Sobre Escrever

De vez em quando, acho importante reler essa crônica. Mestre Albano Martins (vulgo Branco Leone) em sua melhor forma:

Estava lá nas Livrarias Curitiba (em uma só, é claro!), autografando um livro. A certa altura, a fila diminuiu, e aproveitei para abandonar os amigos e meu posto na mesa, para dar uma espiada na livraria. Andava por trás de alguma gôndola, folheando alguma coisa, quando percebi, ao meu lado, um moleque: alto, loiro despenteado e olhos muito sérios grudados num rosto que, à primeira vista, não pertencia aos olhos. Não tinha nem vinte anos, e olhava ao redor, desconfiado, como se estivesse a ponto de me assaltar. Tento aqui reproduzir o diálogo que se seguiu, usando o sotaque dele:

– Foi tu que escreveu aquele livro vermelho?

– Eu e mais nove. – respondi.

– E o SESC nisso?

– Pagou parte da edição, dividiu com a editora. – expliquei.

Pausa.

– Tu é de São Paulo, não é?

– Sou.

– O SESC de São Paulo é foda, né?

– Põe foda.

– Legal.

E voltou a olhar para os lados. Agora vinha o bote, era de se ver.

– Eu também escrevo. – ele disse.

– Ah, é? – simulei algum interesse para não decepcioná-lo, porque não vejo muita graça nesse assunto.

– É. – confirmou ele.

Outra pausa incômoda.

– E o que tu escreve? – perguntei, aproveitando para usar a gramática local.

– Poesia.

– Ah, é?

– É.

Mais uma pausa. Ou ele dava uma mãozinha, ou a coisa desandava: minha dificuldade com poesia é notória.

– Eu canto numa banda de punk-rock. – confessou, usando todos os erres do sotaque curitibano: “panquerrróque”.

– Letras tuas? – perguntei.

– Só.

– Então, é assim que tu publica?

– Não só.

Mais pausa. Eu estava curioso, mas quase desistindo. Era pausa demais, mesmo para quem tem paciência!

– Tu tem um blog? – investi.

– Não. Não tenho Internet. – disse cabisbaixo, como se alguém no mundo a tivesse. – Eu grudo é nos orelhão.

– Hein? – gaguejei.

– Eu escrevo, xeroco e grudo dentro dos orelhão. – me disse, quase sorrindo.

– Você gruda seus poemas dentro dos telefones públicos, e vai embora? – com o susto, perdi o sotaque e a gramática.

– Ué! Tu queria que eu ficasse lá pra quê?

– Besteira minha… Eu quis perguntar se você deixa algum meio de contato junto com os poemas? Um e-mail?

– Não tenho.

– Telefone?

– Não deixo. – parou um instante, e completou: – Eu nem assino.

Fez-se outra pausa, esta provocada pela minha boca aberta.

– Caralho… – consegui murmurar algum tempo depois.

– É… – respondeu ele.

Fiquei olhando aquele alienígena: na minha frente, estava um escritor, coisa rara, um dos poucos que conheço. Um cara que escreve. E só. Na verdade, ele escreve, xeroca e gruda “nos orelhão”. E acabou-se. Opinião alheia? Pra quê? Reconhecimento? Pfff… Sucesso? Não o faça rir. Editora, distribuidora, dez por cento do preço de capa, resenha nos cadernos literários? Ora, nada disso tem nenhuma importância para ele. Ele escreve e sabe que nunca vai chegar a lugar nenhum com isso. É quase como se tivesse vergonha do que faz. Cá pra nós, todos os que fazem isso também deviam ter. E eu lá na livraria, lançando um livro! Pateta…

Foi só depois que ele sumiu pelo meio das pessoas, que me ocorreu de lhe agradecer. Quis lhe dar um livro, sei lá, pagá-lo de alguma forma. Mas ele já tinha ido.

Depois desse encontro, continuei escrevendo. Mas desde então, nunca mais fiz isso com a mesma intenção, com os mesmos princípios. O curitibano vocalista de uma banda de panquerrróque quebrou alguma coisa em mim. Mas tudo bem, era uma coisa que estava estragada.

