Conheço muitas pessoas que respeitam a lei. Dizem coisas como: "você não pode fazer isso... porque é contra a lei!" Mesmo se ninguém estiver vendo, mesmo se não houver possibilidade de ser pego, ainda assim dizem: "É a lei!" Falam da lei com um certo temor reverencial, como se fosse um ente perfeito, acima de todos nós, testado pelo tempo, maior e mais sábio do que qualquer pessoa. Enfim, algo que merece o maior respeito.
Conheço muitas pessoas que odeiam políticos. Têm verdadeiro asco. Não confiam em nenhum. Nem lembram em quem votaram pra vereador, deputado ou senador, porque não faz diferença mesmo: é tudo corrupto. Pregam o voto nulo ou o voto em branco. Na mesa de bar, sugerem explodir o Congresso e, em volta, todos riem, rárárá. Defendem o estado mínimo: afinal, tudo em que político encosta, se corrompe. Usam a palavra "político" como se fosse palavrão: "está vendo, sabia que a escolha dos caças da Força Aérea seria.... *asco na voz* ... política!" Enfim, os políticos só merecem desrespeito.
O mais engraçado é que geralmente são as mesmas pessoas que dizem as duas coisas.


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* * *
Tento entender, mas não consigo. Como conciliam tamanho asco pelos políticos com tamanha reverência pela lei criada por esses mesmos políticos?
Eu pergunto:
Você sabe como são feitas as leis? Já viu alguma sessão da Constituinte? Já leu alguma ata do Congresso? Quem você pensa que propôs, votou, redigiu, aprovou essas leis? Quinhentos honestos e cultos paladinos da justiça, sem nenhum segundo interesse no coração, sem influência de nenhum lobby, interessados somente no bem-estar dos brasileiros? Sério mesmo?
E a resposta é sempre mais ou menos assim:
Mas Alex... É a Lei! A lei é a lei!
* * *
Eu não respeito a lei.
Eu não acho que a lei é boa, que é moral, que é sábia, que é válida como guia de conduta, que é eficiente como ferramenta de justiça social ou bem-estar na população.
Não respeito as leis porque não respeito as pessoas que as redigiram, não respeito os eleitores que elegeram essas pessoas, não respeito o sistema político que coordenou esse processo e não respeito a sociedade que os produziu a todos.
Eu não acredito na moralidade judaico-cristã. Eu não acredito que o trabalho tem valor ou que enobrece. Não acredito em propriedade privada, meritocracia, mão invisível do mercado, ou fair-play. Não acredito que a concorrência, seja entre pessoas ou instituições, faça emergir o melhor. Não acredito em comunismo, anarquismo, teologia da libertação ou bondade inerente do homem. Não acredito que alguém saiba o que é melhor pra mim. Não acredito em maior envolvimento do governo na sociedade. Não acredito em estado grande - mas também não acredito em estado mínimo.
Sigo a minha própria consciência, moldada por minhas leituras e vivências. Não delego minha moralidade à lei: examino tudo caso a caso.
Quando a lei não bate com o meu código de conduta, só a respeito por conveniência.
Não acredito em contrato social. Nunca assinei nenhum contrato social. Não devo nada ao Estado Brasileiro.
Se o Estado que (teoricamente) monopoliza a violência diz que é proibido fazer X e eu não faço X, é porque ou
1) também acho errado ou
2) porque nunca quis fazer X o suficiente para arriscar a possível punição;
Mas NUNCA porque eu respeite ou valide minimamente essa regra aleatória de "não poder fazer X".
Não dou ao Estado NENHUM direito moral de me proibir a nada. Reconheço que ele é maior e mais forte que eu e, por isso, evito quebrar suas regras abertamente para não sofrer o peso do seu castigo. Autoridade moral, zero.
Sim, o Estado Brasileiro me deu muita coisa: por exemplo, cuidou da minha segurança muito mais do que da maioria da população; aliás, cuidou da minha segurança justamente CONTRA a maioria da população, garantindo que minha vida de branco rico não fosse excessivamente inviabilizada por essa gente marrom invadindo minha praia, andando pelo meu shopping chique ou disputando vagas de empregos comigo. O Estado Brasileiro também me deu uma educação gratuita de primeira, quando eu poderia e gostaria de ter pago por ela, ao invés de oferecer essa educação gratuita para quem de fato não poderia pagar. O Estado Brasileiro gastou dinheiro embelezando meu bairro e cultivando os canteiros centrais da avenida onde eu morava, fazendo com que o apartamento da minha família se valorizasse - ao invés de gastar esse mesmo dinheiro providenciando saneamento básico para ruas de terra nos bairros de gente marronzinha. É pra eu respeitar como ética a lei e a autoridade que emanam desse estado?
Não me sinto obrigado a nada em relação a esse Estado - que tirou da boca de outros pra colocar na minha. Em retribuição a esse Estado que me deu desproporcionalmente tanto, eu o desmontaria inteiro, para impedir que fizesse o mesmo de novo com outra geração de filhos da elite.
Gosto muito de morar nos Estados Unidos, mas quero voltar logo para o Brasil, pois aqui não tenho direitos de cidadão, sou uma pessoa de segunda-classe. Aqui, sou da turma que mora na rua sem asfalto porque o governo gastou o dinheiro no paisagismo do bairro dos brancos mais clarinhos. Aliás, aqui, nem branco sou.
Aí me perguntam:
"por que você não vira cidadão americano?"
Porque eu teria que fazer o Juramento a Bandeira (Pledge of Allegiance) e eu me recuso a jurar lealdade a qualquer um, qualquer bandeira, qualquer estado, qualquer país. O Brasil, pelo menos isso, nunca extorquiu de mim juramento algum. Não devo nada ao Brasil. Mal posso contar as horas pra voltar.
Não sou leal a nada a priori, pois todas as situações mudam e você nunca sabe o dia de amanhã. Sou leal a minha consciência e às pessoas-que-amo. Só. E tanto minha consciência quanto as pessoas-que-amo estão em movimento, mudam o tempo todo. Não sou coerente.
Obedeço às regras com as quais concordei. No meu local de trabalho, existem muitas regras. Ao aceitar o trabalho, eu implicitamente aceitei todas as regras. Se achasse alguma delas inaceitável, não aceitaria o trabalho.
(Existem exceções. Dei aula em uma escola onde os professores não podiam usar o telefone pra chamadas pessoais. Sim, foi antes do celular. Sempre que eu levantava aquele telefone do gancho, as professoras e funcionárias em volta me olhavam como se eu estivesse prestes a passar a mão na bunda do guarda. E eu explicava: "me recuso a trabalhar onde sou tão pouco valorizado que não posso usar o telefone. Então, finjo que a regra não existe e me comporto normalmente. Se algum dia me despedirem por isso, é porque eu realmente não queria trabalhar aqui." Toda reunião dos professores a diretora reiterava a proibição. Todo mundo me via telefonando, em plena recepção, lugar de maior movimento. Nunca ninguém da direção falou comigo. Nunca me despediram.)
Além de uma lealdade primordial e tribal às pessoas-que-amo, não me acho obrigado a nada, nem mesmo a falar a verdade, ser ético, cumprir a lei, ser um bom cidadão, essas divindades seculares que até os mais ateus idolatram.


