim. Além disso, liam meus artigos no jornal da escola e me elegiam pro grêmio. De certo modo, eu não era amado mas era respeitado.
Sei de pelo menos um menino, baixinho, magrinho, que tinha um medo patológico de mim. Quando o encontrei na rua, anos depois, e tentei pedir desculpas, ele me olhou com horror e fugiu. Atravessou a rua desembestado. Hoje, vejam só!, cursou Agulhas Negras e está fazendo carreira no Exército. Tomara que não decida me dar o troco quando estiver à frente do Comando Militar do Leste! Eu ensinando Português para crianças americanas e ele, um profissional da morte e da violência! Esse mundo!
Hoje, tenho vergonha mesmo disso tudo. Inclusive de ter carregado cinco mil dólares no pulso. As melhores coisas que fiz na vida foram entrar na casa dos trinta e falir.
* * *
O post começou com duas anedotas sobre o inglês, logo lembrei de uma terceira e concluí enveredando pelo meu velho relógio de pulso e algumas reflexões de classe. Apesar disso, mantenho o (agora) enganador título original. Cada texto vai pra onde tem que ir.
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