Quem quer ser patriota tem toda a estrutura do Estado Nacional a seu favor, aulas de Moral e Cívica, brasão da república, desfile de sete de setembro.
Quem quer viver uma relação monogâmica tem todo o apoio da moral conservadora, encontros de casais em cristo, colunas de relacionamento em jornais, livros de auto-ajuda, conselhos da vovó.
Quem é religioso tem igrejas, templos, sacerdotes, pais-de-santos, e muitos livros grossos que regulam nos mínimos detalhes o que é certo e errado, moral e imoral.
Quem abre um novo caminho não tem esses luxos.
Um ateu não tem quem lhe diga o que é certo e errado, moral e imoral: ele precisa escrever, todo dia, com sua consciência e através dos seus atos, o seu próprio livro sagrado.
Quando tinha problemas no meu casamento aberto (e tinha muitos, pois a vida na fronteira não é fácil e os índios não são amigáveis), não podia usufruir da sabedoria acumulada dos meus avós. Não existe livro de auto-ajuda pra mim. A Bíblia não colabora. Não tenho nem amigos com quem conversar. Pior, quando converso, eles dizem: viu, é por isso que essa merda não dá certo! Por que você não faz que nem todo mundo e pronto? Não é mais fácil?
Ainda tem essa. Além de todas as dificuldades do caminho menos trilhado, todos ainda querem lhe puxar de volta para a estrada principal. Cada passo tem que ser dado como se o mundo tivesse sido criado ontem. Cada rodinha tem que ser reinventada do zero.
Todas as forças culturais, políticas e sociais nos impulsionam à monogamia, ao tribalismo, à pequenez, nos impedem de pensar a humanidade como um todo, una, indivisível.
O indivíduo é constantemente forçado a se definir em termos que os separam dos outros (branco, carioca, homem, católico) ao mesmo tempo em que sofre uma enorme pressão pra conformar, ser parte do grupo, se unir à manada.
A lei facilita o casamento mas dificulta o divórcio, mesmo quando ambos os cônjuges estão de comum acordo e infelizes, pois prefere proteger uma instituição à respeitar os desejos de dois adultos independentes. A religião tem como base a negação de todos os impulsos mais fundamentais do homem e impõe a ele um código de conduta absolutamente impossível de ser seguido, condicionando uma pretensa felicidade eterna com a negação de cada prazer terreno.
Desesperado, o indivíduo tenta buscar auxílio na ciência do Dr. Freud, que não é das piores, mas depende da aplicação por profissionais de mente aberta e, hoje, infelizmente, a maioria dos psicólogos é tão reacionária que tenta a todo custo convencer os não-conformistas que conformar-se é a melhor opção e que seus desejos deviantes são errados, anti-sociais, egoístas.
Minha estrada pode até estar errada, meu discurso pode ser totalmente equivocado, mas é muito mais fácil ceder a todas essas pressões do que seguir por um caminho alternativo, ao mesmo tempo mais universal e mais individualista.
Estou cansado de pensamentos pequenos, pessoas mesquinhas, leis tribais. "Eu sou brasileiro, eu sou flamenguista, eu sou evangélico." Arre! Que mundo é esse?! Será que não tem ninguém nesse salão pra dançar comigo?
Quem me dera encontrar outra pessoa, só uma outra pessoa, que me dissesse: eu não sou nada, eu sou só o Paulo, a Cláudia, o João, um animal humano, à vontade entre todos os povos, sempre sozinho, sempre acompanhado, que pertence a todos os grupos e não pertence a nenhum. Sou tudo e não sou nada. Sou apenas um indivíduo, um primata, um mamífero, sozinho em um mundo gigantesco, confiando apenas nas armas que a evolução me deu, dois polegares opositores e um enorme cérebro que mal passou pela vagina da minha mãe.
Thoreau: "Não há nada a se admirar nas pirâmides, a não ser o fato de tantos homens terem se degradado para construir uma enorme tumba, quando teria sido mais viril e sábio ter simplesmente se afogado no Nilo. (...) As pessoas são patriotas, mas não tem respeito próprio, e sacrificam o maior pelo menor. Amam o solo no qual constroem seus túmulos, mas não têm simpatia alguma pelo espírito que anima sua argila. O patriotismo é o verme de suas cabeças. (...) Enquanto muitos se preocupam com os majestosos monumentos do passado, eu gostaria de saber quem, naqueles dias, não os construiu. Quem estava acima dessas pequenezas."
O que importa aos assírios que sua língua morreu, que sua cultura sumiu? O que importa é que os assírios viveram.
Aos assírios que viveram bem, amaram, comeram e foram felizes, que importância pode ter o estado de sua cultura três mil anos depois?
Aos assírios que viveram mal, que deixaram tudo pra depois, que pensaram demais no futuro, que só se preocuparam com a aquisição e manutenção do império, nada pode salvá-los. Se hoje, vivéssemos todos sob a sombra dos Estados Assírios da América, eles ainda teriam vivido vidas vazias.
Vejo todo mundo preocupado em defender nossa pátria, nossa língua, nossa cultura, e não percebem que, nesse processo, perdem a si mesmos.
Não quero que concordem comigo. Não quero ter discípulos. Não quero nem mesmo convencer ninguém.
Tudo o que eu quero é mostrar uma via alternativa.
Tudo o que eu quero é abrir os seus olhos, nem que apenas por um segundo, nem que você discorde de mim, para o fato de que o mundo, como ele é hoje, não é uma construção unânime. O próprio processo histórico se encarrega de eliminar todas as possibilidades alternativas, todos os caminhos que poderiam ter sido percorridos e que não foram, até gerar a ilusão de que o modo como as coisas são é o único modo como poderiam ter sido. Mas não é verdade.
Existem vozes dissidentes, existem pessoas que pensam diferente, existe a possibilidade de viver uma outra vida, sem mesquinharias, tribalismos, religiões, maniqueísmos, preconceitos, prisões. Mais ainda, sem esqueminhas mentais dogmáticos e pré-fabricados, que almejam explicar tudo com suas formulinhas, mas que só conseguem embotar o pensamento humano, como o marxismo e o cristianismo.
Ser pequeno, mesquinho, preconceituoso, ressentido, invejoso, tudo isso é muito fácil. E muito tentador.
O desafio que lanço aos meus leitores é outro: sejam grandes!
* * *
Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição já está disponível para pré-venda, com entrega antes do natal.
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