Se eu fosse forte, seria esse moleque. Mas sou fraco.

* * *

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23.04.10


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Comentários:


Comentário de: Ju Dacoregio

Já tinha lido, mas foi bom reler. Sempre é bom lembrar. Também não sou forte como esse cara, nem um pouco.

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 00:42



Comentário de: João Ricardo da Silva · http://berimbeat.wordpress.com

que da hora.

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 00:43



Comentário de: Júlia · http://innuendoblues.blogspot.com.

Porra. Quebrou em mim também.

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 00:49



Comentário de: Mauro #PSVsite · http://www.psvsite.com/cronicas

Simplesmente surpreendente.
Quebrou tudo, porque não esperava quebrar nada.

www.psvsite.com/cronicas

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 09:23



Comentário de: Thiago dos Reis · http://www.SPFC.Net

Tenho que comentar mas não tenho o que dizer. Estou mudo.

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 10:18



Comentário de: cottonboy · http://www.twitter.com/cottonet86

Sensacional

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 10:33



Comentário de: Amora.

Na minha cidade tem um poeta que passa de bar
em bar dando (de graça!) suas poesias. Quando
perguntam porque ele faz isso ele diz "Porque
não?". Há 10 anos, quando eu tinha 17 anos,
guanhei uma poesia manuscrita dele. Era linda!

Depois, anos mais tarde, ele passou num bar
onde eu estava.O bar era bem longe do primeiro
onde eu o encontrei. Dessa vez ele estava
vendendo seu primeiro livro, a R$10,00. Não
resistí, tive de comprar. Ele certamente não
me reconheceu, mas eu me lembrei na hora.

Hoje guardo a poesia manuscrita dentro do livro
com maior carinho. O cara é bom!

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 10:53



Comentário de: Fabio Robbe

Hmmm, não sei. Ainda estou tentando localizar a megalomania oculta no caso...

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 11:24



Comentário de: Marcio E. Goncalves

"Se eu fosse forte, seria esse moleque. Mas sou fraco."

Ah, ele nao eh um moleque. Como todo curitibano ele eh um pia.

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 11:32



Comentário de: Ronaud · http://www.ronaud.com

Incrível!

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 12:30



Comentário de: indy · http://adaptse.blogspot.com

Porque só eu que não consigo entender a genialidade desse Poeta dos telefones publicos? Não sei,penso que estou limitada quanto a certas coisas.Ele escreve e só? Não espera reconhecimento,retorno financeiro,nada?.Estranho,muito estranho isso.E porque tem que "quebrar" alguma coisa dentro da gente?Tem louco pra tudo nesse mundo,até pra escrever poemas...

Orelhão! hahaha

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 12:51



Comentário de: cottonboy · http://www.twitter.com/cottonet86

Indy, esse poeta de orelhões não é "genial". Não há genialidade nenhuma no que ele faz. Os poemas dele podem até ser ruim... o fato é que ele escreve e ponto. Diz o que pensa e sente e deixa para quem quiser ler.

Sem ego para ser massageado, sem necessidade de ganhar dinheiro ou algum prêmio literário... ele simplesmente escreve.

É um escritor. E só.

Sacou? -.-

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 13:43



Comentário de: Fabio Robbe

Ou seja, é apenas um ideal romântico de escritor, que serve apenas para escritores terem um rascunho de insight pouco articulado e acharem que há algo de bonito em escrever, dado que ninguém se culpa por ter um ego de escritor.

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 13:55



Comentário de: cottonboy · http://www.twitter.com/cottonet86

Ego de escritor? isso existe?

Pensei que houvesse apena Ego hahahaha repartições são novas para mim :p

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 14:08



Comentário de: Fabio Robbe

Não, desculpe. Escritor não tem ego.

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 14:10



Comentário de: @Tiagokoy

Escreve e pronto!
Foda!!!

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 14:12



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/


Ah sim, entendi.:)

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 16:50



Comentário de: Luis

Escreve e pronto? Só rindo.

Escreve sem ego porque não assina? Só rindo muito..


