Todo mundo tem seus limites. Um dos meus é a regra 3-1 para amigos deprimidos: você tem que aparecer no mínimo três vezes bem e feliz para cada vez que aparece chorando e precisando de colo, senão o relacionamento fica inviável. Agora, estou descobrindo outro limite.
Eu adoro meus amigos quando estão felizes. A gente fica alegre juntos, nos divertimos, quem não ama?
Eu adoro meus amigos quando estão com problemas, quando caem de cara no chão, quando sentam no meio-fio e choram. A gente abre um pote de 10 litros de sorvete de chocolate, trocamos problemas, falamos mal de meio mundo, choramos nas camisas uns dos outros. E as coisas, devagar, vão melhorando.
Mas não consigo lidar com amigos que estão infelizes mas fingindo que estão bem. Que sabem que estão fazendo uma enorme burrada, mas que vão em frente assim mesmo, na ilusão de que tudo vai dar certo apesar de todas as evidências. Cujos lábios sorriem um sorriso tosco e forçado, o sorriso da vitória da esperança sobre a experiência, mas cujos olhos revelam bem sua tristeza, sua depressão, sua consciência do tamanho do erro que estão cometendo.
Eu não tenho o que fazer, entende? Fico impotente, de mãos atadas.
Não posso ficar feliz com eles, por estarem finalmente fazendo o que tanto querem, pois sei que vai dar merda. Aliás, JÁ deu merda. E, pior, eles sabem disso: está lá, escancarado na tristeza dos seus olhos.
Não posso chorar com eles pela merda que deu, pois ainda não estão chorando, estão segurando o choro e fingindo que está tudo bem, torcendo pra ainda ter volta, torcendo pra ainda acontecer algum milagre.
Então, o que posso fazer? Não sei.
Não posso compartilhar nem da sua felicidade, pois é uma felicidade falsa, é uma felicidade que eles mesmo estão se esforçando para sentir; e também não posso compartilhar de sua infelicidade, pois é uma infelicidade reprimida, negada, recalcada.
Não posso ser o louco temerário que diz
"Isso mesmo! Vai em frente! Apesar de todas as evidências em contrário, vai dar tudo certo! Confia no milagre!"
Mas também me recuso a ser o mala cassândrico estraga-prazer que fica repetindo
"Não faz isso! Já avisei que vai dar merda! Já deu merda! Bota a mão na consciência! Não seja alucinado!"
Então, o que me resta? Go through the motions e fazer as coisas que sempre fazíamos, sem nunca conversar sobre o elefante na sala? Sou intenso demais pra isso. Fico angustiado, nervoso, subindo pelas paredes. Desde pequeno, sempre fui a pessoa que aponta pra nudez do rei, que monta no elefante na sala: não sei fingir que ele não está ali.
Pois é, não sei.
(Mas, com certeza, nos comentários, várias pessoas que não me conhecem e não fazem idéia do que estou falando terão soluções na ponta da língua. O bom de blog é que a gente pelo menos se diverte.)
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Aviso Tristemente Necessário
Cuidado! Se você está saindo desse texto achando que ele é sobre amigos que fazem o contrário do que a gente aconselha, então entendeu tudo errado. Por favor, leia de novo.
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Pré-Faq dos Comentários
Não, o problema não é a MINHA opinião. EU achar que vai dar merda é irrelevante. Tenho valores e opiniões inteiramente diferentes dos meus amigos. Todo dia, me aparecem amigos felizes e esperançosos prestes a fazer algo que EU SEI que vai dar merda, de casar e ter filhos até aceitar um emprego fixo e fazer uma hipoteca.
Mas foda-se minha opinião. A vida é deles. Pode ser que dê certo. Pode ser que não. De qualquer modo, é errando que a gente aprende. O importante é que estão fazendo o que querem com suas próprias vidas: mais tarde, o preço nós todos pagamos, de um jeito ou de outro. Quando e se der merda, eu, meu braços amigos, meu colo, estaremos aqui para acolhê-los.
O problema são os amigos que fazem o que não querem. Que se casam como quem vai pro cadafalso. Que gostariam de fazer Biologia ou Educação Física, mas que se matriculam em Medicina como se fossem pra guerra. Porque é o que se espera. Porque dá dinheiro. Porque é assim que o mundo funciona. Porque apesar de jovens, já estão tomados pelo medo.
O problema não é meu amigo fazer algo que EU não concordo: isso acontece todo dia. O problema é ele fazer algo que ELE visivelmente não concorda também. É isso que me dói o coração.
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¡Ânice post