Hoje em dia, ainda mais em um país onde quase cada pessoa alfabetizada leu Dom Casmurro, toda narrativa em primeira pessoa é (ou deveria ser) contra o narrador.
Então, um pedido:
Não presuma que o escritor concorda com as opiniões emitidas por seus narradores.
(Dado o cenário literário atual, eu diria que quase sempre as opiniões do escritor são opostas às do narrador em primeira pessoa. Aliás, quanto melhor o livro, mais opostas. Só mesmo autores novatos ainda cometem narradores em primeira pessoa que, na verdade, são alter-egos deles mesmos.)
Outro pedido, portanto, mais encarecido ainda:
Evite citar um personagem como se fosse o escritor.
(Quem disse "ser ou não ser" não foi Shakespeare, mas o personagem Hamlet, na peça homônima de Shakespeare. Quem disse que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria não foi Machado de Assis - que, por acaso ou não, também não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria - mas o personagem Brás Cubas, no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Sacou?)
Em nome de todos os escritores de ficção - vivos, mortos ou ainda não-nascidos - eu agradeço.
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