Perder num primeiro significado do mais banal dos dicionários é ficar sem a posse de, sem a propriedade de, sem o domínio ou a faculdade de. Então, perde-se casa, perde-se documento, perde-se tempo, perde-se cachorro. Numa outra definição, perder é cessar de ter, deixar de ter ou de sentir por algum tempo, nesse sentido, perde-se a esperança, perder-se a confiança, perde-se o amor próprio. Perder ainda pode ser: sofrer dano, detrimento, perda ou prejuízo em, sofrer prejuízo nos seus haveres; ter mau êxito em; cessar de ter, deixar de ter ou sentir por algum tempo , desorientar-se, errar o caminho, transviar-se , naufragar; empregar sem proveito; desperdiçar, dar cabo de; não vingar; ficar vencido em; pagar ao concorrente ou parceiro que ganhou; não chegar a tempo para; desfazer-se de, deixar fugir, desperdiçar, desaparecer; extinguir-se, ficar separado pela morte de; baralhar-se, confundir-se , ficar absorvido ou preocupado , sumir-se, tornar-se indistinto, misturar-se na multidão; levar à perdição; corromper(-se ); deixar fugir, não aproveitar; causar sua própria ruína.
A unidade dos contos de Onde Perdemos Tudo encontra-se nesses vinte e tantos sentidos da palavra perder. Com delicadeza, Alex Castro costura encontros e desencontros, achados e perdidos, sem perder o humor e a malícia. Apesar das perdas, o livro não é triste, mas cheio de beleza e reflexão. Onde perdemos Tudo é lugar de encontrar.
Repercussão
O conto mais bem realizado ... é o primeiro "A morte de meu cachorro". História de um momento em que um casal se separa, e cada um vai cuidar de sua vida. A velhice e a solidão são atingidas quando o narrador não é reconhecido por uma alma gêmea, obrigando-se a conviver com experiências que não são mais plenamente compartilháveis. Esse esvaziamento se dá num cenário que deveria ser palco de um reencontro. A amiga muda-se para Buenos Aires, o narrador segue para visitá-la, tentando vencer a distância espacial, que cumpre seu papel: "Lendo cada um sua seção do Clarín, Fiona e eu padecíamos de um silêncio ainda mais cancerígeno [sic]: o silêncio de quem tem muito a dizer, mas prefere calar; o silêncio da conveniência. Pra que discutir? Emudecer poupa dores-de-cabeça, explicações, embaraços. Sobra o nada". Esta elevação do silêncio a uma categoria cancerígena revela a forma dramática de representar alguns episódios. O conto não segue um fluxo narrativo contínuo, trabalha com flash-back e janelas, que são abertas para esclarecer coisas ou resumir passagens. ...
O componente que dá literariedade aos contos é a ironia, a busca de soluções bem-humoradas. O autor, que brinca o tempo todo com conceitos literários, transita por um universo em que cabem produtos literários sofisticados e outros da cultura de massa. Os diálogos, os subtítulos e os títulos dos contos e dos livros inventados ganham um tom paródico. Tudo apontando para uma saborosa desconstrução da seriedade. Onde perdemos tudo apresenta narradores meio tagarelas – outro pedágio à internet? -, mas é justamente nisso que reside sua força. E se falta uma maior voltagem literária nestes contos, é indiscutível que a prosa de Alex Castro já possui apelo estilístico.
Miguel Sanches Neto, "O Globo"
[O livro de contos Onde Perdemos Tudo] é uma das melhores coisas que li nos últimos tempos. O conto A Porta é uma pérola, digno de figurar numa antologia dos 100 melhores contos brasileiros. Não é pouco. ...
[A Morte do Meu Cachorro] é brilhante. Narração de primeira linha. É um blues na temática (pois todo blues conta a história de uma perda) e abarrocado na sua forma, com as codas lambendo delicadamente cada parágrafo, a espasmos, acrescentando informações e apagando outras, vai pra frente & pra trás com uma desenvoltura de gente grande. São lambidas de gato, portanto. O tema da perda de uma amizade, aliás, se não me engano, é novo na literatura brasileira (não me lembro de outro). O estilo é maduro, adulto, sem que o distanciamento interfira no mergulho. Ele estraçalha o sentimento, vai fundo, tem Machado na parada, no sentido de esmiuçar até a exaustão cada milímetro da situação. ... Intocável, perfeito.
Furio Lonza
... uma das coisas mais lindas que eu já li na vida, assim, em todos os tempos.
Fal Azevedo, "Drops da Fal"
[Sobre A Porta] Um bom conto se reconhece pelo final: vitória por nocaute. ... Alex também é um escritor que conhece como poucos seu ofício. "A Porta" segue à risca os ensinamentos de mestre Júlio Cortázar, que dizia: "Enquanto no romance você conquista o leitor por rounds, no conto você deve abatê-lo por nocaute". E, de fato, Alex Castro leva à lona seus leitores. Não apenas em "A Porta", como também nas quatro outras narrativas que compõem o livro Onde Perdemos Tudo. ... é um filho da puta que escreve bem, desgraçadamente bem. Bom nocaute."
Alexandre Inagaki, "Pensar Enlouquece, Pense Nisso"
Onde Perdemos Tudo é formado por 5 contos, em 120 páginas, sobre o tema comum de perda. O ebook, em formato pdf, custa R$10. Você paga e, assim que cair o pagamento, eu te envio o livro por email.
Ficou curioso? Instigado? Pô, dez reáu é uma merreca, vale a pena arriscar. Deixe de comprar uma bananada e torne-se acionista da novíssima literatura brasileira.
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