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Outro dia, um leitor me acusou de tentar salvar o mundo.
Eu não acho que o mundo, o homem, a sociedade brasileira tenham salvação - mas eu também não acho que precisem ser salvos de qualquer coisa.
Somos o que somos e é só isso que somos. Não está bom?
* * *
Não acredito que a vida seja sagrada. Não acredito que matar é pecado. Não acredito em conceitos como "sagrado" ou "pecado". Não acredito nem mesmo que matar seja errado. Não acredito em um "errado" (ou em um "certo") assim, abstratos, flutuando no ar sem conexão com situações reais e concretas.
Se acho que não devo matar ninguém, é por três motivos:
1) por empatia, porque gosto muito da minha vida, imagino que seria terrível alguém tirando-a de mim, consigo me colocar no lugar da pessoa cuja vida eu tiraria, e também das pessoas que ela ama que ficariam sem ela, e sinto calafrios de terror;
2) por cautela, pois é arriscado, a pessoa pode me matar ao se defender, sua família pode querer se vingar, o estado constituído pode me prender;
3) por sociabilidade, porque nenhum homem é uma ilha e, com algumas poucas exceções, matar outra pessoa é socialmente mal-visto.
Mas nada disso quer dizer que seja errado, ou que exista um imperativo moral contra isso. Se o motivo for bom, se o risco de reação ou punição for pequeno ou inexistente, se for uma pessoa suficientemente detestável para que eu não sinta empatia, por que não?
"E o que seria um bom motivo pra matar alguém?"
Oras, a questão é justamente essa: não sei! Se já tivesse aparecido algum bom motivo para matar alguém, eu provavelmente já teria matado alguém. Não vou limitar minha futura liberdade de ação me prendendo a regrinhas abstratas elaboradas a priori.

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Nesse momento, fim de conversa, alguém levanta o que talvez seja o pior argumento de todos os tempos:
"Mas e se todo mundo fizer como você? A sociedade acaba!"
E rebato na hora:
"Mas e se cair um meteoro na Terra, levantar uma nuvem de poeira, cobrir o sol e exterminar a humanidade?"
"Porra, Alex, você tá de sacanagem?"
"Não. A possibilidade que eu descrevi é infinitas vezes mais provável que a sua: existe uma pequena chance de cair um meteoro na terra, mas não existe NENHUMA chance de todas as pessoas começarem de repente a agir do mesmo jeito, nessa nossa espécie que nunca concordou em nada, ainda mais por causa das MINHAS ações. Simplesmente impossível."
De qualquer forma, independente disso, não devo nada à sociedade. Se minhas ações individuais pudessem, realmente, de fato, de verdade, criar um efeito em cascata que terminaria no completo colapso da civilização ocidental, eu diria: bem-feito. Uma civilização que caia por tão pouco não merecia mesmo estar de pé.
Mãos a obra, então, vamos construir outra. E tentar fazer direito dessa vez.
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