(antes, leia a parte 1)
mais do que uma pulsão de morte, vejo a sociedade tomada por uma nociva pulsão de vida. a vida foi sacralizada a tal ponto q todos querem viver a todo custo. outro dia, uma amiga disse que quem fuma é burro. quem puxa o primeiro cigarro é burro. mas como assim?
quem tira carteira de motorista é burro também? e quem come capa de gordura da picanha? não são todas decisões com seu custo e benefício? carros são dos maiores assassinos de nossa época, mas quase todos dirigimos pq achamos que o benefício vale a pena o risco. então pq o fumante, que extrai um enorme prazer do ato de fumar, nao pode, igualmente, tomar a decisão de que o beneficio vale a pena o risco?
o ser humano é definido por arriscar a vida voluntariamente. muitas dessas pessoas que acham q fumante por definição é burro vestiriam um uniforminho e se proporiam a arriscar a vida para defender uma abstração política patriotica. eu jamais faria isso, mas não os chamo de burros. para eles, seu sentimento de comunidade e identidade com essa abstração política, e os benefícios que tiram de fazer parte dessa comunidade, compensam a possibilidade de, um dia, talvez, serem chamados para dar a vida por ela. (já eu prefiro usufruir dos benefícios e, caso a abstração queira minha vida em troca, fujo pro uruguai, mas eu tb nao tenho honra nem caráter!)
sim, a decisão de fumar encurta a vida de uma pessoa, mas todo dia tomamos outras mil decisões que encurtam nossa vida. morar em grandes centros urbanos encurta nossa vida. existem mil doenças ligadas diretamente a poluição nas grandes cidades. vc, que está lendo isso em São Paulo, vai viver alguns anos ou meses a menos simplesmente por não ter ido morar em algum buraco no meio do mato. não será burrice morar em um lugar que VOCE SABE vai encurtar sua vida? ou será q a vida nos grandes centros urbanos não oferecem beneficios que compensam isso? no ano passado, haviam sempre pelo menos 60 peças em cartaz por fim de semana no Rio. em Pirapora do Mato Dentro, não tem nenhuma, mas todo mundo vive mais!
em um outro exemplo, o mero fato de ser homem encurta significativamente a vida de um individuo. se estamos assim tao preocupados em viver mais, castraríamos nossos filhos como castramos nossos cachorros. homens castrados vivem significativamente mais, não apenas por razões fisiológicas mas, digamos, culturais tb, pois homens cheios de testosterona na cabeça fazem mais merda, dirigem mais rapido, se envolvem em mais brigas e se metem em mais situações de risco de modo geral do que pessoas com menos testosterona.
entao, se vc já se reproduziu, ou não pensa em fazer isso, pq nao se castrar? vc vai viver mais, vai ficar mais tranquilo, vai fazer menos merda, vai gastar menos dinheiro em pornografia. um homem fumante provavelmente ganharia mais anos de vida se castrando do que parando de fumar. pq nao? afinal, a vida não é sagrada? corta fora esse bilau!
eu conheco um amigo q ama fumar e é daqueles desinteressados em sexo. já não transa mesmo. com certeza, transar lhe faria menos falta do que fumar. mas ao inves de os amigos fazerem força pra ele se castrar, ficam pentelhando o homem pra parar de fumar - um dos seus grandes prazeres da vida. faz sentido isso?
(nesse caso, eu só diria que, por ele ter libido baixa e não correr atrás de rabo de saia, ele já está a salvo de alguns dos fatores de riscos de ser homem, mas não de todos.)
o meu ponto é: antes de apontar o dedo pra alguem que não abdica de um prazer pra viver um pouco mais, coloque a mão na sua consciência: que prazeres vc não abdica pra viver mais? está disposto a não trabalhar em escritório? a ir viver no campo? a parar de beber e comer carne vermelha? a parar de dirigir? pq nao? te garanto que vc iria viver mt mais!
mas a minha pergunta é: pq de repente viver mais se tornou um valor auto-explicativo q se sobrepoe a todos os outros? como se a vida fosse sagrada e boa e indispensavel intrinsecamente? de onde veio essa loucura coletiva?
* * *
O artigo acima é um rascunho (explicações aqui) mas, como sei que vão me acusar de maluco, fui buscar algum apoio para minhas afirmações sobre castração masculina. Perguntem a deus que vocês encontram mais:
A explicação mais imediata para a fragilidade do sexo forte em relação aos agentes parasitários e infecciosos é a de que a testosterona, o hormônio sexual masculino, provoca depressão imunológica. Um trabalho clássico, publicado há mais de 30 anos, mostrou que os homens castrados vivem em média 15 anos mais do que os não-castrados e que, quanto mais precoces forem quando sofrerem a castração, maior será a sua longevidade. (fonte: "A longevidade do sexo frágil", de Dráuzio Varella.)
* * *
Update
Nova polêmica nos comentários: afinal, dirigir é uma necessidade?
Em 2009, o trânsito de São Paulo matou 1.382 pessoas. Só 222 eram motoristas. 671 eram pedestres. A maioria deles morreu em cima da faixa de pedestres. 30% das vítimas eram idosos, cuja velocidade é menor. Morre mais gente no trânsito do que por homicídio na cidade. Homicídios tendem a se concentrar na população de jovens adultos homens. Já as mortes no trânsito costumam privilegiar os mais fracos: idosos e crianças entre eles. ... Por que é que o trânsito, que mata mais brasileiros do que a aids, a diarreia ou o câncer de pulmão, não vira prioridade para a saúde pública? Como é que o carro, que mata mais que o revólver, não tem seu uso controlado? (fonte: De quem é a rua?, de Denis Russo Burgierman)
A decisão de desmontar a malha ferroviária (incluindo trens e bondes urbanos) e construir toda uma sociedade centrada em volta do carro é uma escolha que custa milhares e milhares de vida por ano. Não é uma necessidade. Nem uma fatalidade. É um custo-benefício.
Se não começarmos a encarar nossas escolhas como ESCOLHAS e não como NECESSIDADES, nunca conseguiremos mudar nossos maus-hábitos.
* * *
A obra completa de Freud está cada vez mais barata no Submarino. 25 livros por 250 reais. 10 reais cada. Em até 8x sem juros. Praticamente dado. Compre por aqui e ajude a manter esse blog.

Obras completas de Freud, de R$960, por R$250
Posts similares:
a dor é ética? a vida é sagrada? (parte 1 de 2)
Divina Marcela
Porque Apoio a Lei do Fumo em SP
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
) na mão é phoda. Mas aí é a minha moral.
A situação do transporte público e a quantidade de pessoas que moram numa cidade grande ludibria o pensamento das pessoas ao ponto de acharem que carro é uma necessidade, mas eu não acho isso não.Este post tem 2 comentários aguardando aprovaçăo...
Os comentários estăo fechados para esse post.
Post anterior: a dor é ética? a vida é sagrada? (parte 1 de 2)