Andou circulando pela internet um pequeno documentário turístico sobre o Rio de Janeiro de 1936. Como não escondo meu amor por minha cidade linda, muita gente me mandou o link, alguns nostálgicos ("poxa, como seria bom viver nessa época, né?") e outros provocadores ("olha como era sua cidade e chora, malandro!"). Trocentos blogs reproduziram o vídeo, todos com textos belos e saudosos sobre o Rio de antigamente.
Nós, historiadores, sempre achamos muito engraçado essa nostalgia pelo passado. Qualquer um que já estudou qualquer época com atenção sabe que o passado (qualquer passado) é uma merda comparado com a vida de hoje (qualquer vida). Sim, ser branco rico no Rio do século XIX era melhor do que ser favelado pobre no Rio de 2010, mas os brancos ricos da época caberiam num único condomínio de luxo hoje: eram pouquíssimos. Não faz sentido comparar a situação da população média de hoje com a dos 0,3% mais ricos de antigamente - e, mesmo assim, seus indicadores de saúde seriam piores que os dos favelados atuais.
Para colocar a coisa em perspectiva, alguns números do idílico Brasil de 1936:
- A renda per capita era um quinto da atual.
-A expectativa de vida era de 36 anos (estimativas para 1940 de Arriaga);
- 57% da população era analfabeta.
-A mortalidade infantil era de 150 por mil crianças. Hoje são 28 óbitos por mil.
(Dados acima cortesia do meu amigo vebleriano estraga-prazer Léo Monastério.)
Nunca vi nostalgia alguma que não fosse fundamentada numa sólida ignorância do passado.
* * *
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