(antes leia Nostalgia da Escravidão na Literatura Cubana)
Cuba hoje tem duas literaturas: a feita na ilha e a do exílio.
Durante muito tempo, elas não se encontraram. Escritores da ilha consideravam que somente eles estavam produzindo a verdadeira literatura cubana, da vida real, do dia-a-dia; os exilados, por seu lado, além de contra-revolucionários e desertores, ávidos pra destruir as conquistas da Revolução, também eram movidos à nostalgia e más recordações e já não tinham mais nenhuma idéia de como era a Cuba de verdade. Escritores da diáspora consideravam que somente eles estavam produzindo a verdadeira literatura cubana, livre de censuras governamentais e ranço político; os escritores da ilha, capachos de Fidel, não poderiam nem se quisessem retratar Cuba como ela realmente era, de tão presos que estavam por sua própria auto-censura, por sua necessidade de adular o governo, por seu medo de serem colocados nas listas negras.
Nos últimos anos, ambas as literaturas vêm se encontrando. Autores de Cuba já estão sendo mais traduzidos e lidos no exterior, como Leonardo Padura Fuentes e, ao mesmo tempo, autores da diáspora, antes ignorados solemente na ilha, vêm sendo reavaliados, como Reinaldo Arenas. Ainda assim, quase toda a literatura cubana contemporânea produzida no exterior simplesmente nunca é editada ou vendida em Cuba, seja a que é produzida por autores que vivem em Cuba, como Juan Pedro Gutierrez, ou na diáspora, como Daina Chaviano.
Com o Período Especial, surgiu um verdadeiro boom de narrativas cubanas produzidas no exterior, reproduzindo as duras condições de vida na ilha. De fato, são tantos livros que eles já se tornaram, na prática, uma paródia de si mesmos. Em minha opinião, por exemplo, a "Trilogia Suja de Havana" entra nesse quesito: já na metade do livro, você já sabe exatamente como vai ser a outra metade: histórias sobre uma "frikie jinetera drogadicta de padres balseros y hermano con sadismo anal". A citação é do artigo "¿Pathos o Marketing?", de Rafael de Aguila, sobre esse gênero literário de modo geral. ("El Caimán Barbudo", jornal cultural da "Unión de Jóvenes Comunistas", 1998) A discussão parece a velha disputa entre autores revolucionários da ilha e contra-revolucionários da diáspora, mas não é. Na verdade, trata-se de turismo da miséria.
Eu sou do Rio de Janeiro, cidade turística onde os Favela Tours se tornaram cada vez mais populares nos últimos anos. Moro em Nova Orleans, cidade turística onde os Katrina Tours já começaram praticamente logo após a furação. Afinal, enquanto houver turistas querendo visitar as favelas que viram em "Cidade de Deus" e as casas arrasadas e diques arrebentados que viram na TV, vão haver empreendedores locais dispostos a mostrar. Em Cuba, as coisas não são diferentes: a destruição e a penúria do Período Especial, o fracasso do sonho revolucionário, se tornaram atrações turísticas para o mundo inteiro ver. Hoje, as ruínas de Havana já são tão ou mais turísticas do que os palacetes restaurados. Quem quiser se fartar dos despojos do sonho revolucionário cubano, pode assistir documentários como “Habana – Arte nuevo de hacer ruinas" (2006), dos diretores alemães Florian Borchmeyer e Matthias Hentschler (link no fim do post); livros como "La Fiesta Vigilada" (2007) e "Un Arte Nuevo de Hacer Ruinas" (2005) de Antonio José Ponte; ou, naturalmente, "El Hombre, la Hembra, el Hambre" (1999), de Daína Chaviano.
