a falta que nos fazem os figos, conto

XV - À meia-noite, no quilombo, invocamos o escritor morto

Para quem visitou as grandes escavações greco-romanas da Europa, aquele terreno baldio de terra remexida e mato ralo podia ser tudo, menos um sítio arqueológico. Mas era.

O lugar estava abandonado, sem cercas, placas ou marcos indicativos. Como único vestígio de ocupação humana nas redondezas, havia um lampião a gás, colocado por Gália sobre uma pedra distante.Onde Perdemos Tudo - Contos, por Alex Castro

Segundo ela, era fundamental que se realizasse a invocação em algum lugar isolado, pois em cidades grandes existe muita concentração de vibrações negativas:

— No caso específico das psicofonias, — Explicou — elas funcionam melhor em ambientes externos e, de preferência, psiquicamente carregados, onde tenha acontecido alguma tragédia, ou fato paranormal.

Olhei para Gabriela, que por sua expressão fisionômica tinha algum comentário sarcástico a fazer, mas preferiu abster-se de outra merecida reprimenda.

Naquele descampado, disse Gália, erguera-se o Quilombo de Capivara, pra onde iam todos os escravos fugidos da região, e que acabou sendo invadido e destruído pelo povo da cidade no começo do século XIX. Entre negros e brancos, muita gente tinha morrido, e era a tal tragédia de que precisávamos, não sei bem por quê, para carregar psiquicamente o ambiente.

— Descobriram o lugar faz alguns anos, — Continuou nossa cicerone — e fizeram escavações, pra ver como era a vida nos quilombos. Desenterraram potes, utensílios etc. Mas a verba acabou e os arqueólogos abandonaram o sítio. Hoje em dia, só as crianças vêm aqui. Elas adoram, vivem invadindo. Deve ser alguma espécie de rito de passagem ou prova de macheza acampar no Quilombo. De vez em quando, aparecem uns esqueletos.

— Em suma, — Completou — é perfeito para o que nós queremos.

Eu não disse nada, e nem Gabriela. Mas ao contrário de mim, que apenas nada tinha a acrescentar, seu silêncio constante era um sintoma claro da irritação que sentia com todo aquele clima místico: se abrisse a boca, seria para criticar.

Gália então, pragmática e com trabalho a fazer, deu as costas para nós, abriu a mochila que trouxera e começou a retirar seu conteúdo. Enquanto isso, Gabriela me puxou para um canto onde sua amiga não pudesse nos ouvir, e disse:

— Xandelon, estou me sentindo meio mal de ter te metido nessa confusão. — Da mochila, Gália tirou uma almofada, que arrumou sobre um montinho de terra.

— Não foi você que me meteu nessa confusão, Gábi. — Em cima da almofada, Gália colocou um gravador com microfone externo. — Esse assunto é entre o Jácome Gol e eu. Só.

— É que eu acho tudo tão ridículo. Nós aqui, nesse frio cão, em um terreno baldio no meio do nada, tentando gravar a voz de um sujeito que morreu há mais de vinte anos! — Gália esticou o fio, para que o microfone ficasse o mais distante possível do aparelho, e foi posicioná-lo alguns metros adiante, sobre outra almofada. — Não sei onde eu estava com a cabeça quando pedi para a Gália fazer essa sessão! É óbvio que isso nunca vai dar certo!

— Não custa tentar. E agora, nós já estamos aqui. — Encerrei o assunto, pois, atrás de nós, Gália terminara seus preparativos, e parecia ansiosa para nos contar o que iríamos fazer:

— Gravações psicofônicas são muito sensíveis. — Começou ela — O microfone tem que ficar longe do aparelho, pois senão tudo o que ouviríamos seria o barulho do motor. As almofadas servem para abafar e neutralizar as vibrações da terra, que também poderiam interferir com o som.