PermalinkPermalink 23.04.10 @ 16:55



Comentário de: Fabio Robbe

Gente do céu. Escritor só não tem ego pro garoto algodão aí. Todo mundo sabe que escritor precisa ter ego inflado. Esse texto é sobre a miséria de escrever.

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 18:08



Comentário de: Ricardo Aguieiras · http://dividindoatubaina.wordpress.com/

Não, esse texto não é e nem nunca foi sobre " a miséria de escrever ". É sobre o que falava a Clarice Lispector: "Escreve-se, apesar de." Mas isso,arrogantes nunca irão entender.Só os loucos e os sensíveis.
Belo Texto, bela percepção do viver e do escrever.
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br
http://dividindoatubaina.wordpress.com/

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 21:14



Comentário de: Amora.

Pro verdadeiro artista não há outra opção senão
fazer sua arte. O escritor de verdade escreve
porque "precisa". Não faz isso pra vender
livro, pra ter reconhecimento, pra ganhar
dinheiro...embora todas essas coisas possam
vir a acontecer. O pintor pinta porque precisa.
O escultor esculpe porque é uma NECESSIDADE.

A necessidade primeira é se expressar.Aliás,
não entendo como as pessoas NORMAIS conseguem
viver sem fazer algum tipo de arte.Pra onde
é que elas fogem quando se cansam das outras
pessoas? Como elas conseguem ter um momento
que seja só delas, senão pela arte?
Ah...já sei. Elas bebem, se drogam, jogam bingo.

PermalinkPermalink 24.04.10 @ 09:02



Comentário de: lucas

qual a diferença entre um cara que cola poemas (possivelmente ruins) em orelhões sem assinar e alguém que comenta em um blog, sem deixar link e com nome falso?

PermalinkPermalink 26.04.10 @ 12:10



Comentário de: cottonboy · http://www.twitter.com;wottonet86

Lucas,

Depende. A pessoa simplesmente comenta e nunca mais volta? Ela escreve um comentário sobre alguma opinião no texto ou ela cria algo novo sem referencia com o texto? Se o primeiro caso ela é simplesmente crítica, se o segundo ela se intromete numa discussão. Eu vejo algumas muitas diferenças. Até porque, no segundo caso você ainda pode encontrar interferencia de terceiros, comentando, relatando, fazendo referencia ao comentarista anonimo.

No caso do orelhao, aquela obra deixa de ser do garoto e passa a estar perdids para quem encontrar. Ele nao fica a espreita para ver a reacao das pessoas, se elas levam o papel para casa, se elas comentam com alguem no orelhao ao lado. Ele regurgita e vai embora. Quem quiser que cheire, limpe ou vomite também.

Isso se alguém achar aquele papel... que pode ser que nunca seja lido.

Não faz diferença para o garoto, suponho eu.

Agora, qual a diferença entre colar papeis em orelhoes e escrever num blog que você não divulga e que não aceita comentários?

PermalinkPermalink 27.04.10 @ 01:24



Comentário de: Nessa · http://garotacocacola.wordpress.com

realmente, escritor de verdade escreve porque precisa - pouco importa o retorno.
o alívio que a escrita produz nenhum dinheiro pode pagar.

PermalinkPermalink 27.04.10 @ 09:08



Comentário de: Vivien morgato · http://www.mejoana.blogspot.com

Eu já havia lido, o texto é bom demais.

PermalinkPermalink 27.04.10 @ 18:35



Comentário de: Branco Leone · http://brancoleone.wordpress.com

Permitam-me parafrasear Magritte: "Isto não é um escritor".

PermalinkPermalink 27.04.10 @ 20:17



Comentário de: Ulisses Adirt · http://incautosdoontem.opsblog.org/

É fraco e tem que comer.

PermalinkPermalink 28.04.10 @ 17:52



Comentário de: Ricardo Chicuta · http://www.asaventurasdechicuta.blogspot.com

Não sou forte nem fraco.Sou diferente,de uma maneira "pior" que a do vocalista da banda Punk rock.Admiro o cara.

PermalinkPermalink 20.06.10 @ 19:25



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