(Esse é um post-rascunho. Em dezembro, descobri que meu ex-roommate e grande amigo Roberto tinha cometido suicídio. Em fevereiro, sua irmã, Maria, com quem ele morava na época, veio me visitar, pra me conhecer, pra ver a casa onde ele morou, pra trocarmos histórias. Foi um fim-de-semana único. Encontramos também Rosamaria, doutoranda em psicologia, ex-roommate minha e do Roberto. Naturalmente, a conversa passou pelo espinhoso tema do suícidio. Depois que elas saíram, fiquei com a cabeça girando de idéias e escrevi o post-rascunho abaixo, só pra não esquecer tudo o que pensei. Também li um artigo fundamental na New Yorker, Head Case: Can psychiatry be a science?, que por sua vez, me levou a ler uma série de artigos e livros sobre o assunto, dos quais recomendo Creating Mental Illness e The Antidepressant Era. O texto rascunhado passou três meses na minha área de trabalho e, por pura preguiça, vou publicá-lo assim mesmo. Corrigi apenas alguns erros de ortografia que poderiam causar mal-entendidos.)
conversa sobre roberto com rosa maria. em que ponto é uma decisao valida se matar? rosamaria diz q o suicidio nao é valido se fruto de uma doenca mental, e eu concordo. mas o que é uma doenca mental? quem define? é facil de saber o funcionamento normal de um rim e, consequentemente, quando um rim não está funcionando direito, mas pra dizer que a cabeça de alguem não está funcionando direito, teriamos que estabelecer um padrão de normalidade mental que é altamente perigoso. nada q foucault já nao tenha dito.
qd começo a puxar por exemplos de suicidios cometidos por "bons motivos", ela rechaça todos. pergunto: entao, ok, se o suicidio nao é valido quando a pessoa está com uma doença mental, me dá um exemplo de uma decisao de cometer suicidio que vc reconheceria como partindo de uma pessoa racional que tomou uma decisao racional. ela nao consegue dizer nenhum de suicidio teoricamente valido, nenhum exemplo. todos os motivos existenciais que poderiam levar alguem ao suicidio ela imediatamente patologiza, os transforma em doença mental. diz q nao é valido se uma pessoa estiver sofrendo de extremo desespero, por exemplo. mas desespero é doença mental? vamos agora proibir o desespero? todos os desesperados são doentes passíveis de ser curados pelos remedios certos? nao existirao milhares de motivos perfeitamente validos para pessoas mentalmente sadias se sentirem desesperadas ou desesperançadas? e para quem está desesperado e desesperançado, nao pode o suicidio ser uma opção valida e racional? será que, num diagnostico a posteriori, todo suicida sofre de doença mental... pelo simples fato de ter optado pelo suicidio?
rosamaria admite, relutante, por fim. pra ela, se uma pessoa cometeu suicidio, entao, por definição, ela tinha algum tipo de doenca mental que, por definição tambem, poderia ser curada por um profissional como ela - gerando assim, claro, mais empregos para psicólogos e, mais claro ainda, protegendo a santidade da vida humana em conflito direto com a liberdade do homem.
como escritor que vive de pathos e conflito, me preocupa ver que emoções humanas antigas e válidas tenham se tornado "doenças". em que momento a dor, a tristeza, o desespero se tornaram patologias?
o inevitável exemplo hipotetico:
se vc perdesse o emprego hj e soubesse que iria passar os proximos seis meses deprimido e cabisbaixo, mas que depois passaria, e se houvesse a possibilidade de tomar uma pilula magica para pular esses seis meses, e ir direto para o futuro feliz e sem-depressao, vc tomaria??
se disse sim, pense nisso: será que a depressao como resposta válida e normal aos estímulos externos não é algo que nos define enquanto pessoas, enquanto espécie? nossa tristeza não faz parte da essencia do que somos? vc tomaria uma pílula pra não ficar triste por causa da morte do seu pai? não seria um pouco imoral NAO ficar deprimido pela morte do seu pai? quais serão as consequencias eticas e morais, a longo prazo, de nos tornarmos uma especie que nao fica deprimida quando tem bons motivos para tal? será q os psicologos estão nos dizendo que sanidade mental é ficar feliz sempre?
se disse nao, pense nisso: se, quando está com dor de cabeça ou mal-estar no estômago, vc toma uma aspirina, um sal de frutas, e não fica esperando passar, pq não tomar remedio pra evitar a depressao e a tristeza? pq temos que "moralizar" a depressão? existe mesmo algo de "etico" em ficar imerso na tristeza ao invés de simplesmente tomar uma pílula e pronto? afinal, a pílula está aí pra isso, não? se vc sinceramente não tomaria a pílula pra pular os 6 meses de depressao, pq tomar a aspirina pra pular as próximas 2h de dor de cabeça? pq tomar engov pra passar a ressaca? ou, indo um passo mais alem, pq tomar anestesia no dentista? qual seria o verdadeiro problema de sermos hedonistas e, seguindo o exemplo de praticamente TODO ser vivo, fugirmos da dor por todos os métodos necessários?
(ficou muito longo, amanhã publico a segunda parte, sobre a pulsão de vida que domina nossa sociedade. afinal, a vida é mesmo sagrada?!)
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