Para mim, esse blog é um grande experimento literário, um laboratório onde posso analisar os diferentes métodos de recepção e engajamento da leitora com os textos.
Uma dos fenômenos mais interessantes são as constantes acusações que recebo de "escrever só para criar polêmica".
Via de regra, funciona assim: (todos os exemplos tirados desse post recente, mas poderiam ser de qualquer outro)
A leitora chega, gosta, concorda e deixa uma variação dos seguintes comentários:
Olha, esse primeiro parágrafo deveria ser colocado numa moldura. // Caraca, esse texto foi o melhor que eu já li aqui. Digo, a crítica da crítica foi muito boa. // Grandissíssimo texto, Alex! Muito bom mesmo.
A leitora chega, não gosta, discorda e deixa uma variação do seguinte comentário:
Mas se o que vc quer eh uma polemica de post que vai aumentar seus page views no dia, good work.
No caso acima, por exemplo, o comentarista que reclamou do "post pra fazer polêmica" era praticamente o único discordando fortemente das opiniões apresentadas e voltando repetidadas vezes para comentar. Ou seja, em sua crítica contra o "post para fazer polêmica" ele não percebeu a imensa ironia: na verdade, quem criou a polêmica foi ele, ao discordar, comentar e voltar repetidas vezes para comentar de novo. Sem ele, não teria havido polêmica alguma, pois quase todas as outras comentaristas gostaram e concordaram com o texto. Como acontece frequentemente, a crítica revela mais sobre quem faz do que sobre quem recebe. (Aliás, quase sempre que esse comentarista discorda de mim, leitor antigo e querido, ele começa com uma variação de: "às vezes não acredito que você fale essas coisas a sério, etc...")
* * *
Frequentemente, as leitoras que mais elogiam os textos com os quais concordam são as mesmas que me acusam de "apenas querer criar polêmicas" com os textos dos quais discordam.
Escrevo sobre assunto X e ela comenta:
"grande post, Alex, muito legal!".
Na semana seguinte, escrevo sobre assunto Y e ela gosta:
"muito bom, alguém precisava mesmo dizer isso, q texto lúcido!"
Finalmente, na outra semana, escrevo sobre o assunto Z e a casa vêm abaixo:
"sinceramente, Alex, não acredito que você possa falar essas coisas a sério! Adoro seu blog mas quando você escreve coisas assim, claramente só pra criar polêmica e gerar pageview, eu tenho vontade de nunca mais voltar aqui."
Mudam as leitoras, mudam os assuntos, o processo nunca muda. Nenhum texto nunca é unanimemente polêmico, pois ele parece polêmico para quem discorda, mas lúcido e bem-argumentado para quem concorda. Na semana seguinte, entretanto, os papéis podem se inverter: quando pára a música, as leitoras se sentam todas em cadeiras diferentes.
A leitora que me adorava pelos textos de racismo acha que escrevo sobre prostitutas só para criar polêmica:
"você não pode sinceramente achar a prostituição uma coisa boa!"
A leitora que se empolga com os textos sobre ateísmo não se conforma com a série Raça:
"não acredito que você ache mesmo que o problema do Brasil seja falta de conflito racial!"
Etc, etc.
Todas as leitoras que já me acusaram de "querer apenas criar polêmica" não entendem que minhas opiniões das quais discordam são radicalmente tão sinceras, refletidas e desenvolvidas quanto as minhas opiniões com as quais concordam. Parecem tão entender que, na verdade, quem cria a polêmica são elas, ao surtar nos comentários, ao responder, ao questionar, ao reclamar, ao debater.
Não tenho nada contra polêmicas, mas nunca criei nenhuma. Dou minha opinião, aqui, no meu espaço, e pronto. Raramente respondo, contra-argumento, debato. Se as leitoras fossem capazes de chegar, ler opiniões das quais discordam e reconhecer tanto meu direito de ter essas opiniões quanto minha sinceridade ao exprimi-las, não haveria polêmica alguma.
E, com certeza, não haveria nenhuma acusação de "escrever só para criar polêmica".
* * *
Por que usei a palavra "leitoras" e não "leitores"? A explicação está nesse texto, que é, ao mesmo tempo, "uma tentativa de provocar celeuma propositadamente", mas também é "brilhante" ("Alex, vc só melhora.") Entenderam?
* * *
Um livro assumidamente polêmico e muito, muito bom:
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