Cuba está passando por uma onda de privatizações.
A propriedade privada dos meios de produção, proibida desde 1969, está voltando. Hoje, cubanos já podem vender sua força de trabalho dos seguintes modos: fazer seu carro de lotada; alugar quartos para estrangeiros; transformar sua sala de estar em um pequeno restaurante.
O setor de serviços ainda é um monopólio estatal. Um cubano não pode, por exemplo, vender sua força de trabalho como encanador, empregado doméstico, carpinteiro, etc.
Enfim, na nova etapa da abertura que vem sendo realizada pelo presidente Raul Castro, o governo acabou de privatizar grande parte das barbearias e cabelereiros do país. Antes, todos esses estabelecimentos pertenciam ao governo, que pagavam salário aos funcionários. Agora, os estabelecimentos serão dados aos funcionários, que em troca terão que pagar aluguel e impostos - não imposto de renda, mas um imposto adicional para o negócio poder funcionar.
Parece tudo muito lindo e livre e coisa e tal, mas fico pensando. Quantos desses salões e barbearias eram de fato rentáveis em uma economia estagnada como a cubana?
O governo, na prática, está deixando de ter uma saída (os salários dos funcionários) em troca de duas novas entradas (o aluguel e os impostos) e, ao mesmo tempo, repassando o risco totalmente para os cidadãos.
O funcionário, por outro lado, que está há 50 anos protegido e insulado das realidades do mercado, qe não deve ter um único osso capitalista no corpo, completamente acostumado ao salário certo todo mês, acabou de ser jogado nas incertezas do mercado: se a barbearia não arrecadar o suficiente para pagar o aluguel e os impostos, ele vai viver do quê? Existe plano pra isso? Os funcionários estão preparados para essa mudança? Foram treinados e educados em como gerir um negócio por conta própria?
Prevejo, para breve, muitas falências de barbearias em Cuba.
(Aliás, imagino, o cubano médio, apesar de tão bem escolarizado, é capaz de nem saber o que é uma falência. Nunca viu. Nunca experimentou. Em breve, aprenderão.)
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