A Cuba contemporânea não é nenhum paraíso mas, muitas vezes, a ojeriza pela Revolução faz com que se tenha nostalgia por períodos históricos muito piores.
* * *
O romance cubano "El Hombre, la Hembra y el Hambre", de Daína Chaviano, foi publicado na Espanha em 1999 e ganhou o Prêmio Azorín. (Seu outro romance, "A Ilha dos Amores Infinitos", é vendido como "o romance cubano mais traduzido de todos os tempos".) O título original, excelente trocadilho, significa "O homem, a fêmea e a fome" - se fosse eu traduzir em português, traduziria como "O falo, a fêmea e a fome".
O livro conta a história de Cláudia, professora de História da Arte, que por dificuldades financeiras e políticas, se vê obrigada a se prostituir para sustentar seu filho pequeno. A questão das jineiteiras, mulheres cubanas que se vendem às vezes por um prato de comida, é abordada com muita sensibilidade e força. Ao longo da narrativa, Claudia volta no tempo, acompanhada pela visão de uma negra escrava, Maba, que quer lhe mostrar como era a Havana de seu tempo, fazendo com que Claudia termine por se apaixonar por essa Havana que nunca conheceu e, assim, se apaixone mais ainda pela Havana dilapidada onde vive.
Alguns trechos:
"En so nos hemos convertido las cubanas: en las geishas del hemisferio ocidental. ¿De qué nos sirvieron los tratados sobre arte, las discussiones sobre las escuelas filosóficas en tiempos de Pericles, las lectures sobre los orígenes hegelianos del marxismo (...)? ¿Para terminar en la cama con un tipo a cambio de comida?" (42-43)
"Hablaron incansablemente, sin dejar de jugar a ese póquer tan habitual entre cubanos: calibrar la sinceridad del prójimo. Era una pesadilla que se alzaba entre todos, oponiéndo-se dolorosamente a la propria esencia del isleño que se debatía entre su natural deseo de ser amistoso y la necesidad de no mostrar sus sentimientos hasta saber quién era el otro. Más que un diálogo, se trataba de un duelo: todo un arte que los convertía en émulos de cualquier agencia de contraespionaje, sin proponérselo." (29)
Gostei muito da leitura, mas duas coisas me incomodaram. Abaixo, a primeira:
* * *
Falta de Perspectiva Histórica
Depois da queda da União Soviética, no final de 1991, com quem Cuba fazia mais de 80% do seu comércio exterior, a ilha entra numa situação de penúria extrema. Nos piores anos, 1992 e 1993, houve até fome, algo que não se via há décadas. Quando Chaviano publica seu livro, em 1998, no exílio, as coisas já tinham lentamente melhorado, mas não muito. Seu romance faz uma crítica feroz da Revolução, merecida em muitos pontos, exagerada em outros:
"... los pueblos, cuando han dejado atrás la pobreza, empiezan a padecer de amnesia; pero todos han compartido debilidades comunes. Cuando unas pasan, luego llegan otras. Y ésta era la hora de Cuba, el momento de su máxima miseria, de su peor degradación, aunque no debido a una guerra. Y eso era lo más triste: que aquella aberración no tenía una causa que la justificara. Parecía más bien la obra de alguien movido por un odio pertinaz hacia todo un pueblo, que se hubiera dedicado, metódica y sistemáticamente, a minar cada rincón de su espíritu, destruyendo cada antiguo pilar que lo sostenía, desde su dignidad hasta su historia." (242)
Claudia, a protagonista, tem visões de figuras do passado - uma negra escrava amigável, um índio severo, um mulato sedento por sexo - que sempre lhe aparecem com augúrios e portentos. Então, subitamente, o espectro da negra escrava começa a levá-la para viagens à Havana do passado, dos séculos XVIII e XIX. Claudia fica extasiada: saindo de uma Havana pobre e dilapidada, no auge da sua maior crise econômica de todos os tempos, ela conhece uma Havana que era talvez a cidade mais rica e próspera do continente, seus enormes e ricos palacetes ainda tinindo de novos. A velha Havana é descrita em termos sempre idílicos, e sempre em oposição à Havana do presente:
"Todos - negros, blancos o mulatos, vestidos con ropas humildes o lujosas, a caballo o en calesa - se movían con aire desenvuelto y despreocupado. Trató de descubrir, a la escasa luz de los faroles de gas, algun rasgo de sigilo o cautela; y no lo logró. Eso la dejó más pasmada aún. En aquella marea de ademanes desfachatados no descubrió irritación, angustia o miedo; los tres sentimientos que más abundaban el La Habana que ella conocía. Era evidente que el ánimo de la colonia era otro." (184)
Talvez o mais irônico seja que, nem mesmo sendo guiada pelo espírito de uma negra escrava, a personagem (e a autora) tenham se dado conta da ilusoriedade dessa riqueza. Sim, Havana era uma cidade rica e próspera, mas rica e próspera para quem? As pessoas idealizam o passado porque, em seus delírios, sonham que estariam sempre entre os 2% que não tinham uma vida absolutamente horripilante. Mas, na Havana colonial, assim como no Rio de Janeiro, ou você era escravo (maioria absoluta da população); ou você era um negro forro ou branco pobre, em situação sempre absolutamente desesperadora, pois simplesmente não havia trabalho - todo trabalho que um branco pobre e ignorante poderia fazer já era feito por um escravo; ou você fazia parte dos 2% da população que era dona de palacetes, viajava à Europa e tinha uma vida idílica - ou quase, pois você vivia em pânico de ser apunhalado pelos negros escravos a sua volta.
