Saindo do Armário

Os humanos, enquanto manada, são lamentáveis. Individualmente, alguns prestam. A melhor maneira de desentocá-los? Se mostrar. Vale a pena afastar mil bois para atrair uma única leoa.

Uma de minhas melhores amigas disse me admirar por minha abertura. Que a coisa mais digna de nota na minha personalidade era essa capacidade de me abrir para as pessoas e para o mundo, não ter medo de me mostrar. Eu ri. Aquilo era como me elogiar por ter dois braços, algo inerente a mim e totalmente fora do meu controle. Ao que ela respondeu, sempre muito lógica, que ela admirava não as minhas qualidades que me custavam ou não esforço, mas as minhas qualidades que ela jamais conseguiria ter.

Eu me mostro porque preciso. Eu me mostro porque é assim que eu sou. Mais do que tudo, eu me mostro porque esse é o melhor jeito de conhecer quem está a minha volta. Escancarando de vez.

 Kits, Caixas e Coleções com até 80% de desconto!Quando eu era adolescente, meu grande sonho era ser homossexual só pra poder sair do armário. Imagina, que delícia, soltar a franga em um daqueles natais com trocentos familiares. É isso mesmo, vovó Leotildes, eu gosto é de chupar pau. É, titia Cleonice, eu sou que nem a senhora, gosto de uma jeba entrando em mim. Infelizmente, eu não só era irremediavelmente heterossexual como ainda tinha uma família mínima: o showzinho, se houvesse, teria que se restringir ao meu pai, minha mãe e minha irmã. Nem uma tia beata eu tenho.

Os homossexuais que saem do armário merecem nossa inveja e admiração: eles passam por um momento de revelação quase religioso em sua intensidade; ao mesmo tempo, ponto de ruptura e ponto de teste. Nessa hora, com um único gesto, você conhecerá todos seus amigos e parentes.

Algumas pessoas têm medo de se mostrar. O que minha mãe vai pensar? Será que a tia Maricota vai achar ruim? E se eu perder amigos?

Mas, caramba, o objetivo é justamente esse!

A melhor coisa de se mostrar é se livrar daquelas pessoas que nunca foram realmente suas, aquelas pessoas que amam mais seus próprios preconceitos do que você, aquelas pessoas que, por força das convenções vigentes, simplesmente não vão mais conseguir te amar se souberem quem você realmente é. Deixe elas seguirem viagem. Quem se importa com elas?

Eu tento me concentrar em quem vale a pena.

Em um primeiro grupo estão aquelas pessoas que me amavam e continuam me amando, que me aceitam e sempre aceitaram.

Ainda mais valiosas são as pessoas que me amam apesar dos seus preconceitos, que me aceitam apesar de eu ir contra tudo o que acreditam. Essas diferenças de opinião não importam para esses meus heróis. Nosso amor transborda e cobre os preconceitos, inunda as normas vigentes, afoga as convenções, varre do mapa as mesquinharias.

Por fim, meu grande prazer é descobrir iguais onde menos espero. Pessoas que eu nem conhecia, com as quais eu nem falava, por quem eu não dava nada de repente se revelam, apertam minha mão e me oferecem seu apoio irrestrito. E eu penso: mas como?, você também é assim?, você também gosta disso?, e a gente se conhece há tanto tempo, não é?, quem diria!

As primeiras pessoas já eram e continuam sendo os pilares de sustentação da minha vida e da minha sanidade.

As segundas me ensinam todo dia lições profundas de maturidade e amor. Porque, no fim das contas, se existe maturidade e se existe amor, pouco importa quem é comunista ou capitalista, monogâmico ou poligâmico, ateu ou crente.

As terceiras enriquecem a minha vida e compensam todas as que foram embora. Por serem semelhantes a mim, são o espelho onde me vejo, a experiência em que me baseio, o padrão no qual me meço.

Eu me exponho porque esse é o melhor jeito de conhecer quem está à minha volta. As pessoas mais incríveis, abertas, lindas, sensuais da minha vida eu conheci através desse blog. Ao me expor, eu descubro quem vai bailar comigo. Ao me expor, eu sinalizo para aquelas pessoas encostadas na parede por falta de opção que, sim, elas têm companhia: podem vir dançar comigo!

Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas. Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.

* * *

Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição já está disponível para pré-venda, com entrega antes do natal.

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02.07.10


Categorias: Livros, LLL, O Livro


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Comentários:


Comentário de: Carla · http://www.bailedemascaras.blog.br

"A melhor coisa de se mostrar é se livrar daquelas pessoas que nunca foram realmente suas, aquelas pessoas que amam mais seus próprios preconceitos do que você, aquelas pessoas que, por força das convenções vigentes, simplesmente não vão mais conseguir te amar se souberem quem você realmente é."

Perfeito! Admiro a coragem de quem consegue romper de verdade - consegue ser, sem medo! - , em vez de guardar desconfianças em relação a alguém que "talvez não me amasse se...". Como sua amiga, admiro aquilo que me falta: essa coragem que, para mim, é uma longa e assustada construção, e que para alguns é tão fácil. Tão leve.

