Os humanos, enquanto manada, são lamentáveis. Individualmente, alguns prestam. A melhor maneira de desentocá-los? Se mostrar. Vale a pena afastar mil bois para atrair uma única leoa.
Uma de minhas melhores amigas disse me admirar por minha abertura. Que a coisa mais digna de nota na minha personalidade era essa capacidade de me abrir para as pessoas e para o mundo, não ter medo de me mostrar. Eu ri. Aquilo era como me elogiar por ter dois braços, algo inerente a mim e totalmente fora do meu controle. Ao que ela respondeu, sempre muito lógica, que ela admirava não as minhas qualidades que me custavam ou não esforço, mas as minhas qualidades que ela jamais conseguiria ter.
Eu me mostro porque preciso. Eu me mostro porque é assim que eu sou. Mais do que tudo, eu me mostro porque esse é o melhor jeito de conhecer quem está a minha volta. Escancarando de vez.
Quando eu era adolescente, meu grande sonho era ser homossexual só pra poder sair do armário. Imagina, que delícia, soltar a franga em um daqueles natais com trocentos familiares. É isso mesmo, vovó Leotildes, eu gosto é de chupar pau. É, titia Cleonice, eu sou que nem a senhora, gosto de uma jeba entrando em mim. Infelizmente, eu não só era irremediavelmente heterossexual como ainda tinha uma família mínima: o showzinho, se houvesse, teria que se restringir ao meu pai, minha mãe e minha irmã. Nem uma tia beata eu tenho.
Os homossexuais que saem do armário merecem nossa inveja e admiração: eles passam por um momento de revelação quase religioso em sua intensidade; ao mesmo tempo, ponto de ruptura e ponto de teste. Nessa hora, com um único gesto, você conhecerá todos seus amigos e parentes.
Algumas pessoas têm medo de se mostrar. O que minha mãe vai pensar? Será que a tia Maricota vai achar ruim? E se eu perder amigos?
Mas, caramba, o objetivo é justamente esse!
A melhor coisa de se mostrar é se livrar daquelas pessoas que nunca foram realmente suas, aquelas pessoas que amam mais seus próprios preconceitos do que você, aquelas pessoas que, por força das convenções vigentes, simplesmente não vão mais conseguir te amar se souberem quem você realmente é. Deixe elas seguirem viagem. Quem se importa com elas?
Eu tento me concentrar em quem vale a pena.
Em um primeiro grupo estão aquelas pessoas que me amavam e continuam me amando, que me aceitam e sempre aceitaram.
Ainda mais valiosas são as pessoas que me amam apesar dos seus preconceitos, que me aceitam apesar de eu ir contra tudo o que acreditam. Essas diferenças de opinião não importam para esses meus heróis. Nosso amor transborda e cobre os preconceitos, inunda as normas vigentes, afoga as convenções, varre do mapa as mesquinharias.
Por fim, meu grande prazer é descobrir iguais onde menos espero. Pessoas que eu nem conhecia, com as quais eu nem falava, por quem eu não dava nada de repente se revelam, apertam minha mão e me oferecem seu apoio irrestrito. E eu penso: mas como?, você também é assim?, você também gosta disso?, e a gente se conhece há tanto tempo, não é?, quem diria!
As primeiras pessoas já eram e continuam sendo os pilares de sustentação da minha vida e da minha sanidade.
As segundas me ensinam todo dia lições profundas de maturidade e amor. Porque, no fim das contas, se existe maturidade e se existe amor, pouco importa quem é comunista ou capitalista, monogâmico ou poligâmico, ateu ou crente.
As terceiras enriquecem a minha vida e compensam todas as que foram embora. Por serem semelhantes a mim, são o espelho onde me vejo, a experiência em que me baseio, o padrão no qual me meço.
Eu me exponho porque esse é o melhor jeito de conhecer quem está à minha volta. As pessoas mais incríveis, abertas, lindas, sensuais da minha vida eu conheci através desse blog. Ao me expor, eu descubro quem vai bailar comigo. Ao me expor, eu sinalizo para aquelas pessoas encostadas na parede por falta de opção que, sim, elas têm companhia: podem vir dançar comigo!
Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas. Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.
* * *
Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição já está disponível para pré-venda, com entrega antes do natal.
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