Ajustou o volume do aparelho para médio-alto e colocou uma fita:

— O resto é simples. Eu ligo o gravador, nós chamamos por Jácome Gol e deixamos a fita rolar em silêncio por alguns minutos. Depois, eu volto a gravação, a gente toca e, se tudo der certo, haverá uma mensagem para nós.

Gabriela e eu, em um aceno de cabeça silencioso, concordamos com o plano. Quem estava no comando era Gália — que tinha descoberto seu dom porque não conseguia gravar uma fita sequer sem que vozes estranhas aparecessem — e não havia nada que quiséssemos, ou pudéssemos, discutir.

Sentamos na terra fofa e nos demos as mãos. Por meia hora, deveríamos meditar em silêncio, relaxando e limpando nossas mentes.

Tentei me concentrar no vento — nunca imaginei que fizesse tanto frio assim no estado — mas meus pensamentos ziguezagueavam frenéticos por entre os fatos que haviam me levado até ali. Lembrei de quando bolara — ou pensei que bolara — os figos em 91, como desculpa para não estudar química, e os cocos, menos de um mês atrás, na praia do Leblon, enquanto sentia o sal dos dedinhos de Gabriela em minha língua. Pude me ver deitado na cama, chorando como nunca chorara antes, e na casa de Mitzi, fazendo contas em velocidade histérica para chegar à tênue conclusão de que eu deveria ser a reencarnação do Gol. Revivi os momentos de puro pavor experimentados durante a descoberta das coincidências, eu quase descendo privada adentro, ou Gabriela chegando no meio da noite em minha casa, com os pêssegos debaixo do braço.

Ainda estava imerso nessas imagens quando Gália, aparentemente instantes depois de começarmos, chamou, em voz alta e clara:

— Jácome Orit Gol, por favor entre em contato conosco.

Voltamos ao silêncio, mas o fluxo de imagens em meu cérebro havia parado e o tempo arrastou-se. Agora, ao invés de recordações, eu tinha apenas ansiedade.

Finalmente, Gália se levantou, foi até o gravador e trouxe-o até nós. Depois de rebobinar a fita, ela apertou o botão PLAY sem maiores cerimônias.

* * *

O conto A Falta que nos Fazem os Figos faz parte do meu livro Onde Perdemos Tudo, recém-publicado em caprichadíssima edição pela Oficina Raquel. São 5 contos, em 120 páginas, sobre o tema comum de perda.

Compre aqui.

Ou então compre a versão exclusiva para kindle, com dois contos bônus, inéditos e exclusivos.

onde perdemos tudo, de alex castro

 

06.02.12


Categorias: Livros, Onde Perdemos Tudo


Posts similares:
Especial dia dos namorados: a torcedora gaúcha e o coxa-branca
Liberal Libertário Libertino, o Livro!
Valquíria

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: sohbet · http://www.sohbetimtr.org

Ainda estava imerso nessas imagens quando Gália, aparentemente instantes depois de começarmos, chamou, em voz alta e clara:

— Jácome Orit Gol, por favor entre em contato conosco.
sohbet
Voltamos ao silêncio, mas o fluxo de imagens em meu cérebro havia parado e o tempo arrastou-se. Agora, ao invés de recordações, eu tinha apenas ansiedade.

good...

PermalinkPermalink 01.02.11 @ 22:21



Comentário de: Pierre Dechery

Sacanagem! Agora fiquei na maior ansiedade... Já sei, já sei, compra o livro, rsss

PermalinkPermalink 06.02.12 @ 11:47



Comentário de: Carlos · http://www.clinicadrogados.com

Fiquei instigado a conhecer a obra. Um pena não kindle... mas buscarei na livraria. Thanks

PermalinkPermalink 07.02.12 @ 00:56



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Post anterior: rio grande

Próximo post: uma questão de fé, conto

um blog sobre literatura, empatia e desapego

sobre mim

contato, bio, fotos, livros, compre

Busca

    Se gostou desse blog, inclua um botão no seu site