Enquanto eu lia, a ingenuidade (talvez estupidez) da personagem me saltava à cara: pra começar, não é verdade que, em uma cidade colonial latino-americana escravista, todo mundo andava assim feliz e tranquilo. Os escravos (grande maioria das pessoas nas ruas) estavam sempre ou realizando tarefas pesadas e desagradáveis, ou andando com medo da polícia, e os brancos, esses nunca perdiam aquele medo primordial de estar cercado de gente que poderia, a qualquer momento, se rebelar contra você e queimar sua casa e estuprar sua filha. Sinto muito, Daína, mas uma cidade onde a maioria da população seja escrava (e estou pensando aqui nas três cidades que mais conheço e amo no mundo: Rio de Janeiro, Havana, Nova Orleans) jamais vai ser esse paraíso de pessoas andando despreocupadas pelas ruas.
Além disso, por favor!, a Havana colonial era uma ditadura muito mais repressiva e assassina do que a Revolução Cubana jamais foi, gerida por uma coroa distante, desejosa somente de riquezas e não ligando a mínima para o bem-estar dos habitantes ou para besteiras que ainda nem tinham sido inventadas, como direitos humanos e civis. Não havia liberdade de imprensa, de religião, de associação, nada. Até mesmo os 2% de brancos ricos e donos de palacetes viviam oprimidos por tanta falta de liberdade - mas pelo menos tinham dinheiro pra compensar. Sinceramente, eu me sinto até meio ridículo de ter que escrever um parágrafo tão óbvio assim.
Por muito tempo, achei que a ingenuidade era só da personagem. Claudia ficava babando pela beleza estonteante de um palacete colonial havaneiro e eu ficava esperando que, a qualquer momento, a sua guia-espectral negra escrava fosse levá-la subitamente para uma senzala, ou para um engenho de cana, e dizer: "então tá, sua deslumbrada, deixa eu te mostrar quem paga essa conta, deixa eu mostrar o sangue de quem foi usado pra caiar essas paredes", mas nunca aconteceu. A ilusão da Havana colonial idílica, onde todos andam despreocupados, aparentemente também é compartilhada pela autora.
Só pra dar um exemplo de como isso poderia ser feito. O romance cubano "Cecília Valdés" (1882) é, na minha modesta opinião de oitocentista, ao lado de "Moby Dick", o melhor romance escrito nas Américas no século XIX. (Em outros gêneros: poesia "Canção de Mim Mesmo" e "Martín Fierro", ensaio, "Abolicionismo" de Nabuco) "Cecília Valdés" começa como um romance romântico de costumes, mostrando os desencontros amorosos de jovens brancos havaneiros. Em um dado momento, vão todos para o campo, passar o feriado no cafezal de uma das personagens e, subitamente, o romance inteiro muda: parecemos ter entrado em um filme de terror, tem até escravos torturados e mortos, sufocados com as próprias línguas. Pensem assim: é como se estivessem lendo "A Moreninha" e, de repente, ela virasse "A Lista de Schindler", como se todos os personagens fossem passar o feriado em Dachau. A mensagem naturalmente é clara: a boa-vida dos branquinhos riquinhos havaneiros não é de graça; vejam como é a vida dos escravos que trabalham no cafezal que paga por essa festa toda. (Ah, e a vida dos escravos do café, do algodão e do tabaco nem era das piores: sofriam bem mais os escravos da cana e das minas.)
Enfim, a Revolução Cubana errou demais e foi inepta em muitas áreas, mas acusá-la de "ódio ao povo" e de querer "destruir sistematicamente o espírito de Cuba" me parece bastante ridículo e exagerado. Do mesmo modo, me parece infantil e ingênuo celebrar a exuberância da Havana colonial sem nunca problematizar, lembrar, mencionar de onde veio tanta riqueza. A verdade é que, a não ser que ela fosse parte dos 2% de privilegiados escravistas, a personagem Cláudia provavelmente estava melhor de vida sendo pobre na Havana dilapidada do Período Especial.
Amanhã: literatura pra inglês ler.
* * *
Sobre Cecília Valdés, sinceramente não posso recomendar esse romance mais enfaticamente.
Compre Cecília Valdés na Amazon
Leia ou baixe Cecilia Valdés no Projeto Gutenberg
Aliás, o já citado romance de Daina Chaviano, "A Ilha dos Amores Infinitos", é mais uma entre tantas releituras contemporâneas de "Cecília Valdés". Ainda não li.
* * *
Leonardo Padura Fuentes, atualmente, é um dos escritores cubanos mais lidos no mundo inteiro. Os quatro romances abaixo apresentam o detetive Mario Conde, da polícia de Havana. São todos excepcionais, eu não saberia escolher o melhor. Recomendo.
* * *
Posts similares:
Literatura de Contra-Espionagem em Cuba
Nova Orleans Gelada ou Os Escravos e a Cana
Típicos Personagens Negros da Literatura Brasileira
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Post anterior: Questão Léxico-Etimológica du Jour Próximo post: Turismo nas Ruínas de Cuba: Literatura para Inglês Ler