A questão não é mais criticar ou não criticar a Revolução. Hoje, depois de vinte anos de duríssimo Período Especial, cada vez são mais raros os romances francamente celebratórios da Revolução. Autores cubanos, moradores da ilha, celebrados na ilha, publicados pelas editoras do governo, desenham críticas fortíssimas das Revolução em seus livros. Para ficarmos somente nos policiais, tanto Leonardo Padura Fuentes, best-seller internacional, como Lorenzo Lunar Cardedo, uma das prosas mais vigorosas de Cuba, desenvolvem seus enredos policiais em um país onde o estado praticamente faliu e já não consegue mais suprir garantias mínimas. Mas vê-se que é uma crítica de dentro: de cubanos para cubanos. Séria, incisiva, profunda. Estamos diante de um povo, discutindo entre si, o futuro da civilização que construíram.
Por outro lado, lemos livros como a "Trilogia Suja de Havana" ou "El Hombre, la Hembra e el Hambre" e, realmente, a impressão que fica é de uma literatura pra inglês ver, para alemão ler, pra sueco filmar. Quase posso imaginar Juan Pedro Gutierrez andando pelo Malecón, praticamente jineteando turistas europeus para saber, enfim, o que querem? O que vieram ver em Cuba? O que mais os impressionou? E anota tudo em seu caderninho: carnês de racionamento, jineteiras, prédios lindos em ruínas, hmm, muito bem, o que mais? E, depois, de volta pra casa, senta em seu computador e produz uma literatura que não é de crítica ou denúncia ou mesmo de auto-crítica das mazelas de Cuba, mas puramente para suprir a demanda internacional pela miséria de Cuba, pelos escombros da Revolução.
Vivendo no exterior, ao contrário de Pedro Juan Gutierrez, eu posso imaginar Daína Chaviano fazendo também um livro turístico, cujo leitor ideal claramente não é cubano, mas internacional. Um livro para explicar Cuba nos mínimos detalhes aos seus amigos espanhóis e, ao mesmo tempo, suprir a fome européia por ruínas cubanas. Em minha opinião, os trechos abaixo, entre muitos outros que poderia ter escolhido, indicam claramente um livro escrito para consumo externo:
"Por lo menos se lavaría la cabeza con champú... Bueno, también era un decir. Ese mejunje inventado por la genialidad del cubano consistía en una mezcla de detergente, vinagre, un poquito de agua, azúcar, y unas goticas de colonia para dissimular el olor del vinagre. Claudia nunca supo qué pintaba el azúcar en todo aquello, pero la vecina que le dio la receta le aseguró que lo hicieta así, que la fórmula se la había dado una sobrina que estudiaba química no-sé-qué, y que el azúcar hacía falta en esa mezcla." (82-83)
"No había aceite, pero eso ya no era un problema. Alguien - algun iluminado en aquella tierra bendecida - había descubierto que el agua - esa agua simples y llena de amebas que a veces salía de los grifos - suplía perfectamente al aceite cuando de freír un huevo se trataba. El unico problema era la salpicadera atroz que se producía, pero aquello era un mal menor y preferible ante la posibilidad de que el huevo se pegara en la sartén." (83)
"- Estoy pensando en irme.
Eso fue todo. En cualquier otro lugar del universo, después de esa frase, vendría la pregunta "¿Adonde?", porque la gente que vive en el mundo normal puede irse de vacaciones, marcharse a otra ciudad, hacer giras turísticas o sencillamente cambiar de aires. En Cuba, esa frase sólo puede significar una cosa.
- ¿En balsa?" (284)
Jesús Díaz (1941-2002), autor cubano também exilado na Europa, em entrevista à imprensa local em 1998, acusou a autora cubana Zoé Valdés, também exilada, de somente suprir a demanda européia por uma Cuba decadente, politizada, sexualizada, de escrever uma literatura que era "una forma de turismo literario, en el momento en que Cuba se convierte en un paraíso del sexo barato". E conclui afirmando que, em sua opinião,
"la literatura, la verdadera, es el lugar imposible donde tratan de expresarse la tragedia y la comedia, el abismo y la ambiguidad entre los que se mueve este siglo; toda la complejidad del destino humano." (Entrevista a "Encuentro de la Cultura Cubana", Madrid, 10: 101-103)
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"Habana: Arte Nuevo de Hacer Ruinas"
de Florián Borchmeyer y Matthias Hentschler (2006)
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