PermalinkPermalink 02.07.10 @ 09:46



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/

Sabe Alex,é exatamente isso que aconteceu comigo.Quando eu era casada e evangélica, mantinha as aparências pra ter uma familia,um lar,uma estrutura.Aconteceu que não deu muito certo.Então me separei e passei a ser o que eu realmente era,a mulher independente do século XXI.Minhas amigas,a maioria delas não aguentaram tamanha mudança.Até eu explicar que:
Gente eu sou assim agora,essa é a verdadeira Indiamara.Eu sempre quis me vestir assim,sempre quis falar essas verdades,isso é o que eu realmente sou.Pronto,instalou-se a crise.Não que vc não pode ser assim,vc mudou muito,agora vc se acha,vc quer chamar a atenção.Eu disse que não queria chamar a atenção,e que eu só tinha passado a ser o centro das atenções porque elas me colocaram lá.E disse ainda que, não ia abrir mão do que eu realmente era,como fiz da primeira vez.Percebi que não compensava fazer o que os outros queriam que eu fizesse,porque ninguem valoriza o seu esforço pra ser "aceitável".Disse que não preciso de aceitação,e que vivo muito bem sem eles,e que eu adoro a minha companhia.Que se todos não suportam me ver feliz,então que não me vejam.Demorou tempo pra se adaptarem,me sobrou três colegas e nenhuma amiga.Foi o preço que tive que pagar por ser eu mesma.Mas eu sei que não vou voltar a fazer o jogo do contente,e que levei 20 anos pra ser quem eu sou hoje.E mesmo que eu tente mudar levarei mais 20 anos,então não compensa.


PermalinkPermalink 02.07.10 @ 10:48



Comentário de: Jhu

Ah, isso tudo é ótimo. Mas sabe quando você tá fazendo uma coisa "só-pra-polemizar"? Pois é, aí fica difícil de conversar e manter uma relação.


PermalinkPermalink 02.07.10 @ 12:35



Comentário de: aiaiai

COISA MAIS LINDA ESSE TEXTO!!!!!
Obrigada Alex, te amo!

PermalinkPermalink 02.07.10 @ 13:54



Comentário de: Iara · http://foifeitopraisso.blogspot.com

Lindo. Me fez lembrar a história de um amigo que, filho único, "saiu do armário" para a família antes de irem para a ceia de Natal na casa da vó. O pai ficou mal. Perguntou se o filho não queria ir se tratar, procurar um psicólogo. Ela disse pro pai qque se a família tivesse dificuldade para aceitá-lo, ela que procurasse um psicólogo, com todo o apoio dele. Porque pra ele era tudo muito claro e tranquilo. No Natal seguinte ele já levava o namorado pra festa n com a família justamente porque eles eram o tipo 2: deviam ter lá os seus preconceitos, mas o amor era muito maior.

PermalinkPermalink 02.07.10 @ 16:03



Comentário de: Tici

Não sei se há alguém q se exponha completamente sem máscaras, q seja autêntico o tempo todo, pois mesmo para os q tem uma estrutura psicológica e emocional mais fortalecida para lidar com as consequências, há diversas ocasiões em q a sinceridade só traz inconvenientes - afinal, quem precisa saber se o namorado já fantasiou com a sua irmã \o/, ou como vai, de verdade, a vida do seu dentista?
E na verdade, acho q ser sincero no campo emocional é o verdadeiro desafio, mt + q no campo das idéias e do jogo social...

De todo modo, é uma atitude saudável essa de apoiar a si mesmo, pois a opção é apoiar a hipocrisia dos juizes de plantão em cada esquina e viver uma “vida de mentirinha” pra agradar.
Por experiência pessoal, sei o qto pode ser libertador cada vez mais defender a mim mesma e parar de me “sentar no banco dos réus”, aceitando passivamente o julgamento alheio - trabalho árduo, ainda em andamento e sem previsão de conclusão.
É bom perceber como, a cada vez q agimos assim, cresce a sensação de felicidade, o auto-respeito, a auto-admiração. E tbm o contrário, qdo nos deixamos levar pelos outros...

Enfim, parabéns pela crônica, esse tema é mt pertinente e sempre merece uma boa reflexão.

PermalinkPermalink 02.07.10 @ 18:36



Comentário de: Tici

Em tempo: não faturamos 2010, mas superfaturamos 2014! ;)

PermalinkPermalink 02.07.10 @ 18:58



Comentário de: julio

alex eu sou meio das antigas, queria saber se tem ele na versao papel

PermalinkPermalink 02.07.10 @ 19:53



Comentário de: Alex Castro Email

Oi Julio, o livro esteve a venda em formato impresso por 3 anos, mas agora está esgotado.

PermalinkPermalink 03.07.10 @ 00:18



Comentário de: Magali

O que é uma pessoa pequena? Tratando-as dessa maneira, você não se iguala a elas? Porque elas não o aceitam, mas você também não as aceita...

PermalinkPermalink 03.07.10 @ 12:22



Comentário de: julio

poxa alex com tanto crepusculo por ai acha uma editora mesmo sendo modesta

PermalinkPermalink 03.07.10 @ 13:06



Comentário de: Ramon · http://www.armariodecozinha.net

tens a mesma ideia a mim em relação a sair do armário. ótima o exemplo do homossexual. qualquer dúvida é besteira, porque só restarão as pessoas que realmente se importam contigo.

PermalinkPermalink 12.04.11 @ 23:53



Comentário de: Proform Treadmill · http://proformtreadmillblog.com

Thanks for another magnificent article. Where else could anyone get that type of info in such a perfect way of writing? I have a presentation next week, and I'm on the look for such info.

PermalinkPermalink 19.11.11 @ 07:19



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